Paulo Blikstein e a educação brasileira

04/01/2012

Paulo Blikstein, brasileiro, professor da Universidade de Stanford em Palo Alto, Califórnia, Estados Unidos,  fala sobre as comparações que se fazem da educação brasileira com outros países.

Interessantemente, no início do seu depoimento, Paulo Blikstein acaba chamando a atenção de algo para o que tenho alertado: estatísticas que partem do suposto que em toda correlação tem uma causalidade e acabam usadas para desqualificar a educação brasileira e sugerirem aumento do número de alunos em sala de aula, não aumento de salário e outras “soluções mirabolantes”.
No Brasil são vários economistas que adoram isso. E seus “achados” são publicados em revistas e jornais de grande circulação no Brasil. Exemplo é a série de artigos sobre a educação na China, publicados em revista com grande circulação, onde comparações são feitas com a educação brasileira e, claro, a desqualificam.
Esses “econometristas” fazem o que chamo de “pesquisa preguiçosa” e acabam, midiaticamente, impactando mais do que aqueles que fazem pesquisas com grande rigor metodológico.

Na continuidade da entrevista, Paulo Blikstein aborda outros assuntos, incluindo o uso das tecnologias digitais de informação e comunicação na escola. Muitos aspectos que Paulo Blikstein aborda estão no fundamentos do Projeto Um Computador por Aluno, UCA.

Nativos digitais. Verdade ou mito?

16/12/2011

Em 2001, em artigo publicado no periódico On The Horizon, sob o título “Digital Natives, Digital Immigrants”, Marc Prensky introduziu o conceito de nativos digitais, contrapondo-o ao de imigrante digital.

Pode-se dizer que esse nativo digital é, basicamente, o indivíduo da net-generation, a geração net, caracterizada no livro “Growing up digital” de Dan Tapscott, publicado em 1997 e traduzido, no Brasil, sob o título de “Geração digital – a crescente e irreversível ascensão da Geração Net”. Os nativos seriam os chamados “millennials”.

Por outro lado, haveria os imigrantes digitais (non-millennials), indivíduos que, ainda que não sejam necessariamente luditas, que não saiam por aí quebrando computadores, seriam incapazes de aprender e ensinar como os nativos.

Em seu artigo, Prensky discutiu a necessidade dos professores, que seriam imigrantes digitais, reformularem suas metodologias, suas práticas em sala de aula. Sustenta essa posição sob a alegação de que os professores não teriam perícia suficiente para lidar com as tecnologias digitais.

Dan Pontefract, em post recente no seu blog Trainingwreck, considera que embora esses “nativos” possam ser mais espertos do que os indivíduos da geração que os antecedera, os filhos da geração Baby Boomer, necessariamente não preferem aprender de uma forma totalmente digital.
No post, que tem o título The Fallacy of Digital Natives, Dan Pontefract considera que os indivíduos mais  velhos, aqueles que seriam pois imigrantes digitais, podem estar usando usando a tecnologia para alterar os  seus estilos de aprendizagem da mesma forma. Dan Pontefract é bastante enfático:  aprendizagem e tecnologia nada têm a ver com o fosso geracional.

De forma similar, Siva Vaidhyanathan, em um ensaio sobre  o mito das gerações [Generational Myth], destaca que nem todas as pessoas mais jovens são experts em tecnologia. E é enfático: não existe essa coisa de geração digital.

Em artigo publicado, em 2008, no British Journal of Educational Technology, Sue Bennett, Karl Maton and Lisa Kervin chamam a atenção para o fato de que, embora os chamados “Millennials” vivam cercados por tecnologia, como outras gerações, sua utilização para a aprendizagem não é uniforme. Segundo os autores, não haveria evidências de um estilo de aprendizagem muito diferente do que se viu antes.

Uma pesquisa recente, realizada na Open University, na Inglaterra, sobre o uso de tecnologias por estudantes mais velhos, na educação a distância, pode contribuir para derrubar as ideias de Prensky e Tapscott.

A pequisa revela que, ainda que existam diferenças marcantes entre as pessoas mais velhas e as mais jovens, não há qualquer evidência de uma clara ruptura entre essas duas “populações” separadas.

