Archive for setembro \30\UTC 2009

Função docente

30/09/2009

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Vergonha

30/09/2009

vergonha

“Deve sentir vergonha de si mesmo o país no qual pessoas se envergonham de serem professores.”

Pensamento que ocorreu quando eu assistia, hoje à tarde, uma mesa redonda que debatia o exercício do magistério por egressos do curso de Ciências Biológicas, dentro da Jornada de Biologia da PUC Minas.

ENEM 2009

29/09/2009

ENEMAproximam-se as datas de realização do ENEM, o Exame Nacional do Ensino Médio. Neste próximo final de semana, mais de 4 milhões de estudantes, concluintes ou já “formados” no Ensino Médio, enfrentarão uma maratona de dois dias, com 180 questões a serem respondidas e uma redação para ser feita. Serão usadas exatas 113.857 salas de 10.385 diferentes escolas, em todas as unidades da federação. É um exame com dimensões que casam com a do Brasil. Depois, possivelmente em janeiro de 2010, virá o que menos me agrada: a batalha do ranking das escolas. Lamentavelmente as escolas particulares transformaram um indicador que serviria para compará-la, ano a ano, consigo mesma, em uma vitrine. Escola bem posiconada no ranking que acabou sendo criado não perdem alunos e  até pode ser que conquistem alguns. Escola mal posicionada corre sério risco. Mas o mais detestável nisso é que, pela não obrigatoriedade do exame, algumas escolas selecionam, por “simulados”, os melhores dos seus alunos para fazerem a prova. Os fracos ficam em casa no final de semana – o que não é mesmo ruim – e não atrapalharam a escola na sua busca pelas melhores posições no ranking. churrascoOuvi de um aluno meu na graduação a história de sua escola e sua própria quanto ao ENEM. É uma escola bem posicionada no atual ranking. Segundo ele, quando aluno do 3o ano do Ensino Médio, a escola aplicou um “simulado” do ENEM. Resultado pronto, listou os alunos que deveriam fazer a prova. Aos demais, solicitou que não se inscrevessem, que não fizessem a prova. E prometeu a todos um churrasco se a escola ficasse bem posicionada. Deu certo. E a turma pôde comer uma “carninha” por “conta da casa”. Por conta do ranking do ENEM, existem escolas que promovem um verdadeiro assédio a bons alunos de Ensino Médio. Chegam a oferecer bolsas de estudos a bons alunos de outras escolas para que se transfiram para ela e venham a fazer parte do seu “time vencedor” no ENEM. Há pouco tempo passei em frente a uma delas, com meu filho que cursa atualmente o 3o ano do Ensino Médio e nestes sábado e domingo estará a uma boa distância de casa fazendo as provas, já que seu colégio exige a participação de todos. Havia um grande número de alunos embarcando em ônibus de turismo; seguiam para uma festa da escola. Dentre aqueles, alguns eram conhecidos do meu filho. Depois que eles os cumprimentou, perguntei-lhe de onde os conhecia. Haviam sido seus colegas, alguns desde a educação infantil, e no 2o ano do EM transferiram-se para aquela escola, uma campeã do ENEM. Parei para analisar a situação. Esses jovens estudaram ao menos 11 anos em uma determinada escola. Foi nela que tiveram de fato sua formação. Agora, no último ano da Educação Básica, estão em outra escola e por ela farão o ENEM. Desde que saiam bem nos “simulados”; se não, que fiquem em casa no próximo final de semana. escolaPensei em que essa escola onde estão pode ser melhor que a outra. Apenas na estratégia de buscar alunos para ajudá-la a ter boa posição no ranking das escolas. Ela jamais preparou de fato muitos, talvez a maioria, dos seus alunos. Isso foi tarefa para outras escolas. O que possivelmente fez por esses jovens foi apenas treiná-los para o exame que virá. E amanhã, bem posicionadas no ranking, proclamará a qualidade do seu ensino, verá a lista de enorme de candidatos a serem seus alunos por conta dessa vitória que, pensando bem, é de outros. Por isso espero que logo, logo o ENEM seja obrigatório a todo concluinte do Ensino Médio. Assim, quando algumas escolas não puderem ser representadas no exame por 10, 15% dos seus alunos, pelos melhores, teremos finalmente um quadro mais adequado da qualidade que essas escolas cantam em suas propagandas. Aí, caidas as máscaras, pode ser que eu me convença que de fato uma escola é mellhor mesmo que outra. Mas possivelmente nem isso eu farei. Afinal, o que faz uma escola ser melhor não é resultado de um exame de um ou dois dias. É a  marca que deixou em jovens que freqüentaram seus bancos por anos. É a educação que imprimiu neles, como marca indelével, a ser carregada por toda a vida. Pois, afinal, é isso o que vale. O que decoraram para fazer provas e exames será logo esquecido. Como sempre digo, qualquer escola, em qualquer grau, forma. Algumas, poucas, transformam. São estas as que de fato me interessam.

