Um dia em que a escola morre um pouco

01/12/2009 por marinhos

30 de novembro. Segundo me disseram, pela atual convenção coletiva de trabalho firmado entre o Sindicato dos Professores de Minas Gerais, o SINPRO, e o sindicato patronal, essa é a data limite para as escolas da rede particular de ensino, da educação infantil à superior, demitirem seus professores, desmotivadamente, sem correr o risco de indenizá-los em todo o 1o semestre de 2010.

Essa data de alguma maneira se repete a cada ano, ou semestre. Mudam o mês, o dia do mês, o da semana. Mas não muda a angústia.

A apreensão já rondava as escolas da Educação Básica muito antes dessa data. Em corredores e salas de professores o assunto, há alguns dias, era a demissão de colegas. Quem estará na lista? Quantos serão demitidos?

Muito contribui para esse estado de coisa a constatação de que as escolas andaram fazendo seleção de professores. Num primeiro momento as administrações podem dizer que se trata apenas de ter-se um cadastro de possíveis colaboradores em um futuro. Mas os professores desconfiam. Afinal, por que selecionar alguém se não for para aproveitá-lo de imediato?

Os últimos dias de aula tornam-se, porque não dizer, angustiantes. É cada professor ou professora se perguntando se estará de volta no ano seguinte. Difícil trabalhar com essa  angústia. Aliás, como qualquer uma.

Imagino como cai a qualidade do trabalho docente nesses dias pré-demissões. Reflexões devem povoar as mentes dos professores e professoras; talvez em suas mentes sobre pouco espaço para as questões cotidianas da escola. Claro que os alunos são importantes. Não há dúvida que as responsabilidades profissionais têm que ser cumpridas com rigor e qualidade. Mas como se as mentes ficam ocupadas com a grande dúvida: Serei demitido?

[para continuar]…..

Vergonha!

08/11/2009 por marinhos

Graças aos telefones celulares e o YouTube foi possível ficar sabendo de um lamentável episódio ocorrido, no último dia 22 de outubro, em uma unidade da UNIBAN em Santo André.
Uma aluna do curso de Turismo teria “provocado” cenas de selvageria por estar usando “trajes inadequados”. Esse seria o entendimento ao final de uma sindicância levada a cabo na instituição.
No vídeo não se vê esse traje que não deveria estar em um campus. O que se vê são cenas explícitas de selvageria.
A cena que mais chama a atenção é a saída da aluna, escoltada pela polícia, aos gritos de puta. Quem grita? Seus colegas, universitários, alunos de curso superior, gente adulta.
Em sua coluna no jornal Folha de São Paulo na última sexta-feira, Fernando Gabeira comentou a reação de um dos alunos dessa universidade. Em fúria, o aluno teria dito que não queria ter essa mancha em seu diploma.
Mas não ficou claro o que seria a mancha em um diploma emitido pela UNIBAN. Seria a de ter aluna que vai às aulas usando um vestido que deixa à mostra uma parte generosa de suas pernas? Ou seria a selvageria de alunos, colegas da “loira de pernas de fora” e do aluno furioso? Não consegui saber, permaneço em dúvida.
Hoje me surpreendo ao saber, por jornal e rádio, que a aluna, vítima de um episódio que será sempre lembrado e comentado, acabou sendo expulsa da UNIBAN.
O motivo da expulsão? Ela teria faltado com respeito à dignidade acadêmica e à moralidade. Não teria sido ética. É para rir ou para chorar?
E os alunos que abandonaram as salas de aula para gritar o coro que marcou o episódio? Permanecem alunos, claro. Porque, mais do que alunos, são pagadores. Pagam por aulas que abandonam para agredir colegas. Mas isso não é problema se pagam em dia. Depois, façam o que quiserem, inclusive atos condenáveis como violentar moralmente uma aluna da mesma instituição, uma colega.
Oos alunos ainda mereceram o  reconhecimento da UNIBAN. Segundo a sindicância, aqueles atos - que aos olhos de qualquer pessoa decente não passam de exemplos da mais pura barbárie – nada mais foram do que uma “reação coletiva de defesa do ambiente escolar”.  Ou seja, adotaram o “estupro moral” para garantir a sua escola, a educação que ali recebem.
Recomendo à UNIBAN  um  desconto nas próximas mensalidades dessa turba  – que, mais do que pelas pernas de fora, se excitou pela própria fúria - como prêmio por essa defesa intransigente de valores que, imagino,  devam ser os praticados naquela instituição. Premiem a intolerância, a selvageria, o bullying. E façam escola.
O educandário – era assim que se falava há alguns tempos atrás de qualquer escola – escolheu expulsar a vítima, aquela que se viu reconhecida de repente, por suas própria palavras, como sendo  “a puta do YouTube”.
O que me possível concluir é que, nessa instituição, agredir moralmente uma colega seria ato compatível com a dignidade da vida acadêmica. Violentar a moral de uma colega não fere o decoro universitário. Cometer uma violência emocional não constitui infração disciplinar. Ou se for, é coisa leve, que se paga com alguns poucos dias de suspensão.
Não sei se o aluno furioso, do qual Fernando Gabeira fala, decidiu agora por se envergonhar do diploma que certamente obterá um dia. Mas o motivo para a vergonha não pode estar, certamente, em ser colega de Geisy Arruda, a vítima e culpada, segundo a UNIBAN, de um dos mais deprimentes episódios de selvageria que assisti, graças a celulares e o YouTube, nos últimos tempos.
A única coisa que me alivia é que não corro risco algum de ter um filho matriculado nessa universidade, que protege arruaceiros e pune vítima.
Para a UNIBAN, Geisy deve ser tão culpada quanto a vítima de estupro que teria provocado o agressor. É, tem gente que pensa assim: as mulheres são sempre culpadas pelos crimes que homens praticam contra elas.
Para a UNIBAN os ”estupradores emocionais”, os “violentadores da honra” podem continuar frequentando o campus.
A novidade estaria apenas em uma frase para a nossa tradicional coleção: “Estupra, mas paga.” Mas não se trata de pagar pelo ato insano. O que importa é pagar mensalidade. Pois é com isso que essa universidade se importa.