É importante chamar a atenção para o que eu consideraria um risco embutido nos conceitos propostos por Marc Prensky, ao delimitar nativos e imigrantes pela faixa etária. Notadamente no caso do Brasil, são muitos os jovens que não crescem como nativos digitais, embora o devessem ser pela idade.

Há claramente um fosso, por oportunidades econômicas e sociais, que separa indivíduos que estariam em uma mesma categoria, a dos nativos, aqueles que viveriam praticamente imersos em um  mundo digital, parecendo sempre conectados com seus iPhones, iPods, tablets, comunicando-se através do MSN, Facebook, e outros que estão distantes dessa realidade.

Se olharmos com cuidado, veremos que os nativos digitais constituem uma elite de jovens e crianças. E não só na sociedade brasileira.

Por outro lado, não será a idade que definirá de forma absoluta os tipos, nativos ou imigrantes. Existem pessoas que, pela idade, seriam imigrantes – dentre elas, eu – mas que dominam as tecnologias digitais não raro em um plano que podemos dizer superior ao de muitos que são considerados nativos.

Por isso, me seduz mais a proposta de John Palfrey e Urs Gasser, em seu livro “Born digital: understanding the first generation of  digital natives” [no Brasil, o livro foi publicado pela Artmed, com o título "Nascidos na Era Digital: entendendo a primeira geração de nativos digitais". A tradução foi revista e comentada pelo meu particular amigo, Paulo Gileno Cysneiros] de ver os nativos como populações, ao invés de gerações.

O importante nesse caso é que, de forma diferente da proposta de Marc Prensky ou daquela de Dan Tapscott, não seria  a data do nascimento o determinante do que consideraremos nativos, e, por decorrência, imigrantes.

Como alguém que se considera um usuário ativo e com bom domínio das tecnologias digitais de informação e comunicação, me sinto mais à vontade em não ser tido como um ”imigrante digital”, o sujeito que terá que aprender toda uma nova cultura, apenas porque nasci em 1949, logo depois da II Guerra Mundial, bem antes dos anos 1980.

Independente disso, entendo que existem algumas questões que precisam ser trazidas para o debate, em especial para os espaços onde se formam professores, seja na graduação, seja na pós-graduação, seja na educação continuada. Exatamente porque se proclama uma necessidade imperiosa de mudança radical [seria disruptiva?] da escola para atender os nativos digitais.

  • Há de fato esse fosso tão marcado entre nativos e imigrantes?
  • Poderia o reconhecimento dessa diferença servir como uma desculpa de professores para não integrarem as tecnologias digitais em suas práticas?
  • Mas, se de fato existe esse fosso, como fazer com que os professores “imigrantes digitais” possam incorporar as tecnologias em suas práticas cotidianas em sala de aula?
  • Os professores se escorarão nessa diferença, entre nativos e imigrantes, para permanecerem “Inativos digitais” em salas de aula?
  • Como, em suas salas de aulas, os professores, “imigrantes digitais” e que, portant0,  não seriam  muito afetos às tecnologias digitais, ensinarão seus alunos, os “nativos”?
  • Teremos que esperar que uma nova geração de “professores nativos” chegue à escola para dar conta do desafio da mudança? E até lá, como ficamos?
  • De que forma os cursos de formação inicial, cujos corpos docentes estão essencialmente formados por “imigrantes digitais”, prepararão as futuras gerações de professores?
  • Os “imigrantes digitais” farão acontecer a inovação pedagógica que se ampara também em tecnologias digitais de informação e comunicação?
  • Enquanto isso, como fica a escola? No passado, ainda que sempre na promessa do futuro?

Portanto, nos lancemos ao debate.

O debate é mais do que  necessário, aqui e agora, porque mais e mais ações de políticas públicas avançam na compra de laptops para estudantes de escolas públicas, enquanto se inicia um movimento de aquisição de tablets para usos por alunos.

O debate é mais do que necessário, até para que desktopslaptops e tablets não sejam apenas apelo de marketing ou venham a significar recursos públicos desperdiçados.

[Baseado em posts publicados no blog Educação & Tecnologias, da disciplina "Educação e tecnologias da Informação", do Programa de Pós-graduação em Educação da PUC Minas].