Uma avaliação feita de encomenda para reprovar alguns. Isso tem sentido?

19/09/2009

Meu convencimento é de que avaliar bem não é tarefa fácil.
Também penso que é muito fácil criticar avaliações.
Não duvido um instante sequer que existam instituições de ensino superior reprováveis no Brasil. Há mesmo muita ruindade por aí, por várias razões.
evaluation_090919-1.jpgAs diversas avaliações levadas a cabo pelo INEP/MEC revelam ruindades. 
E, como se viu no último ranking, em várias casos a ruindade está também em IES públicas. É como se a ruindade deixasse de ser privilégio das IES particulares. E cai o mito de que qualidade é coisa apenas para IES públicas que, de maneira geral, contam, para início de conversa, com alunos oriundos das melhores escolas da Educação Básica. Mais preparados, conquistam mais vagas nas IES públicas. Restam aos menos preparados, notadamente os que vieram de escolas públicas da Educação Básica, o caminho das IES particulares, algumas verdadeiros caça-níqueis mesmo.
Mas como acreditar de todo em um sistema que é feito para reprovar mesmo algumas IES? Ou em um sistema que limita o número de IES que terão a nota máxima?
Pois é esse exatamente o problema que acaba revelado em manifestação do Ministro da Educação, Fernando Haddad, em matéria publicada hoje no jornal Folha de S.Paulo.
Segundo o ministro, o modelo de avaliação adotado pelo MEC pressupõe que sempre haverá IES com notas baixas,assim como poucas com nota máxima.
Fernando Haddad admite que o modelo de avaliação adotado pelo ministério do qual é titular for aplicado na França haverá instituições com IGC [Índice Geral de Cursos] igual a 1, o nível mais abaixo. O ministro é enfático: “Sempre haverá cerca de 12% das matrículas em instituições com desempenho insuficiente.”
Me vi pensando se Haddad fosse diretor de uma escola na qual eu pretendesse matricular meu filho. Eu desistiria disso assim que soubesse que, antes de qualquer prova, já estivaria decidido que apenas 12% dos alunos teriam nota máxima e que de qualquer jeito alguns alunos seriam reprovados.
Afinal, não deve haver escola que reprova apenas para ajustar resultados possivelmente à curva da normalidade.
Em síntese, não tem sentido uma avaliação “gausiana” – que me perdõem pelo neologismo – que força a reprovação de alguns para que o “destino da curva do sino” se faça.
Escola que é escola mobiliza recursos para que todos os alunos sejam aprovados, deseja que todos alcancem nota máxima. Ou não?
Escola que avalia ciente e consciente de que terá que reprovar alguns para mostrar que a curva da normalidade funciona não tem sentido.
A avaliação que o MEC vem fazendo é desse tipo. Algumas IES, alguns cursos terão que “tomar pau”, ainda que venham a obter nota que não conduzisse a isso. IES e cursos serão reprovadas apenas para mostrar que a curva do sino também se manifesta nessa avaliação, que os resultados seguem a “normalidade”, ainda que “encomendada”.
Será que a todo aluno interessa saber se estuda na melhor IES, no melhor curso de sua área?
Ou ele quer apenas saber se a sua IES ou o curso tem a qualidade necessária?
Mas com esse ajuste à curva do sino, como de tudo no mundo fosse normal, que certeza esse aluno terá da real “nota” da sua IES ou do seu curso?
No artigo Tremores no Ensino Superior,  publicado em 18/9/2009 no jornal Folha de S. Paulo, Arnaldo Niskier afirmou que, pelo que comprovam os recentes exames nacionais, estamos diante de uma tragédia anunciada. 
Pois é, ele não falou nessa perspectiva, mas a  metodologia adotada pelo MEC prenuncia mesmo algumas tragédias. Independente de pontuações que IES ou cursos venham a obter, alguns serão “reprovados” e a tragédia estará no cenário, dele e dos que são seus alunos.
Repito: existem IES e cursos superiores ruins. E devem ser fechados se, dada uma oportunidade, não melhorarem.
Mas é hora de batermos o sino para alertar sobre o risco de  injustiças que possam estar sendo cometidas, em nome da estatística, na avaliação do ensino superior.