Web 2.0 e aprendizagem

06/11/2009 por marinhos

Em artigo publicado online,no iMasters, no UOL, Rita Guarezi indaga: “A Web 2.0 muda os processos de aprendizagem?” A autora chama a atenção para a chegada da internet na escola, destacando, com absoluta razão, que nesse espaço que considera diferenciado o que se viu foi, de maneira geral, mais uma vez uma reprodução de conteúdos e atividades tal qual se via no modelo presencial.
De fato, a internet permitiu inovar na mídia. Mas não é isso que modifica práticas educacionais.
A mudança tem que estar na cabeça dos professores; não bastar estar no entorno.

Deixe na sala de um professor tradicional um computador e ele, se o usar, pedirá um projetor multimídia e exibirá uma apresentação gerada no PowerPoint, dando um suporte “moderno” ao jeito que sempre usou em salas de aula. Continuará usando a fala para informar.
O PowerPoint, usado como a antiga transparência, será a mesma cola que era possível com o retroprojetor. Será que professor que não cola sai da escola?
Segundo Rita Guarezi, ao definir-se um curso que seria “mediatizado por tecnologias” o professor deveria responder a algumas perguntas que, afirma, tornaram-se muito importantes. Algumas delas: Quem são as pessoas que vamos formar? O que já sabem e o que não sabem sobre o que vamos falar? Como elas aprenderam a aprender? Quais são seus estilos cognitivos? Que competências precisam desenvolver?
Tendo a ver um equívoco quando se argumenta que tais questões se tornaram importante porque mediatiza-se com a tecnologia o espaço de aprendizagem. Tais perguntas cabem no início e ao longo de qualquer processo de formação.
Não podemos nos permitir acreditar que só a educação a distância baseada na internet deva se preocupar com isso. Ou que tal preocupação surja apenas e tão somente porque existe hoje uma educação online. Lá mesmo ela não ocorre de maneira tão disseminada quando sugerem alguns, imaginam outras. A velha escola se faz presente também no ciberespaço, exatamente porque quem a determina é o professor, seu pensar sobre a educação, não as tecnologias.
Essas são questões que devem estar nos fundamentos da educação, seja presencial, seja a distância.
Mas de todo, vale a pena ler o artigo de Rita Guarezi e pensar sobre ele. Contudo  recomendo que se pense nele para além do e-learning.
E respondendo à questão que ela coloca no título do artigo, eu digo: a Web 2.0 não muda os processos de aprendizagem.
Mas torço para que os professores mudem seu pensar sobre o que deve ser educação hoje, que tenham pensamentos contemporâneos com esse mundo que aí está. Quando isso acontecer, esses professores privilegiarão a aprendizagem, ao invés do ensino. Buscarão construir estratégias para que seus alunos construam conhecimentos, ao invés de passarem a vida decorando informações que lhes foram ditadas e que serão cobradas em provas.
O professor que chegar lá usará certamente a Web 2.0, sabendo que se tratam, muito mais do que recursos, de novas linguagens. Assim, a Web 2.0 será útil a aprendizagem, sem jamais ser determinante dela. Isso é tarefa de professor. Tarefa sagrada, por sinal.