ENEM. Prá que tanto desespero?

21/09/2011

Na quarta-feira da semana passada, ainda bem cedo, o telefone tocou.

Para quem tem uma mãe com 87 anos de idade e com saúde um tanto debilitada, um toque no telefone bem cedo assusta. Por mais otimista que queiramos ser, um telefone que soa fora do horário “comercial” traz apreensões.

Felizmente, não era sobre minha mãe, nada que me provocasse  preocupação.

Mas era uma mãe preocupada; desperada, eu diria.

Qual a razão do desespero? O resultado do ENEM.

Essa dona de casa desesperada, professora e minha ex-aluna na graduação,  queria ouvir-me sobre o resultado do ENEM.

O resultado saíra na segunda anterior e fora divulgado, pela grande mídia, na terça-feira.

Sua preocupação, a razão do seu desespero? A posição da escola dos filhos, em relação a uma outra da mesma rede e, principalmente, suponho, em relação às “campeãs”.

O que é esse ENEM, afinal de contas, que tanto assombra estudantes e pais?

É um exame que tem o objetivo de avaliar o desempenho do estudante ao fim da escolaridade básica.

Vejamos bem, ele avalia o desempenho em redação e em provas objetivas de quatro áreas do conhecimento: (1) linguagens, códigos e suas tecnologias; (2) ciências humanas e suas tecnologias; (3) ciências da natureza e suas tecnologias e (4) matemáticas e suas tecnologias.

Avalia a educação básica de cada aluno?  Diria, convencidamente, que não. Educação é muito mais do que desempenho em duas provas. Educação diz respeito a todo um trajeto, a uma vida quando se considera o tempo da educação básica, 12 anos no mínimo.

Avalia a qualidade da escola como fazem supor as publicidades e propagandas das escolas bem colocadas em um ranking que foi criado pela imprensa, jamais pelo MEC? De novo, decididamente, eu diria que não. Exatamente porque não são todos os seus concluintes que prestam o exame, que é voluntário.

Sabemos que algumas  escolas, da rede privada de ensino,  que escolhem os melhores alunos para fazerem o ENEM. Usando-os, buscam posições superiores no ranking, estratégia para ganhar novos alunos no ano seguinte, ou ao menos para não perder alunos para escolas melhor ranqueadas.

Me lembro agora da história contada por um aluno na graduação. Quando concluinte do Ensino Médio, ele foi um dos “convidados” pela sua escola para não fazer o ENEM. Ele não estava na lista daqueles com os quais a escola contava para “sair bem na foto”. Disse a todos, durante uma das minha aulas, que a escola convocou alguns alunos para fazer o ENEM, pediu a outros que não o fizesse e prometeu um churrasco para todos se sua nota final fosse boa. Evidentemente que omito o nome da escola. Mas é um colégio sempre bem posicionado no ranking das escolas privadas de Belo Horizonte e que faz bonito mesmo no cenário nacional.

O ENEM 2010 traz o índice de participação. Algumas escolas alcançaram 100%. Isso quer dizer que todos os seus alunos concluintes do Ensino Médio prestaram o exame, pensarão os tolos ou crédulos? Mas não é isso. Esses 100%, ou 75% ou o número que seja indicam quantos dos alunos inscritos no exame compareceram em seus dois dias e fizeram as provas.  Como a inscrição no exame não é obrigatória, podem estar ali, “representando” as escolas aqueles por elas considerados os melhores.

 O INEP destaca na nota técnica do ENEM 2010  que ” mesmo para as escolas com alta Taxa de Participação no ENEM, os alunos participantes podem não representar o desempenho médio que a escola obteria caso todos os alunos participassem, considerando o caráter voluntário do Exame”. Pimba! Portanto, nunca saberemos, até que o ENEM seja obrigatório para todos os concluintes, como é o caso do ENADE, que o retrato fornecido pelas notas reflete o que de fato acontece na escola com todos.

Quando o ENEM for obrigatório para todos, com as escolas que não tiverem 100% dos concluintes inscritos e participando das provas não tendo suas notas finais divulgadas, aí teremos alguma chance para acreditar que as notas refletem o desempenho de seu processo formativo, ainda que duas provas não sejam suficientes para mostrar percursos.