Educação a distância: o que precisa ser pensado

18/09/2009

O fato de que o Brasil possui hoje indicadores muito baixos na educação superior – é um pouco mais de 2 milhões de universitários numa população de 160 milhões de habitantes – o notável avanço das novas tecnologias da informação e a ampliação do acesso, associados a uma maior demanda por educação continuada, são alguns dos motivos pelos quais a oamis_ead_1educação a distância (EAD) está incluída na pauta do dia de muitas organizações escolares.

O ensino na modalidade a distância está previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Sua utilização em cursos superiores, a nível de graduação, já foi regulamentada pelo MEC

A EAD chama hoje a atenção de várias organizações brasileiras, principalmente as universidades. As nossas universidades estão começando a investir na implantação de cursos a distância, na graduação, na pós-graduação e na extensão, visando ampliar o número de estudantes a serem atendidos.

Muitas pessoas e instituições que nesse momento procuram se organizar para oferecer cursos de EAD parecem estar sustentando seus projetos numa premissa que nos parece falsa. Elas parecem acreditar que EAD é fácil de se fazer, é barata e é lucrativa.

Esse tipo de crença pode vir a ser muito prejudicial nas ações queoamis_onlinelearning_2 conduzam à organização e oferta de cursos a distância.

A questão que deve estar sendo discutida nos foros debate sobre EAD não é a distância. Não podemos nos resumir a discutir as estratégias e os recursos tecnológicos disponíveis hoje para a EAD.

O grande debate deve se concentrar num ponto: o tipo de educação que se pretende oferecer.

Temos que discutir o paradigma que norterá as ações nesses cursos, as estratégias que assegurarão a qualidade de seus processos, a formação de recursos humanos capazes de contribuir para a qualidade de cursos a distância.

Não podemos levar para Web ou para as salas de vídeo-conferência o tipo de educação que hoje acontece na maioria das escolas. Ele está assentado num paradigma instrucional, que não tem mais significado na educação contemporânea. Com certeza não se poderá fazer à distância as mesmas mazelas que a escola vem fazendo na educação presencial. 

Da mesma forma e com os mesmos ímpeto e dedicação, temos que discutir estratégias para que com a EAD possamos fazer uma estratégia da inclusão social. Sem maiores cuidados estaremos criando um novo espaço que só será acessível a uns poucos, aqueles mesmo já privilegiados na educação presencial.

No período de 22 a 24 de setembro de 1999, foi realizado, em Belo Horizonte, no campus da UFMG, o 1o. Seminário Internacional de Educação a Distância. As estratégias e tecnologias inovadoras para uma educação de qualidade constituirão o tema referencial do evento. Palestras, mesas-redondas e oficinas foram as  várias estratégias adotadas no seminário para que as pessoas vivenciem aspectos da EAD, troquem experiências, discutam preocupações, avaliem possibilidades. O SINPRO-MG também discutiu a EAD em seu VII Congresso, realizado em Belo Horizonte em outubro de 1999.

É isso o que tem que ser feito. A EAD tem que ser bem pensada.

oamis_investigaTemos que investigar as melhores formas de fazê-la. Não podemos nos perder numa aventura, cuja norte não seja nada mais do que uma estratégia de se conseguir recursos financeiros para as instituições de ensino, numa lógica pautada pelo mercado.

A EAD tem uma clara justificativa pedagógica no Brasil num momento em que buscamos melhorar nossos indicadores de educação. Mas não podemos fazer EAD de qualquer forma. Precisamos cuidar do quantitativo mas não podemos abdicar da qualidade. Todo espaço que houver para essa reflexão será importante, será bem-vindo.

