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Vergonha!

08/11/2009

Graças aos telefones celulares e o YouTube foi possível ficar sabendo de um lamentável episódio ocorrido, no último dia 22 de outubro, em uma unidade da UNIBAN em Santo André. Uma aluna do curso de Turismo teria “provocado” cenas de selvageria por estar usando “trajes inadequados”. Esse seria o entendimento ao final de uma sindicância levada a cabo na instituição. No vídeo não se vê esse traje que não deveria estar em um campus. O que se vê são cenas explícitas de selvageria. A cena que mais chama a atenção é a saída da aluna, escoltada pela polícia, aos gritos de puta. Quem grita? Seus colegas, universitários, alunos de curso superior, gente adulta. Em sua coluna no jornal Folha de São Paulo na última sexta-feira, Fernando Gabeira comentou a reação de um dos alunos dessa universidade. Em fúria, o aluno teria dito que não queria ter essa mancha em seu diploma. Mas não ficou claro o que seria a mancha em um diploma emitido pela UNIBAN. Seria a de ter aluna que vai às aulas usando um vestido que deixa à mostra uma parte generosa de suas pernas? Ou seria a selvageria de alunos, colegas da “loira de pernas de fora” e do aluno furioso? Não consegui saber, permaneço em dúvida. Hoje me surpreendo ao saber, por jornal e rádio, que a aluna, vítima de um episódio que será sempre lembrado e comentado, acabou sendo expulsa da UNIBAN. O motivo da expulsão? Ela teria faltado com respeito à dignidade acadêmica e à moralidade. Não teria sido ética. É para rir ou para chorar? E os alunos que abandonaram as salas de aula para gritar o coro que marcou o episódio? Permanecem alunos, claro. Porque, mais do que alunos, são pagadores. Pagam por aulas que abandonam para agredir colegas. Mas isso não é problema se pagam em dia. Depois, façam o que quiserem, inclusive atos condenáveis como violentar moralmente uma aluna da mesma instituição, uma colega. Oos alunos ainda mereceram o  reconhecimento da UNIBAN. Segundo a sindicância, aqueles atos – que aos olhos de qualquer pessoa decente não passam de exemplos da mais pura barbárie – nada mais foram do que uma “reação coletiva de defesa do ambiente escolar”.  Ou seja, adotaram o “estupro moral” para garantir a sua escola, a educação que ali recebem. Recomendo à UNIBAN  um  desconto nas próximas mensalidades dessa turba  – que, mais do que pelas pernas de fora, se excitou pela própria fúria – como prêmio por essa defesa intransigente de valores que, imagino,  devam ser os praticados naquela instituição. Premiem a intolerância, a selvageria, o bullying. E façam escola. O educandário – era assim que se falava há alguns tempos atrás de qualquer escola – escolheu expulsar a vítima, aquela que se viu reconhecida de repente, por suas própria palavras, como sendo  “a puta do YouTube”. O que me possível concluir é que, nessa instituição, agredir moralmente uma colega seria ato compatível com a dignidade da vida acadêmica. Violentar a moral de uma colega não fere o decoro universitário. Cometer uma violência emocional não constitui infração disciplinar. Ou se for, é coisa leve, que se paga com alguns poucos dias de suspensão. Não sei se o aluno furioso, do qual Fernando Gabeira fala, decidiu agora por se envergonhar do diploma que certamente obterá um dia. Mas o motivo para a vergonha não pode estar, certamente, em ser colega de Geisy Arruda, a vítima e culpada, segundo a UNIBAN, de um dos mais deprimentes episódios de selvageria que assisti, graças a celulares e o YouTube, nos últimos tempos. A única coisa que me alivia é que não corro risco algum de ter um filho matriculado nessa universidade, que protege arruaceiros e pune vítima. Para a UNIBAN, Geisy deve ser tão culpada quanto a vítima de estupro que teria provocado o agressor. É, tem gente que pensa assim: as mulheres são sempre culpadas pelos crimes que homens praticam contra elas. Para a UNIBAN os “estupradores emocionais”, os “violentadores da honra” podem continuar frequentando o campus. A novidade estaria apenas em uma frase para a nossa tradicional coleção: “Estupra, mas paga.” Mas não se trata de pagar pelo ato insano. O que importa é pagar mensalidade. Pois é com isso que essa universidade se importa.

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Web 2.0 e aprendizagem

06/11/2009

Em artigo publicado online,no iMasters, no UOL, Rita Guarezi indaga: “A Web 2.0 muda os processos de aprendizagem?” A autora chama a atenção para a chegada da internet na escola, destacando, com absoluta razão, que nesse espaço que considera diferenciado o que se viu foi, de maneira geral, mais uma vez uma reprodução de conteúdos e atividades tal qual se via no modelo presencial. De fato, a internet permitiu inovar na mídia. Mas não é isso que modifica práticas educacionais. A mudança tem que estar na cabeça dos professores; não bastar estar no entorno. Deixe na sala de um professor tradicional um computador e ele, se o usar, pedirá um projetor multimídia e exibirá uma apresentação gerada no PowerPoint, dando um suporte “moderno” ao jeito que sempre usou em salas de aula. Continuará usando a fala para informar. O PowerPoint, usado como a antiga transparência, será a mesma cola que era possível com o retroprojetor. Será que professor que não cola sai da escola? Segundo Rita Guarezi, ao definir-se um curso que seria “mediatizado por tecnologias” o professor deveria responder a algumas perguntas que, afirma, tornaram-se muito importantes. Algumas delas: Quem são as pessoas que vamos formar? O que já sabem e o que não sabem sobre o que vamos falar? Como elas aprenderam a aprender? Quais são seus estilos cognitivos? Que competências precisam desenvolver? Tendo a ver um equívoco quando se argumenta que tais questões se tornaram importante porque mediatiza-se com a tecnologia o espaço de aprendizagem. Tais perguntas cabem no início e ao longo de qualquer processo de formação. Não podemos nos permitir acreditar que só a educação a distância baseada na internet deva se preocupar com isso. Ou que tal preocupação surja apenas e tão somente porque existe hoje uma educação online. Lá mesmo ela não ocorre de maneira tão disseminada quando sugerem alguns, imaginam outras. A velha escola se faz presente também no ciberespaço, exatamente porque quem a determina é o professor, seu pensar sobre a educação, não as tecnologias. Essas são questões que devem estar nos fundamentos da educação, seja presencial, seja a distância. Mas de todo, vale a pena ler o artigo de Rita Guarezi e pensar sobre ele. Contudo  recomendo que se pense nele para além do e-learning. E respondendo à questão que ela coloca no título do artigo, eu digo: a Web 2.0 não muda os processos de aprendizagem. Mas torço para que os professores mudem seu pensar sobre o que deve ser educação hoje, que tenham pensamentos contemporâneos com esse mundo que aí está. Quando isso acontecer, esses professores privilegiarão a aprendizagem, ao invés do ensino. Buscarão construir estratégias para que seus alunos construam conhecimentos, ao invés de passarem a vida decorando informações que lhes foram ditadas e que serão cobradas em provas. O professor que chegar lá usará certamente a Web 2.0, sabendo que se tratam, muito mais do que recursos, de novas linguagens. Assim, a Web 2.0 será útil a aprendizagem, sem jamais ser determinante dela. Isso é tarefa de professor. Tarefa sagrada, por sinal.