Existem escolas que, por estarem ranqueadas no ENEM, atraem alunos em seus anos finais do Ensino Médio. Carreiam para si os melhores alunos de outras escolas; os ruins, os fracos elas não querem. Será que podemos em sã consciência dizer que um aluno que passou, digamos, 8, 10 anos em uma escola e que depois vai para uma “escola campeã do ENEM” é um “produto dela”, teve uma boa formação básica por causa dela? Certamente que não!

ENEM. Assunto para continuar em outro post.

Uma estorinha de “mudança”

11/09/2011

Um diretor de uma escola brasileira – só pode ser particular, já que na rede pública o professor é “imexível” – demitiu um professor extremamente tradicional, que ali lecionava há 30 anos. Não porque não gostasse dele. Era boa gente, atencioso, frequente, pontual. Até os meninos gostavam dele. É gente boa, diziam.

Mas o diretor queria mudar o formato do ensino na escola e, por isso, contratou um recém-egresso da universidade.
Era jovem, deveria ter uma formação mais moderna, mais de acordo com o que deve ser preciso em uma escola do Século XXI
.
Seguramente o novato aprendera coisas sobre didática, psicologia e tecnologia educacional que o antigo professor sequer ouvira quando estava na universidade.
O desejo do diretor de oferecer um ensino inovador era mesmo enorme. E naquele professor recém-formado estava essa chance.
O diretor, sedento por ver a rápida mudança acontecer, decidiu
acompanhar o novo professor em seu trabalho. Ele seria o modelo para a mudança dos demais professores.
Percebeu que a arrumação da sala se mantinha como antes. As carteiras continuavam enfileiradas, cada aluno assentado atrás de outro
.
Contudo, pensou, isso é o de menos.
Mais importante que alterar o aspecto das salas, o essencial seria modificar as aulas. Uma nova didática, um novo ensino, uma educação moderna, ainda que as carteiras estivessem enfileiradas.
Acompanhou então uma primeira aula do professor novato. Ele usava o computador e o projetor multimídia. Enquanto falava, mostrava aos alunos uma série quase infindável de slides. Eram tantos que as luzes da sala só se acenderam no final da aula, quando soava o sinal.
O novo professor prometeu aos alunos, jovens que sem dúvida gostam de usar o computador, que enviaria a apresentação por e-mail.
Isso é um traço da modernidade, pensou o diretor.
Mas, depois de algumas aulas, viu que eram todas iguais. A dinâmica era sempre a mesma: aulas expositivas, alunos silentes, slides projetados em uma tela.
O diretor constatou, com enorme tristeza, que a forma de ensinar do novo professor era a mesma adotada pelo professor que demitira. Não fosse pelo computador, seria a mesma aula.
As provas, verificou depois, permaneciam do mesmo jeito, cobrando aos alunos a matéria que deviam decorar.
O diretor, incomodado, resolveu abordar o professor recém-chegado
. Questionou-o sobre as aulas, sobre o ensino. Afinal, tudo permanecia na mesma.
O professor, recém-formado, repetia o que o demitido fizera por anos e anos na escola, três décadas para sermos exatos.
“Por que nada mudou?”, perguntou então o diretor, em uma conversa reservada com o professor novato
Do novato ouviu uma resposta: “Toda a minha educação básica foi feita assim, em todas as escolas que frequentei, ao longo de onze anos. Depois foram mais quatro anos na universidade e tudo era dessa mesma maneira.”
E, encerrou o professor novato, desculpando-se: “Não sei como fazer isso diferente”.
Foi demitido na hora, apesar de toda a honestidade imediatamente reconhecida pelo diretor.
Logo depois o novo desempregado foi chamado para ser professor em uma instituição de ensino superior.
Agora podia realizar aquele que era o seu grande sonho: formar novos professores. [Publicado iem 12/02/2009, no meu blog Tecnologias digitais e Educação].