Simão  Pedro P. Marinho, em agosto  de 1999

[A fotografia acima foi reproduzida de   “An overview of on-line learning”, de Saul Carliner].

A educação de uma nova geração: urge uma reforma da escola

18/09/2009

Falar em educação é falar sempre em desafios. Falar em educação no Brasil é certamente falar em problemas e crises. Contudo, de modo geral em todo o mundo a educação vive uma grande crise.

Essa crise está assentada num modelo de escola que se implantou no século XIX, quando a revolução industrial começou a demandar massas de trabalhadores necessários para atuarem em fábricas e nos escritórios.

oamis_educa_2A escola que então se implantou, e que se tornou inclusive compulsória, incorporou os paradigmas daquela revolução industrial. A escola se transformou em uma linha de montagem, onde o aluno era o produto. Por isso não é difícil, ao ver o filme “Tempos Modernos”, enxergar a realidade da escola que se mantém no mesmo formato até os dias de hoje.

Desde a implantação daquele modelo de escola, gerações e mais gerações foram formadas nessa linha de produção. Testes padronizados, professores num exercício repetitivo do ato de ensinar, ênfase num processo de ensinar que era o monólogo de quem sabia para que nada sabia, uma “tabula rasa”, eram as marcas daquela escola. Mas são ainda essas marcas que estão na escola de hoje.

No final do século XX, marcado pelo avanço das tecnologias da informação, vamos encontrar uma empresa alterada, distante daquele modelo fordista do início do século. Profundas alterações estão acontecendo nas instituições do setor produtivo. Novos paradigmas são incorporados nas fábricas e no setor de serviços, transformando-se a empresa que agora tem que ser “enxuta”. Dowsinzing, just in time, GQT, reengenharia e outros chavões permeiam o setor produtivo. Pela natural vinculação entre educação e o mundo do trabalho, muitos desses chavões chegaram até mesmo às escolas; mas foi modismo, já que pouco ou nada nelas se alterou.oamis_trabalhador

Nesse novo cenário da economia, o perfil do trabalhador demandado pelas indústrias se altera profunda e rapidamente. É notável a clara tendência de mudança nos processos e formas daquele trabalho tradicional que era marcado por características tais como a segmentação, a repetição e a padronização. Era assim quando o trabalho estava baseado nos axiomas tayloristas e fordistas, onde a especialização profissional era a tônica. Vemos surgir hoje uma nova forma de trabalho, como decorrência da revolução informacional, cujas características principais são a integração, a des-hierarquização e a flexibilização (Castro, Armando B. Impactos nas novas tecnologias da informação. 1995) e que coincide com a globalização da economia e com a imperiosa necessidade da competitividade baseada na qualidade na busca de mercados consumidores.

Nesse novo quadro de predomínio de altas tecnologias de informação, baseadas principalmente no computador, e de novas padrões de produção, aquele “apertador de parafuso especializado”, tão bem caracterizado por Charles Chaplin no filme “Tempos Modernos”, perde rapidamente seu valor como força de trabalho.

O trabalhador que exerce mecanicamente suas tarefas começa a ser parte do passado e está fadado a incorporar-se à legião de excluídos se não conseguir se adaptar às novas demandas que se colocam (Moraes, Antônio E. Educação e emprego. 1998). Nos acostamentos da information highway vão ficando os novos excluídos do setor produtivo alterado pela revolução provocada pelo avanço da informática.

Como destaca Pierre Lévy (O que é virtual. Editora 34, 1996), o trabalhador contemporâneo não tende mais a vender a sua força de trabalho; o que ele estará vendendo é competência, isto é, “uma capacidade continuamente alimentada e melhorada de aprender e inovar”. Nesse novo cenário, o puro adestramento enquanto estratégia de formação de recursos humanos perde significado; muda-se a ênfase nos processos de formação de mão-de-obra. Cada vez fica mais evidente que a formação não pode ser considerada esgotada em momento algum. Assim, educação ou formação continuada passa a ser mote.

Quando a inovação competitiva passa a ser a pedra-de-toque, quando as empresas assumem uma rotina de mudanças e se reinventam a constantemente (Mariaca, Marcelo. A nova competição trabalhista. 1999) elas precisam buscar um novo tipo de profissional. O perfil que se estabelece para esse novo profissional gera uma nova demanda da matriz formadora de mão-de-obra para o trabalho, ou seja, a escola. Da escola se espera ou se demanda um novo “produto”. A escola tem que se tornar moderna para responder a esses desafios.