Função docente

30/09/2009 por marinhos

Vergonha

30/09/2009 por marinhos

vergonha

“Deve sentir vergonha de si mesmo o país no qual pessoas se envergonham de serem professores.”

Pensamento que ocorreu quando eu assistia, hoje à tarde, uma mesa redonda que debatia o exercício do magistério por egressos do curso de Ciências Biológicas, dentro da Jornada de Biologia da PUC Minas.

ENEM 2009

29/09/2009 por marinhos

ENEMAproximam-se as datas de realização do ENEM, o Exame Nacional do Ensino Médio.
Neste próximo final de semana, mais de 4 milhões de estudantes, concluintes ou já “formados” no Ensino Médio, enfrentarão uma maratona de dois dias, com 180 questões a serem respondidas e uma redação para ser feita.
Serão usadas exatas 113.857 salas de 10.385 diferentes escolas, em todas as unidades da federação. É um exame com dimensões que casam com a do Brasil.
Depois, possivelmente em janeiro de 2010, virá o que menos me agrada: a batalha do ranking das escolas.
Lamentavelmente as escolas particulares transformaram um indicador que serviria para compará-la, ano a ano, consigo mesma, em uma vitrine.
Escola bem posiconada no ranking que acabou sendo criado não perdem alunos e  até pode ser que conquistem alguns. Escola mal posicionada corre sério risco.
Mas o mais detestável nisso é que, pela não obrigatoriedade do exame, algumas escolas selecionam, por “simulados” os melhores dos seus alunos para fazerem a prova. Os fracos ficam em casa no final de semana – o que não é mesmo ruim – e não atrapalharam a escola na sua busca pelas melhores posições no ranking.
churrascoOuvi de um aluno meu na graduação a história de sua escola e sua própria quanto ao ENEM. É uma escola bem posicionada no atual ranking.
Segundo ele, quando aluno do 3o ano do Ensino Médio, a escola aplicou um “simulado” do ENEM. Resultado pronto, listou os alunos que deveriam fazer a prova. Aos demais, solicitou que não se inscrevessem, que não fizessem a prova. E prometeu a todos um churrasco se a escola ficasse bem posicionada. Deu certo. E a turma pôde comer uma “carninha” por “conta da casa”.
Por conta do ranking do ENEM, existem escolas que promovem um verdadeiro assédio a bons alunos de Ensino Médio. Chegam a oferecer bolsas de estudos a bons alunos de outras escolas para que se transfiram para ela e venham a fazer parte do seu “time vencedor” no ENEM.
Há pouco tempo passei em frente a uma delas, com meu filho que cursa atualmente o 3o ano do Ensino Médio e nestes sábado e domingo estará a uma boa distância de casa fazendo as provas, já que seu colégio exige a participação de todos.
Havia um grande número de alunos embarcando em ônibus de turismo; seguiam para uma festa da escola.
Dentre aqueles, alguns eram conhecidos do meu filho. Depois que eles os cumprimentou, perguntei-lhe de onde os conhecia. Haviam sido seus colegas, alguns desde a educação infantil, e no 2o ano do EM transferiram-se para aquela escola, uma campeã do ENEM.
Parei para analisar a situação. Esses jovens estudaram ao menos 11 anos em uma determinada escola. Foi nela que tiveram de fato sua formação. Agora, no último ano da Educação Básica, estão em outra escola e por ela farão o ENEM. Desde que saiam bem nos “simulados”; se não, que fiquem em casa no próximo final de semana.
escolaPensei em que essa escola onde estão pode ser melhor que a outra. Apenas na estratégia de buscar alunos para ajudá-la a ter boa posição no ranking das escolas. Ela jamais preparou de fato muitos, talvez a maioria, dos seus alunos. Isso foi tarefa para outras escolas. O que possivelmente fez por esses jovens foi apenas treiná-los para o exame que virá. E amanhã, bem posicionadas no ranking, proclamará a qualidade do seu ensino, verá a lista de enorme de candidatos a serem seus alunos por conta dessa vitória que, pensando bem, é de outros.
Por isso espero que logo, logo o ENEM seja obrigatório a todo concluinte do Ensino Médio. Assim, quando algumas escolas não puderem ser representadas no exame por 10, 15% dos seus alunos, pelos melhores, teremos finalmente um quadro mais adequado da qualidade que essas escolas cantam em suas propagandas. Aí, caidas as máscaras, pode ser que eu me convença que de fato uma escola é mellhor mesmo que outra.
Mas possivelmente nem isso eu farei. Afinal, o que faz uma escola ser melhor não é resultado de um exame de um ou dois dias. É a  marca que deixou em jovens que freqüentaram seus bancos por anos. É a educação que imprimiu neles, como marca indelével, a ser carregada por toda a vida. Pois, afinal, é isso o que vale. O que decoraram para fazer provas e exames será logo esquecido.
Como sempre digo, qualquer escola, em qualquer grau, forma. Algumas, poucas, transformam. São estas as que de fato me interessam.