Formação de professores e Habilidades no Século XXI

07/03/2011

Sempre falamos dos novos desafios para que a escola da Educação Básica forme sujeitos capazes de se tornarem de fato cidadãos dos novos século e milênio. Desafios que professores e gestores da Educação Básica já precisam enfrentar para formar sujeitos capazes de se inserirem economicamente em uma nova sociedade, impregnada de tecnologias digitais, que demanda novas formas de aprender, de trabalhar, de se relacionar.

Mas nem sempre nos lembramos que tais desafios são também da escola que forma professores.

Nós, inseridos na escola que são as licenciaturas e a fazendo cotidianamente, proclamamos desafios para a escola  lá de fora enquanto esquecemos que eles são também nossos. Continuamos formando do mesmo jeito de sempre professores para uma escola cujo fim preconizamos, uma escola cuja obsolescência permanentemente denunciamos em nossas falas e nossos escritos.

Como querer que a escola lá de fora mude, se não formamos sujeitos, professores, capazes de serem agentes de mudança na educação?

Criticamos a mesmice das outras escola e, afinal, fazemos tudo para perpetuá-la exatamente porque formamos professores na/para a escola de ontem.

Assim, incapazes da crítica ao nosso próprio mal fazer ou não fazer, ao mesmo tempo que críticos do mal fazer ou do não fazer das outras escolas, acabamos fazendo na escola que é a licenciatura tudo para que aquelas escolas continuem a ser como são, inclusive alvos de nossa crítica permanente.

Quem sabe um dia eu arrumo tempo e legendo este vídeo e, assim, poderemos levar sua mensagem a mais gente?

Toda violência é gratuita. Ainda mais quando é por causa de nota na escola

10/12/2010

O foco do meu blog é educação, com destaque para a integração curricular das tecnologias digitais de informação e comunicação. Mas existem temas que me levam compulsivamente a escrever aqui.
Nesta semana tive dois temas em destaque, para abordar no blog, ainda que não dizendo respeito diretamente às tecnologias. PISA e violência contra professor na escola. O PISA fica prá depois. 
Na última terça-feira, em Belo Horizonte, um professor foi morto com uma facada no peito no corredor de faculdade onde lecionava. O assassino? Um dos seus alunos. O motivo? O descontentamento com uma avaliação. 
Há poucos dias, no Rio Grande do Sul, um estudante, também insatisfeito com a avaliação, quebrou os braços de sua professora e arrancou-lhe seis dentes. E depois, cinicamente, disse que não queria machucá-la. Só posso imaginar que queria matá-la. E, felizmente, não conseguiu.
Como coloquei no meu Twitter, assim que soube da morte desse professor de um curso superior de Educação Física e pai de duas crianças bem pequenas, se alunos insatisfeitos com suas notas continuarem agredindo e matando professores, dar boa nota a todos e qualquer um será ato de legítima defesa. Aprovar sempre, para sobreviver ileso, é o desafio que se coloca hoje aos professores, da educação básica ao ensino superior.
Se as coisas continuam assim, em breve teremos que alterar as matrizes curriculares da formação inicial de professor. Teremos que incluir disciplinas como Técnicas de Sobrevivência, Primeiros Socorros e Defesa Pessoal no currículo das licenciaturas. Ou, se não, independente de qual perfume usarem, sentiremos exalando de muitos professores apenas o cheiro do medo.

Uma experiência para construção coletiva de um “twittexto”

10/12/2010

 

Nos trabalhos da disciplina Educação, Sociedade e Tecnologia, do Mestrado em Educação da PUC Minas, tentei criar, com os alunos e alunas, o que chamei de “twittexto“.
A proposta era a de, através de contribuições de cada um pelo seu Twitter pessoal, mas articuladas ao Twitter da disciplina, criarmos um texto cujo tema seriam as redes sociais virtuais e a escola.
Conforme a orientação, cada nova “tuitada” deveria constituir-se na continuação da imediatamente anterior. Um texto coeso e coerente seria construído progressivamente.Para facilitar a busca entre os colaboradores, cada nova frase, ou “tuitada”, para o “twittexto” teria o marcador [hashtag] #textorede. Dessa forma sobravam 129 caracteres para cada contribuição, sendo terminantemente vedado o “internetês”. Coisas como pq, q, tb, vc e similares não valeriam, já que um desafio era exatamente que cada estudante fosse conciso usando a linguagem culta.
 