Mas da mesma maneira que as empresas têm que se repensar e fazer seu redesign para terem vez na sociedade da informação, a escola tem que se rever.

Da mesma forma que não basta colocar computador numa empresa para ela se torne moderna (Persona, Mário. A nova economia. 1999), de nada adiantará colocar computadores para uso pelos alunos se as práticas na escola continuarem as mesmas, se os professores (agora com o concurso de uma nova mídia) continuarem a ser emissores de informação e seus alunos os passivos receptores, se o currículo permanecer inalterado.

oamis_educa_1A escola que se pretende contemporânea precisa enfrentar, por seus atores, diversos desafios para que a incorporação das novas tecnologias da informação possa realmente agregar valor ao processo de formação de seus educandos (Marinho, Simão Pedro P. Educação na Era da Informação; os desafios na incorporação do computador na escola. São Paulo: PUC, 1998). Apenas enfiar o computador nas salas de aula é um desperdício de dinheiro e uma estratégia, mesmo que não intencional, de iludir pais e alunos com uma perspectiva de educação moderna.

A escola precisa mudar. E é nessa escola modificada, revista, que as tecnologias da informação poderão dar seu contributo na adequada formação do cidadão do século XXI, o indivíduo produtivo na sociedade do conhecimento.

Simão Pedro P. Marinho, em junho  de 1999

Internet na escola

18/09/2009

O excepcional avanço no uso Internet, notadamente nos últimos dois anos, vem demonstrando claramente os impactos que ela pode provocar – e de maneira geral vem provocando – em diversos setores de uma sociedade globalizada. No Brasil o número de usuários da Internet aumenta de maneira expressiva.

A “navegação” pela WWW (Wide World Web), seja para comprar, procurar emprego ou simplesmente se informar, e o correio eletrônico ocupam cada vez mais tempo no cotidiano de famílias das classes média e alta. Adultos, adolescentes e até mesmo crianças começam a usar a Internet de uma forma tão natural como ligar o rádio ou a televisão na busca de informação e entretenimento. Em tal cenário, é bastante razoável imaginar que essa tecnologia possa trazer impactos relevantes na educação.

oamis_computadorNesse mesmo tempo a escola ainda se vê desafiada para incorporar o computador nos processos de ensino-aprendizagem de uma forma que efetivamente agregue valor ao processo educacional. Pais e alunos, movidos principalmente pela lógica da empregabilidade, demandam da escola o uso do computador. A concorrência leva também à informatização das escolas: “Se a escola concorrente usa o computador, a minha escola tem que fazê-lo” pensam os diretores, muito embora não se ocupem em avaliar a qualidade e adequação desse uso. Enquanto isso a escola ainda permanece um pouco perdida no como usar essa tecnologia. São várias as razões, que vão desde o despreparo dos seus professores para um uso inteligente dessa tecnologia até a carência de bom software de uso educacional.

De repente, como se encontrasse uma solução mágica, a escola passou a ver na Internet uma possibilidade de uso mais imediato do computador nos processos de aprendizagem.

Mas o que é a Internet?

Sem considerarmos que talvez seja o “maior depósito de lixo” já criado pelo homem, a Internet deveria ser vista por dois prismas, se quisermos destacar bem suas funções. De um lado, ela funciona como uma grande biblioteca, oferecendo informação das mais diferentes formas e da mais variada qualidade. Por outro lado ela se torna um grande caminho de comunicação entre pessoas e, não seria exagero afirmar, uma estratégia que vem resgatando a comunicação escrita (embora o uso exagerado dessa forma de comunicação já comece a reduzir o contato entre pessoas)..

Olhemos para a biblioteca e a escola.

oamis_estudante_3Uma biblioteca tem seu valor, que é inegável, nos processos de aprendizagem. Mas não basta que ela esteja presente ou acessível; é preciso que o aluno saiba como usá-la. E isso significa não só saber como acessar o que ali está colecionado, mas principalmente selecionar o que ali está colecionado, sabendo de sua adequação à tarefa de escola e de aprendizagem. Portanto, o aluno precisa aprender a usar a biblioteca antes de o fazer. Esse ensinar a usar é uma tarefa da escola num processo de formação do aprendiz.