Uma avaliação feita de encomenda para reprovar alguns. Isso tem sentido?

19/09/2009 por marinhos

Meu convencimento é de que avaliar bem não é tarefa fácil.
Também penso que é muito fácil criticar avaliações.
Não duvido um instante sequer que existam instituições de ensino superior reprováveis no Brasil. Há mesmo muita ruindade por aí, por várias razões.
evaluation_090919-1.jpgAs diversas avaliações levadas a cabo pelo INEP/MEC revelam ruindades. 
E, como se viu no último ranking, em várias casos a ruindade está também em IES públicas. É como se a ruindade deixasse de ser privilégio das IES particulares. E cai o mito de que qualidade é coisa apenas para IES públicas que, de maneira geral, contam, para início de conversa, com alunos oriundos das melhores escolas da Educação Básica. Mais preparados, conquistam mais vagas nas IES públicas. Restam aos menos preparados, notadamente os que vieram de escolas públicas da Educação Básica, o caminho das IES particulares, algumas verdadeiros caça-níqueis mesmo.
Mas como acreditar de todo em um sistema que é feito para reprovar mesmo algumas IES? Ou em um sistema que limita o número de IES que terão a nota máxima?
Pois é esse exatamente o problema que acaba revelado em manifestação do Ministro da Educação, Fernando Haddad, em matéria publicada hoje no jornal Folha de S.Paulo.
Segundo o ministro, o modelo de avaliação adotado pelo MEC pressupõe que sempre haverá IES com notas baixas,assim como poucas com nota máxima.
Fernando Haddad admite que o modelo de avaliação adotado pelo ministério do qual é titular for aplicado na França haverá instituições com IGC [Índice Geral de Cursos] igual a 1, o nível mais abaixo. O ministro é enfático: “Sempre haverá cerca de 12% das matrículas em instituições com desempenho insuficiente.”
Me vi pensando se Haddad fosse diretor de uma escola na qual eu pretendesse matricular meu filho. Eu desistiria disso assim que soubesse que, antes de qualquer prova, já estivaria decidido que apenas 12% dos alunos teriam nota máxima e que de qualquer jeito alguns alunos seriam reprovados.
Afinal, não deve haver escola que reprova apenas para ajustar resultados possivelmente à curva da normalidade.
Em síntese, não tem sentido uma avaliação “gausiana” – que me perdõem pelo neologismo – que força a reprovação de alguns para que o “destino da curva do sino” se faça.
Escola que é escola mobiliza recursos para que todos os alunos sejam aprovados, deseja que todos alcancem nota máxima. Ou não?
Escola que avalia ciente e consciente de que terá que reprovar alguns para mostrar que a curva da normalidade funciona não tem sentido.
A avaliação que o MEC vem fazendo é desse tipo. Algumas IES, alguns cursos terão que “tomar pau”, ainda que venham a obter nota que não conduzisse a isso. IES e cursos serão reprovadas apenas para mostrar que a curva do sino também se manifesta nessa avaliação, que os resultados seguem a “normalidade”, ainda que ”encomendada”.
Será que a todo aluno interessa saber se estuda na melhor IES, no melhor curso de sua área?
Ou ele quer apenas saber se a sua IES ou o curso tem a qualidade necessária?
Mas com esse ajuste à curva do sino, como de tudo no mundo fosse normal, que certeza esse aluno terá da real “nota” da sua IES ou do seu curso?
No artigo Tremores no Ensino Superior,  publicado em 18/9/2009 no jornal Folha de S. Paulo, Arnaldo Niskier afirmou que, pelo que comprovam os recentes exames nacionais, estamos diante de uma tragédia anunciada. 
Pois é, ele não falou nessa perspectiva, mas a  metodologia adotada pelo MEC prenuncia mesmo algumas tragédias. Independente de pontuações que IES ou cursos venham a obter, alguns serão “reprovados” e a tragédia estará no cenário, dele e dos que são seus alunos.
Repito: existem IES e cursos superiores ruins. E devem ser fechados se, dada uma oportunidade, não melhorarem.
Mas é hora de batermos o sino para alertar sobre o risco de  injustiças que possam estar sendo cometidas, em nome da estatística, na avaliação do ensino superior.