Ainda que um texto, ou melhor, um “twittexto” tenha se esboçado, o produto final ficou muito aquém do que eu esperava. As contribuições não vieram de todos os estudantes, alguma desarticulação do texto ficou evidente. O “twittexto”, que compilei, acabou curto, sem uma estrutura adequada. Faltou muito para atingir a expectativa, reconheço

Mas espero poder repetir a experiência. Afinal essa foi a primeira.
Solicitei a cada aluno que comentasse a experiência. Dessas análises poderei tirar indicadores importantes se vier a decidir por uma nova experimentação.

Quem sabe, adotarei a mesma estratégia de Tim Burton para escrever uma estória através do Twitter.
Tim Burton aceita a colaboração de qualquer pessoa, no limite de 127 caracteres, para a estória “Cadavre Exquis “. Diariamente ele escolhe as melhores “tuitadas” e organiza o texto. Claro que no meu caso eu teria que restringir as contribuições a alunos e alunas da disciplina. Mas a idéia de escolher as melhores contribuições deve ser considerada.
De todo modo, fica aí uma ideia para professores. Por quê não criarem “twittextos” com seu alunos. Pode ser um ótimo exercício de escrita colaborativa, coletiva.

O cyberbullying como tema de aula na pós-graduação

10/12/2010

Cyberbullying foi o tema na minha aula de ontem, última, na disciplina Educação, Sociedade e Tecnologia, para alunos do Mestrado em Educação da PUC Minas.

A proposta foi discutir o papel que pode caber à escola e, em especial, aos professores nesse problema que aflige a muitos. Como dissemos, nos parece essencial uma “educação para a internet” que previna o cyberbullying. A prevenção pode evitar a repreensão.
Quando eu era garoto, e o anglicismo ainda não dominava o Brasil, na escola havia a zoação. “Quatro ôio”, baleia, lombriga eram expressões usadas para designar alguns alunos nas escolas. A idéia era a da brincadeira e, a não ser que saísse uma briga por causa dos “títulos”, não havia muito problema. Ainda que alguns alunos tenham levado pela vida toda apelidos que ganharam, a zoação era uma questão restrita à escola, confinada em seus muros.
Mais recentemente, por conta em especial da internet, a zoação, o bullying, foi para muito além dos muros da escola. As agressões verbais, os xingamentos se tornaram acessíveis a muitos. Nascia o cyberbullying. E ele se torna realidade também no Brasil, ainda que não na intensidade com que ocorre nos Estados Unidos, por exemplo.
De repente, a escola, que na maioria das vezes tratava o bullying como uma brincadeira e só tomava atitudes quando ele provocava agressões físicas entre alunos, se vê com um novo problema, bem maior.
Pelo fato do cyberbullying ser um problema que afeta a escola, que envolve tecnologias digitais e, em maior ou menor grau, se torna uma questão para a sociedade, decidi abordar esse tema, pela primeira vez, nessa minha disciplina.