Da mesma forma, ao simplesmente determinar ao aluno que vá à Internet e busque ali um ou outro texto a título de elaborar uma “pesquisa”, os professores e a escola poderão estão incorrendo em um grande engodo: estarão, mesmo que sem querer, iludindo os alunos – e até mesmo seus pais – ao fazê-los acreditar que isso é um uso adequado do computador na escola. E sem nos esqueceremos de que se dará ao aluno uma grande chance de lograr seus próprios professores já que os recursos dos browsers lhe permitem, com operações de copiar e colar, fazer com que passem como seus os textos de outros. Estarão se produzindo textos que são meras colagens, onde o único exercício do aluno será o manuseio do mouse ou do teclado, ao invés do exercício da capacidade intelectual.

Um outro potencial do uso da Internet na escola está na comunicação através do correio eletrônico e de outras formas (teleconferência, chat e outras).

No caso do correio eletrônico tem-se uma forma de comunicação assíncrona (os interlocutores não precisam tratar as mensagens no mesmo momento) e imediata (a transferência das mensagens é instantânea). E a comunicação é principalmente barata, já que se fala com o mundo ao custo de ligações telefônicas locais. É portanto uma possibilidade valiosa.

Mas acreditar que é simples esse uso da Internet na educação é outro grande equívoco.

Primeiro o aluno deverá estar preparado para essa comunicação. O aluno tem que saber o que, quando, como e com quem se comunicar. Prepará-lo para isso é uma tarefa prévia da escola para que os alunos não corram de despender tempo e energia com comunicações que em nada contribuirão no seu processo de escolarização.

Com certeza a Internet pode ser uma valiosa ferramenta para a escola. Mas mesmo com ela (ou talvez até mesmo por causa dela) a escola ainda terá o desafio de contar com professores preparados para estimular uma utilização de forma adequada e capazes de planejar tarefas de aprendizagem que possam estar eficientemente ancoradas nesse recurso.

Acreditar que a Internet chegará para a escola como a solução pronta e acabada para resolver o problema do uso do computador é uma ingenuidade que professores, diretores e técnicos educacionais não podem se permitir.

Simão Pedro P. Marinho, em abril de 1999

Velhos textos, resgatados

18/09/2009

Resgato alguns textos publicados no meu extinto site Educare [http://www.gcsnet.com.br/oamis/educare], nos quais trato de questões relacionadas às tecnologias digitais na escola.
São alguns dos editoriais do site, publicados entre abril de 1999 e março de 2004.
Pode ser por conta do orgulho pela autoria, mas vejo que alguns desses textos, ao menos, continuam atuais. As tecnologias avançam, mas a relação da escola com elas ainda patina nos mesmos problemas de uma década atrás.
Possivelmente muitos, quem sabe todos, dos links ao longo desses textos não estejam mais ativos. Mas isso não comprometerá os textos, suponho.
E esse material, resgatado e publicado em blog, servirá, ao menos para mim, para comemorar os 10 anos do início de um trabalho de levar a um público maior as questões das tecnologias digitais na educação.

Investimentos em educação. Não dá para comparar o Brasil com o Primeiro Mundo

09/09/2009

A OECD tornou publico hoje o relatório “Education at a Glance 2009“, contendo indicadores da educação de vários países, além dos seus próprios membros. O Brasil foi incluído na coleta de dados, realizada em 2007.

Segundo o relatório, enquanto o gasto médio entre os países-membros da OECD por estudante na educação básica é de US$ 6,4 mil, aqui no Brasil o investimento é apenas da ordem de US$ 1,5 mil. Portanto, quatro vezes menor. Na educação secundária, equivalente ao nosso Ensino Médio, o gasto médio por estudante nos países da OCDE é de US$ 8 mil, cinco vezes o valor aqui investido. Já no ensino superior, a nossa despesa por aluno está bem próxima à dos países-membros da organização: US$ 10.067 contra US$ 12.226. Em resumo, gastamos pouco em educação básica quando em comparação com países desenvolvidos, enquanto o nosso dispêndio na educação superior está em padrão de primeiro mundo.