Educação a distância: o que precisa ser pensado

18/09/2009 por marinhos

O fato de que o Brasil possui hoje indicadores muito baixos na educação superior – é um pouco mais de 2 milhões de universitários numa população de 160 milhões de habitantes – o notável avanço das novas tecnologias da informação e a ampliação do acesso, associados a uma maior demanda por educação continuada, são alguns dos motivos pelos quais a oamis_ead_1educação a distância (EAD) está incluída na pauta do dia de muitas organizações escolares.

O ensino na modalidade a distância está previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Sua utilização em cursos superiores, a nível de graduação, já foi regulamentada pelo MEC

A EAD chama hoje a atenção de várias organizações brasileiras, principalmente as universidades. As nossas universidades estão começando a investir na implantação de cursos a distância, na graduação, na pós-graduação e na extensão, visando ampliar o número de estudantes a serem atendidos.

Muitas pessoas e instituições que nesse momento procuram se organizar para oferecer cursos de EAD parecem estar sustentando seus projetos numa premissa que nos parece falsa. Elas parecem acreditar que EAD é fácil de se fazer, é barata e é lucrativa.

Esse tipo de crença pode vir a ser muito prejudicial nas ações queoamis_onlinelearning_2 conduzam à organização e oferta de cursos a distância.

A questão que deve estar sendo discutida nos foros debate sobre EAD não é a distância. Não podemos nos resumir a discutir as estratégias e os recursos tecnológicos disponíveis hoje para a EAD.

O grande debate deve se concentrar num ponto: o tipo de educação que se pretende oferecer.

Temos que discutir o paradigma que norterá as ações nesses cursos, as estratégias que assegurarão a qualidade de seus processos, a formação de recursos humanos capazes de contribuir para a qualidade de cursos a distância.

Não podemos levar para Web ou para as salas de vídeo-conferência o tipo de educação que hoje acontece na maioria das escolas. Ele está assentado num paradigma instrucional, que não tem mais significado na educação contemporânea. Com certeza não se poderá fazer à distância as mesmas mazelas que a escola vem fazendo na educação presencial. 