Foi bastante interessante ouvir os relatos dos alunos e alunas sobre as experiências com bullying que, de alguma forma, vivenciaram, seja enquanto estudantes, quase todos, seja no exercício da função docente, todos.
Meus alunos e alunas de maneira geral não foram vítimas de cyberbullying. Ainda que vez ou outra apareçam comunidades virtuais de alunos que odeiam o professor X ou a professora Y, nenhum deles se viu envolvido nisso. Mas, como educadores, têm responsabilidade junto a seus próprios alunos.
Na aula adotei uma dinâmica que considerei interessante. Abri o tema, tomando algumas expressões que se usavam nas zoações.
Em seguida, solicitei a eles que buscassem conceitos de bullying e cyberbullying da internet. Cada um, com seu notebook ou netbook, numa sala onde tenho acesso sem fio à internet, alguns alunos usando a cesso 3G, foi buscar os conceitos, usando search engines.
A tarefa seguinte exigiu que cada uma postasse, no Twitter da disciplina [o acesso a esse Twitter é restrito ao pessoal da disciplina], seus próprios conceitos. A jogada era obrigá-los a serem concisos, já que havia a limitação dos 140 caracteres e avisei que o “internetês” não seria permitido. Afinal, seria uma “malandragem”.
Depois recomendei que vissem alguns vídeos, disponíveis principalmente no YouTube, que havia selecionado. Cada aluno ou aluna, usando um fone de ouvido para não perturbar os demais, assistiu os vídeos. A eles foi solicitado que tirassem, de quase todos os vídeos, um destaque e “tuitassem” sobre ele.
Também indiquei uma reportagem sobre cyberbullying e uma pesquisa sobre hábitos de jovens brasileiros na internet e ainda recomendei uma visita a um site que trata do tema.
Para encerrar, uma tarefa. Cada aluno ou aluna deverá criar, no Animoto, um vídeo sobre cyberbullying. Na medida em que os vídeos estiverem prontos, seus links serão divulgados aqui no blog.
Em síntese, foi uma aula com um tema contemporâneo, na qual search engines, como o Google, foram utilizadas, juntamente com vídeos on-line e o Twitter, culminando com a criação de um vídeo. Um tema provocador e a mobilização de vários recursos da tecnologia digital podem constituir em um bom ingrediente para uma aula. Pelo menos essa era a expectativa.
Listo, a seguir, os vídeos que recomendei na tarefa. Eles podem ser úteis a um professor que queira trazer, para as salas de aula, para o debate com seus alunos, os temas do bullying e de sua “versão digital”, o cyberbullying.

[1] Bullying
[2] Not cool
[3] Bullying. Por quê?
[4] Reportagem sobre cyberbullying

O plágio nos trabalhos acadêmicos

27/07/2010

O plágio, palavra que etimologicamente deriva do latim plagiu, é o ato de alguém apresentar com sendo de sua autoria uma obra de qualquer natureza que contenha partes de uma que pertença a outra pessoa sem fazer o dévido crédito do autor original. Portanto, ”o plágio se caracteriza pela apropriação de idéias ou palavras de outrem sem o devido crédito” (JARDIM, 2009), mesmo que ainda sendo um uso acidental. Em resumo, o plagiador se apropria, de forma indevida, da intelectual de outra pessoa, fazendo-se passar por seu autor, toma prá si o que é de outro.
O plágio nos trabalhos escolares, da Educação Básica até mesmo à Pós-graduação stricto sensu, virou como que uma rotina. E não que os “copiautores” sejam novidade. Afinal, como brinco ainda que a questão seja séria, a Enciclopédia Barsa já foi uma espécie de “ghost- writer” de muito estudante.
Mas, evidentemente que com a internet, que ampliou exponencialmente as fontes de informação, e com o buffer do teclado dos computadores, que permite o CTRl+C e CTRL+V, essa prática tornou-se quase uma praga, um problema com o qual professores têm que lidar em sala de aula quase cotidianamente.
A questão do plágio na escola passa por vários aspectos. Desde um debate ampliado sobre aspectos éticos e direitos de propriedade intelectual até mesmo pelo fato de que muitos professores solicitam aos estudantes trabalhos que na verdade não lhes constituem desafios, ao abordarem questões que estão disseminadas e sobre as quais textos estão disponíveis.
Penso que uma forma de reduzir a possibilidade do plágio está em trazer o tema que será abordado no trabalho para o contexto da sala de aula, para questões que surgiram no contato cotidiano dos professores e alunos.
Outra estratégia, possível em um TCC, uma monografia, dissertação ou tese, está no acompanhamento periódico da produção do aluno pelo professor orientador. A chegada rápida de um texto completo, que não reflita os diálogos frequentes entre orientador e orientando, deveria colocar o primeiro com pulgas “atrás da orelha”.
Meu convencimento, é claro, é que nada impedirá o plágio, ainda que existam hoje vários software para sua detecção, nem sempre usados porque onerosos para os professores e muito raramente “bancados” pela escola, ao menos na realidade brasileira.
Por outro lado, para facilitar a disseminação do plágio existe hoje uma verdadeira “indústria da produção de trabalhos escolares” – com anúncios na internet vendendo a elaboração de textos para que não tem tempo ou mesmo competência para fazê-lo ou ainda oferecendo milhares de textos prontos. E, não raro, aquele que os encomenda nem sempre tem o cuidado – ou o tempo necessário – para verificar se o trabalho, produzido por outro como se fosse seu, não é na verdade o plágio da obra de um terceiro.
Plágio é questão séria, com a qual a maioria das escolas ainda lida mal.
Mas plágio, ainda que sério, é motivo para um divertido vídeo [Et Plagieringseventyr, original norueguês disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=Mwbw9K] que, com a valiossísima colaboração da professora Lorena Tárcia,  legendamos em  português.

