Uma avaliação feita de encomenda para reprovar alguns. Isso tem sentido?

Meu convencimento é de que avaliar bem não é tarefa fácil.
Também penso que é muito fácil criticar avaliações.
Não duvido um instante sequer que existam instituições de ensino superior reprováveis no Brasil. Há mesmo muita ruindade por aí, por várias razões.
evaluation_090919-1.jpgAs diversas avaliações levadas a cabo pelo INEP/MEC revelam ruindades. 
E, como se viu no último ranking, em várias casos a ruindade está também em IES públicas. É como se a ruindade deixasse de ser privilégio das IES particulares. E cai o mito de que qualidade é coisa apenas para IES públicas que, de maneira geral, contam, para início de conversa, com alunos oriundos das melhores escolas da Educação Básica. Mais preparados, conquistam mais vagas nas IES públicas. Restam aos menos preparados, notadamente os que vieram de escolas públicas da Educação Básica, o caminho das IES particulares, algumas verdadeiros caça-níqueis mesmo.
Mas como acreditar de todo em um sistema que é feito para reprovar mesmo algumas IES? Ou em um sistema que limita o número de IES que terão a nota máxima?
Pois é esse exatamente o problema que acaba revelado em manifestação do Ministro da Educação, Fernando Haddad, em matéria publicada hoje no jornal Folha de S.Paulo.
Segundo o ministro, o modelo de avaliação adotado pelo MEC pressupõe que sempre haverá IES com notas baixas,assim como poucas com nota máxima.
Fernando Haddad admite que o modelo de avaliação adotado pelo ministério do qual é titular for aplicado na França haverá instituições com IGC [Índice Geral de Cursos] igual a 1, o nível mais abaixo. O ministro é enfático: “Sempre haverá cerca de 12% das matrículas em instituições com desempenho insuficiente.”
Me vi pensando se Haddad fosse diretor de uma escola na qual eu pretendesse matricular meu filho. Eu desistiria disso assim que soubesse que, antes de qualquer prova, já estivaria decidido que apenas 12% dos alunos teriam nota máxima e que de qualquer jeito alguns alunos seriam reprovados.
Afinal, não deve haver escola que reprova apenas para ajustar resultados possivelmente à curva da normalidade.
Em síntese, não tem sentido uma avaliação “gausiana” – que me perdõem pelo neologismo – que força a reprovação de alguns para que o “destino da curva do sino” se faça.
Escola que é escola mobiliza recursos para que todos os alunos sejam aprovados, deseja que todos alcancem nota máxima. Ou não?
Escola que avalia ciente e consciente de que terá que reprovar alguns para mostrar que a curva da normalidade funciona não tem sentido.
A avaliação que o MEC vem fazendo é desse tipo. Algumas IES, alguns cursos terão que “tomar pau”, ainda que venham a obter nota que não conduzisse a isso. IES e cursos serão reprovadas apenas para mostrar que a curva do sino também se manifesta nessa avaliação, que os resultados seguem a “normalidade”, ainda que “encomendada”.
Será que a todo aluno interessa saber se estuda na melhor IES, no melhor curso de sua área?
Ou ele quer apenas saber se a sua IES ou o curso tem a qualidade necessária?
Mas com esse ajuste à curva do sino, como de tudo no mundo fosse normal, que certeza esse aluno terá da real “nota” da sua IES ou do seu curso?
No artigo Tremores no Ensino Superior,  publicado em 18/9/2009 no jornal Folha de S. Paulo, Arnaldo Niskier afirmou que, pelo que comprovam os recentes exames nacionais, estamos diante de uma tragédia anunciada. 
Pois é, ele não falou nessa perspectiva, mas a  metodologia adotada pelo MEC prenuncia mesmo algumas tragédias. Independente de pontuações que IES ou cursos venham a obter, alguns serão “reprovados” e a tragédia estará no cenário, dele e dos que são seus alunos.
Repito: existem IES e cursos superiores ruins. E devem ser fechados se, dada uma oportunidade, não melhorarem.
Mas é hora de batermos o sino para alertar sobre o risco de  injustiças que possam estar sendo cometidas, em nome da estatística, na avaliação do ensino superior.

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