Da mesma forma e com os mesmos ímpeto e dedicação, temos que discutir estratégias para que com a EAD possamos fazer uma estratégia da inclusão social. Sem maiores cuidados estaremos criando um novo espaço que só será acessível a uns poucos, aqueles mesmo já privilegiados na educação presencial.

No período de 22 a 24 de setembro de 1999, foi realizado, em Belo Horizonte, no campus da UFMG, o 1o. Seminário Internacional de Educação a Distância. As estratégias e tecnologias inovadoras para uma educação de qualidade constituirão o tema referencial do evento. Palestras, mesas-redondas e oficinas foram as  várias estratégias adotadas no seminário para que as pessoas vivenciem aspectos da EAD, troquem experiências, discutam preocupações, avaliem possibilidades. O SINPRO-MG também discutiu a EAD em seu VII Congresso, realizado em Belo Horizonte em outubro de 1999.

É isso o que tem que ser feito. A EAD tem que ser bem pensada.

oamis_investigaTemos que investigar as melhores formas de fazê-la. Não podemos nos perder numa aventura, cuja norte não seja nada mais do que uma estratégia de se conseguir recursos financeiros para as instituições de ensino, numa lógica pautada pelo mercado.

A EAD tem uma clara justificativa pedagógica no Brasil num momento em que buscamos melhorar nossos indicadores de educação. Mas não podemos fazer EAD de qualquer forma. Precisamos cuidar do quantitativo mas não podemos abdicar da qualidade. Todo espaço que houver para essa reflexão será importante, será bem-vindo.

Simão  Pedro P. Marinho, em agosto  de 1999

[A fotografia acima foi reproduzida de   "An overview of on-line learning", de Saul Carliner].

A educação de uma nova geração: urge uma reforma da escola

18/09/2009 por marinhos

Falar em educação é falar sempre em desafios. Falar em educação no Brasil é certamente falar em problemas e crises. Contudo, de modo geral em todo o mundo a educação vive uma grande crise.

Essa crise está assentada num modelo de escola que se implantou no século XIX, quando a revolução industrial começou a demandar massas de trabalhadores necessários para atuarem em fábricas e nos escritórios.

oamis_educa_2A escola que então se implantou, e que se tornou inclusive compulsória, incorporou os paradigmas daquela revolução industrial. A escola se transformou em uma linha de montagem, onde o aluno era o produto. Por isso não é difícil, ao ver o filme “Tempos Modernos”, enxergar a realidade da escola que se mantém no mesmo formato até os dias de hoje.

Desde a implantação daquele modelo de escola, gerações e mais gerações foram formadas nessa linha de produção. Testes padronizados, professores num exercício repetitivo do ato de ensinar, ênfase num processo de ensinar que era o monólogo de quem sabia para que nada sabia, uma “tabula rasa”, eram as marcas daquela escola. Mas são ainda essas marcas que estão na escola de hoje.

No final do século XX, marcado pelo avanço das tecnologias da informação, vamos encontrar uma empresa alterada, distante daquele modelo fordista do início do século. Profundas alterações estão acontecendo nas instituições do setor produtivo. Novos paradigmas são incorporados nas fábricas e no setor de serviços, transformando-se a empresa que agora tem que ser “enxuta”. Dowsinzing, just in time, GQT, reengenharia e outros chavões permeiam o setor produtivo. Pela natural vinculação entre educação e o mundo do trabalho, muitos desses chavões chegaram até mesmo às escolas; mas foi modismo, já que pouco ou nada nelas se alterou.oamis_trabalhador

Nesse novo cenário da economia, o perfil do trabalhador demandado pelas indústrias se altera profunda e rapidamente. É notável a clara tendência de mudança nos processos e formas daquele trabalho tradicional que era marcado por características tais como a segmentação, a repetição e a padronização. Era assim quando o trabalho estava baseado nos axiomas tayloristas e fordistas, onde a especialização profissional era a tônica. Vemos surgir hoje uma nova forma de trabalho, como decorrência da revolução informacional, cujas características principais são a integração, a des-hierarquização e a flexibilização (Castro, Armando B. Impactos nas novas tecnologias da informação. 1995) e que coincide com a globalização da economia e com a imperiosa necessidade da competitividade baseada na qualidade na busca de mercados consumidores.