Fim do Ning gratuito. Fim do Ning? Fim da gratuidade na Web 2.0?

21/04/2010

Embora eu ache que as escolas não embarcarão facilmente nessa de rede social, por várias razões que estarei apresentando np dia 23/4 no ENDIPE, tenho estimulado os professores a testarem esse recurso. Há o caso de orientandos meus que usam o Ning como um recurso na pesquisa que conduz às dissertações.
O Ning, como é típico das interfaces da Web 2.0, é de uso gratuito. Era ou deixará de ser em breve. É isso o que informa o site iMasters.
Segundo uma notícia publicada no dia 16 de abril último - notícia que aliás ”tuitei” no mesmo dia -  Jason Rosenthal - que há pouco mais de um mês substituiu Gina Bianchini no comando do Ning – demitiu pessoal da equipe e anunciou o fim das contas gratuitas para criação de comunidades virtuais.
Aos que quiserem se manter no Ning restará recorrer a contas Premium. Essas contas importam em várias despesas mensais. Suporte custa entre US$ 10 e US$ 100, o custo de domínio US$ 5, armazenamento extra e largura de banda significam US$ 10 dólares e a remoção de anúncios outros US$ 25 dólares. Em síntese, ou se tira do bolso, a cada mês, uma quantia que não será inferior a US$ 50 - equivalente hoje no Brasil a algo em torno de  R$ 95 – ou “goodbye Ning”.
A  justificativa do Ning para a cobrança de todos o usuários me surpreende. O argumento é de que, reduzindo despesas e gerando receitas, a empresa poderá não depender apenas de investidores.
Para Milton Friedman não há almoço de graça. Mas se não me engano foram Dan Tapscott e Anthony Williams que, no livro “Wikinomics – Como A Colaboraçao Em Massa Pode Mudar O Seu Negócio“, editado pela Nova Fronteira, alegaram que  pode  haver almoço de graça se alguém pagar caro pela sobremesa.
As contas Premium, que surgiram em vários sites da Web 2.0, são exatamente a “sobremesa cara” que alguns [suponho poucos] usuários pagam – e por isso têm lá suas vantagens - garantindo o “almoço de graça” para os demais usuários.
A decisão do Ning, se irrevogável, deverá ser encarada como um alerta. Paulo Simões, em seu blog “Re-formar” dá como certo o fim do tempo do “almoço grátis”. Em suas palavras, “é preciso ter consciência disso e assumir a ruptura com o passado recente“. Será? 
Esse fim significará certamente o fim da web participativa, da web do “user-created content“, da web pensada por Tim Berners-Lee. Voltaremos então à web paga, domínio de poucos, coisa prá quem tem dinheiro. As escolas dificilmente pagarão essa conta. Terá então durado pouco o sonho de trazer para a escola a Web 2.0, permitindo que nossos alunos se tornassem cidadãos em uma Sociedade da Autoria.
Confirmada a disposição do Ning de cortar todas as contas gratuitas e cobrar dos usuários, nem sentido algum haverá mesmo para a conta Premium. Todos serão Premium ou estarão fora. Ou seja, paga-se “almoço e sobremesa” juntos ou não se pode criar ou manter comunidades virtuais no Ning.
Resta aguardar, principalmente para saber se não será o Ning que estará, em breve, fora do cenário da Web 2.0 porque imagino que serão poucos os dispostos a pagar pelo seu uso, principalmense se ainda houver opção grátis.
Até lá, a recomendação para quem quer criar e/ou manter redes sociais virtuais privadas é buscar alternativas gratuitas como o WackWall. Ao menos por enquanto.


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