A educação de uma nova geração: urge uma reforma da escola

Falar em educação é falar sempre em desafios. Falar em educação no Brasil é certamente falar em problemas e crises. Contudo, de modo geral em todo o mundo a educação vive uma grande crise.

Essa crise está assentada num modelo de escola que se implantou no século XIX, quando a revolução industrial começou a demandar massas de trabalhadores necessários para atuarem em fábricas e nos escritórios.

oamis_educa_2A escola que então se implantou, e que se tornou inclusive compulsória, incorporou os paradigmas daquela revolução industrial. A escola se transformou em uma linha de montagem, onde o aluno era o produto. Por isso não é difícil, ao ver o filme “Tempos Modernos”, enxergar a realidade da escola que se mantém no mesmo formato até os dias de hoje.

Desde a implantação daquele modelo de escola, gerações e mais gerações foram formadas nessa linha de produção. Testes padronizados, professores num exercício repetitivo do ato de ensinar, ênfase num processo de ensinar que era o monólogo de quem sabia para que nada sabia, uma “tabula rasa”, eram as marcas daquela escola. Mas são ainda essas marcas que estão na escola de hoje.

No final do século XX, marcado pelo avanço das tecnologias da informação, vamos encontrar uma empresa alterada, distante daquele modelo fordista do início do século. Profundas alterações estão acontecendo nas instituições do setor produtivo. Novos paradigmas são incorporados nas fábricas e no setor de serviços, transformando-se a empresa que agora tem que ser “enxuta”. Dowsinzing, just in time, GQT, reengenharia e outros chavões permeiam o setor produtivo. Pela natural vinculação entre educação e o mundo do trabalho, muitos desses chavões chegaram até mesmo às escolas; mas foi modismo, já que pouco ou nada nelas se alterou.oamis_trabalhador

Nesse novo cenário da economia, o perfil do trabalhador demandado pelas indústrias se altera profunda e rapidamente. É notável a clara tendência de mudança nos processos e formas daquele trabalho tradicional que era marcado por características tais como a segmentação, a repetição e a padronização. Era assim quando o trabalho estava baseado nos axiomas tayloristas e fordistas, onde a especialização profissional era a tônica. Vemos surgir hoje uma nova forma de trabalho, como decorrência da revolução informacional, cujas características principais são a integração, a des-hierarquização e a flexibilização (Castro, Armando B. Impactos nas novas tecnologias da informação. 1995) e que coincide com a globalização da economia e com a imperiosa necessidade da competitividade baseada na qualidade na busca de mercados consumidores.

Nesse novo quadro de predomínio de altas tecnologias de informação, baseadas principalmente no computador, e de novas padrões de produção, aquele “apertador de parafuso especializado”, tão bem caracterizado por Charles Chaplin no filme “Tempos Modernos”, perde rapidamente seu valor como força de trabalho.

O trabalhador que exerce mecanicamente suas tarefas começa a ser parte do passado e está fadado a incorporar-se à legião de excluídos se não conseguir se adaptar às novas demandas que se colocam (Moraes, Antônio E. Educação e emprego. 1998). Nos acostamentos da information highway vão ficando os novos excluídos do setor produtivo alterado pela revolução provocada pelo avanço da informática.

Como destaca Pierre Lévy (O que é virtual. Editora 34, 1996), o trabalhador contemporâneo não tende mais a vender a sua força de trabalho; o que ele estará vendendo é competência, isto é, “uma capacidade continuamente alimentada e melhorada de aprender e inovar”. Nesse novo cenário, o puro adestramento enquanto estratégia de formação de recursos humanos perde significado; muda-se a ênfase nos processos de formação de mão-de-obra. Cada vez fica mais evidente que a formação não pode ser considerada esgotada em momento algum. Assim, educação ou formação continuada passa a ser mote.

Quando a inovação competitiva passa a ser a pedra-de-toque, quando as empresas assumem uma rotina de mudanças e se reinventam a constantemente (Mariaca, Marcelo. A nova competição trabalhista. 1999) elas precisam buscar um novo tipo de profissional. O perfil que se estabelece para esse novo profissional gera uma nova demanda da matriz formadora de mão-de-obra para o trabalho, ou seja, a escola. Da escola se espera ou se demanda um novo “produto”. A escola tem que se tornar moderna para responder a esses desafios.

Mas da mesma maneira que as empresas têm que se repensar e fazer seu redesign para terem vez na sociedade da informação, a escola tem que se rever.

Da mesma forma que não basta colocar computador numa empresa para ela se torne moderna (Persona, Mário. A nova economia. 1999), de nada adiantará colocar computadores para uso pelos alunos se as práticas na escola continuarem as mesmas, se os professores (agora com o concurso de uma nova mídia) continuarem a ser emissores de informação e seus alunos os passivos receptores, se o currículo permanecer inalterado.

oamis_educa_1A escola que se pretende contemporânea precisa enfrentar, por seus atores, diversos desafios para que a incorporação das novas tecnologias da informação possa realmente agregar valor ao processo de formação de seus educandos (Marinho, Simão Pedro P. Educação na Era da Informação; os desafios na incorporação do computador na escola. São Paulo: PUC, 1998). Apenas enfiar o computador nas salas de aula é um desperdício de dinheiro e uma estratégia, mesmo que não intencional, de iludir pais e alunos com uma perspectiva de educação moderna.

A escola precisa mudar. E é nessa escola modificada, revista, que as tecnologias da informação poderão dar seu contributo na adequada formação do cidadão do século XXI, o indivíduo produtivo na sociedade do conhecimento.

Simão Pedro P. Marinho, em junho  de 1999

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