Nesse novo quadro de predomínio de altas tecnologias de informação, baseadas principalmente no computador, e de novas padrões de produção, aquele “apertador de parafuso especializado”, tão bem caracterizado por Charles Chaplin no filme “Tempos Modernos”, perde rapidamente seu valor como força de trabalho.

O trabalhador que exerce mecanicamente suas tarefas começa a ser parte do passado e está fadado a incorporar-se à legião de excluídos se não conseguir se adaptar às novas demandas que se colocam (Moraes, Antônio E. Educação e emprego. 1998). Nos acostamentos da information highway vão ficando os novos excluídos do setor produtivo alterado pela revolução provocada pelo avanço da informática.

Como destaca Pierre Lévy (O que é virtual. Editora 34, 1996), o trabalhador contemporâneo não tende mais a vender a sua força de trabalho; o que ele estará vendendo é competência, isto é, “uma capacidade continuamente alimentada e melhorada de aprender e inovar”. Nesse novo cenário, o puro adestramento enquanto estratégia de formação de recursos humanos perde significado; muda-se a ênfase nos processos de formação de mão-de-obra. Cada vez fica mais evidente que a formação não pode ser considerada esgotada em momento algum. Assim, educação ou formação continuada passa a ser mote.

Quando a inovação competitiva passa a ser a pedra-de-toque, quando as empresas assumem uma rotina de mudanças e se reinventam a constantemente (Mariaca, Marcelo. A nova competição trabalhista. 1999) elas precisam buscar um novo tipo de profissional. O perfil que se estabelece para esse novo profissional gera uma nova demanda da matriz formadora de mão-de-obra para o trabalho, ou seja, a escola. Da escola se espera ou se demanda um novo “produto”. A escola tem que se tornar moderna para responder a esses desafios.

Mas da mesma maneira que as empresas têm que se repensar e fazer seu redesign para terem vez na sociedade da informação, a escola tem que se rever.

Da mesma forma que não basta colocar computador numa empresa para ela se torne moderna (Persona, Mário. A nova economia. 1999), de nada adiantará colocar computadores para uso pelos alunos se as práticas na escola continuarem as mesmas, se os professores (agora com o concurso de uma nova mídia) continuarem a ser emissores de informação e seus alunos os passivos receptores, se o currículo permanecer inalterado.

oamis_educa_1A escola que se pretende contemporânea precisa enfrentar, por seus atores, diversos desafios para que a incorporação das novas tecnologias da informação possa realmente agregar valor ao processo de formação de seus educandos (Marinho, Simão Pedro P. Educação na Era da Informação; os desafios na incorporação do computador na escola. São Paulo: PUC, 1998). Apenas enfiar o computador nas salas de aula é um desperdício de dinheiro e uma estratégia, mesmo que não intencional, de iludir pais e alunos com uma perspectiva de educação moderna.

A escola precisa mudar. E é nessa escola modificada, revista, que as tecnologias da informação poderão dar seu contributo na adequada formação do cidadão do século XXI, o indivíduo produtivo na sociedade do conhecimento.

Simão Pedro P. Marinho, em junho  de 1999

Internet na escola

18/09/2009 por marinhos

O excepcional avanço no uso Internet, notadamente nos últimos dois anos, vem demonstrando claramente os impactos que ela pode provocar – e de maneira geral vem provocando – em diversos setores de uma sociedade globalizada. No Brasil o número de usuários da Internet aumenta de maneira expressiva.