Mas quando se olha a qualidade de ambas as educações, estamos muito atrás da dos países mais desenvolvidos. Na educação básica colocamos pouco dinheiro, ainda que haja quem ache que é muito. E temos como resultado a qualidade correspondente a esse baixo dispêndio. Na educação superior, dispendemos muito para se obter pouca qualidade, como revelam os resultados do CPC e do ENADE recentemente divulgados.

O estudo revelou ainda que, nos países da OCDE, 6,1% do Produto Interno Bruto (PIB) é o percentual médio investido em educação. No Brasil, em 2006, o investimento foi da ordem de 4,9% do PIB.

Segundo a OECD, “os gastos nas instituições de ensino como percentual em relação ao PIB mostram como um país prioriza a educação“. De 2000 a 2006, o investimento em educação nos países-membros da OCDE, combinando todos os níveis de ensino, aumentou, em média, 23%. Nesse mesmo período, segundo o relatório, o Brasil elevou os gastos em 57%.

Portanto, se gasta cada vez mais aqui na Terra Brasilis, ainda que isso não venha implicando melhoria da qualidade da nossa educação. E essa constatação acaba provocando os “educonomistas”, como denomino aqueles economistas que só olham a educação pelos números do dinheiro, a proclamarem que não é preciso colocar mais dinheiro na educação brasileira. O que fazer então para sair do buraco?

Professor desvalorizado. E não só na Terra Brasilis

09/09/2009

Não valorizar os professores da educação básica não é privilégio de país atrasado, ainda que se queria avançado, como o nosso. Por exemplo, na Itália isso também acontece.
Segundo matéria do News Italia Press, o relatório “Education at a Glance 2009“, elaborado pela OECD com indicadores da educação de vários países – incluindo o Brasil – coletados em 2007, os professores italianos são deixados sozinhos. Mais da metade deles [55%] não recebe qualquer avaliação, positiva ou negativa, sobre o trabalho que desenvolvem. Não se valoriza a sua atividade. E, óbvio, essa desvalorização acaba se refletindo no salário dos professores.
A desvalorização do professor é notória no Brasil, ainda que encontremos aqueles que pensam de forma diferente. Há muito os professores, especialmente os da Educação Básica, deixaram de ser considerados e respeitados. Ao contrário, notadamente os de escolas públicas tornaram-se vítimas de constantes violências, da verbal à agressão física. Na semana passada mesma, um aluno colocou uma bomba caseira sob a mesa de uma professora de uma escola pública estadual aqui em Belo Horizonte. Segundo o diretor da escola, a professora estaria substituindo outra profissional e teria método de ensino severo.
Mas, convenhamos, se a função docente fosse socialmente reconhecida como se espera, se esse reconhecimento se traduzisse também em salário decente, nossas licenciaturas não estariam se esvaziando como estão. Ou será que nossos jovens seriam burros a ponto de fugirem de uma profissão valorizada?
Há poucos dias conversava como meu filho, que conclui o Ensino Médio em uma escola particular que atende classes econômicas mais privilegiadas [apesar de sermos um casal de professores, fazemos esse investimento no nosso filho, com tudo o que representa em dispêndio financeiro]. Nenhum aluno ou aluna do 3o ano do EM desta escola pretende cursar uma licenciatura ou um curso de Pedagogia. Suas opções são, essencialmente, pelas carreiras tidas aqui como “nobres”. Querem ser advogados, médicos, engenheiros e coisas assim. A propósito, meu filho é o único em algumas dezenas de estudantes que pretende fazer Relações Internacionais. Mas seu projeto futuro é o Instituto Rio Branco. Filho de professores, quer distância dessa carreira. Alega que trabalhamos muito e, ele mesmo reconhece, temos muita chateação por conta do trabalho. Mas ele se orgulha dos seus pais que escolheram educar jovens e adultos.

A propósito do relatório da OECD. Ele foi publicado hoje é possível obter cópia, gratuita, do texto em inglês, em arquivo com formato PDF [clique aqui].
É um volume grande, com mais de 400 páginas. Para quem tem pouco tempo para ler tanta coisa, uma dica é um resumo dos principais achados, em versão em português.
Há também uma versão em francês do relatório. “Regards sur l’éducation 2009: Les indicateurs de l’OCDE” está online. Clique aqui para obter a cópia.