A “navegação” pela WWW (Wide World Web), seja para comprar, procurar emprego ou simplesmente se informar, e o correio eletrônico ocupam cada vez mais tempo no cotidiano de famílias das classes média e alta. Adultos, adolescentes e até mesmo crianças começam a usar a Internet de uma forma tão natural como ligar o rádio ou a televisão na busca de informação e entretenimento. Em tal cenário, é bastante razoável imaginar que essa tecnologia possa trazer impactos relevantes na educação.

oamis_computadorNesse mesmo tempo a escola ainda se vê desafiada para incorporar o computador nos processos de ensino-aprendizagem de uma forma que efetivamente agregue valor ao processo educacional. Pais e alunos, movidos principalmente pela lógica da empregabilidade, demandam da escola o uso do computador. A concorrência leva também à informatização das escolas: “Se a escola concorrente usa o computador, a minha escola tem que fazê-lo” pensam os diretores, muito embora não se ocupem em avaliar a qualidade e adequação desse uso. Enquanto isso a escola ainda permanece um pouco perdida no como usar essa tecnologia. São várias as razões, que vão desde o despreparo dos seus professores para um uso inteligente dessa tecnologia até a carência de bom software de uso educacional.

De repente, como se encontrasse uma solução mágica, a escola passou a ver na Internet uma possibilidade de uso mais imediato do computador nos processos de aprendizagem.

Mas o que é a Internet?

Sem considerarmos que talvez seja o “maior depósito de lixo” já criado pelo homem, a Internet deveria ser vista por dois prismas, se quisermos destacar bem suas funções. De um lado, ela funciona como uma grande biblioteca, oferecendo informação das mais diferentes formas e da mais variada qualidade. Por outro lado ela se torna um grande caminho de comunicação entre pessoas e, não seria exagero afirmar, uma estratégia que vem resgatando a comunicação escrita (embora o uso exagerado dessa forma de comunicação já comece a reduzir o contato entre pessoas)..

Olhemos para a biblioteca e a escola.

oamis_estudante_3Uma biblioteca tem seu valor, que é inegável, nos processos de aprendizagem. Mas não basta que ela esteja presente ou acessível; é preciso que o aluno saiba como usá-la. E isso significa não só saber como acessar o que ali está colecionado, mas principalmente selecionar o que ali está colecionado, sabendo de sua adequação à tarefa de escola e de aprendizagem. Portanto, o aluno precisa aprender a usar a biblioteca antes de o fazer. Esse ensinar a usar é uma tarefa da escola num processo de formação do aprendiz.

Da mesma forma, ao simplesmente determinar ao aluno que vá à Internet e busque ali um ou outro texto a título de elaborar uma “pesquisa”, os professores e a escola poderão estão incorrendo em um grande engodo: estarão, mesmo que sem querer, iludindo os alunos – e até mesmo seus pais – ao fazê-los acreditar que isso é um uso adequado do computador na escola. E sem nos esqueceremos de que se dará ao aluno uma grande chance de lograr seus próprios professores já que os recursos dos browsers lhe permitem, com operações de copiar e colar, fazer com que passem como seus os textos de outros. Estarão se produzindo textos que são meras colagens, onde o único exercício do aluno será o manuseio do mouse ou do teclado, ao invés do exercício da capacidade intelectual.

Um outro potencial do uso da Internet na escola está na comunicação através do correio eletrônico e de outras formas (teleconferência, chat e outras).

No caso do correio eletrônico tem-se uma forma de comunicação assíncrona (os interlocutores não precisam tratar as mensagens no mesmo momento) e imediata (a transferência das mensagens é instantânea). E a comunicação é principalmente barata, já que se fala com o mundo ao custo de ligações telefônicas locais. É portanto uma possibilidade valiosa.

Mas acreditar que é simples esse uso da Internet na educação é outro grande equívoco.

Primeiro o aluno deverá estar preparado para essa comunicação. O aluno tem que saber o que, quando, como e com quem se comunicar. Prepará-lo para isso é uma tarefa prévia da escola para que os alunos não corram de despender tempo e energia com comunicações que em nada contribuirão no seu processo de escolarização.

Com certeza a Internet pode ser uma valiosa ferramenta para a escola. Mas mesmo com ela (ou talvez até mesmo por causa dela) a escola ainda terá o desafio de contar com professores preparados para estimular uma utilização de forma adequada e capazes de planejar tarefas de aprendizagem que possam estar eficientemente ancoradas nesse recurso.

Acreditar que a Internet chegará para a escola como a solução pronta e acabada para resolver o problema do uso do computador é uma ingenuidade que professores, diretores e técnicos educacionais não podem se permitir.

Simão Pedro P. Marinho, em abril de 1999