Ociosidade nas vagas em licenciaturas e Pedagogia. Nada para surpreender.

sala de aulaEm matéria publicada hoje, a Folha de S. Paulo destaca o fato de que 6% das vagas oferecidas no 1o ano das licenciaturas e cursos de Pedagogia não são ocupadas aqui no Brasil. Para os demais cursos, esse percentual recua para 3,5%. Ao mesmo tempo, a realidade do país mostra a carência de professores adequados, efetivamente preparados para o exercício do magistério. 
Quem
freqüenta salas de aulas de algumas licenciatura ou de curso de Pedagogia, quase nunca cheias, sabe que muitos alunos ali estão apenas para obterem um diploma de curso superior e seguirem em uma atividade profissional que não seja o magistério. Baixa concorrência, quantitativa e qualitativa, nos vestibulares para esses cursos criam um atalho para aquele que quer apenas obter um diploma de ensino superior.
Por isso, oferecer bolsa de estudo para que alguém possa se preparar para ser professor, como sugere João Cardoso Palma Filho, pesquisador da Unesp e membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, em outra matéria da Folha, seria dispender ainda mais dinheiro sem resolver a crônica falta de professores, problema que – não é necessário ser futurólogo para antecipar – tende a se ampliar.
Convenhamos que não se pode culpar os jovens por não quererem ser professores aqui na Terra Brasilis. E não será uma bolsa que haverá de comprá-los na sua vontade de buscarem profissões que possam garantir rendimentos significativos e reconhecimento social. Ao contrário, corre-se o risco de pagar-se a bolsa por até 4 anos e, com o canudo debaixo do braço, o ex-licenciando evitar salas de aula e dedicar-se a outra profissão na qual poderá ter mais rendimentos com enorme probabilidade de não se submeter a mais riscos do que um cidadão comum.
A realidade da vida do professor da Educação Básica, notadamente em escolas públicas,
não exerce qualquer atrativo para os jovens que concluem o Ensino Médio. Quando meu filho concluia o Ensino Médio, agora em 2009, perguntei-lhe quantos dos pouco mais de 300 colegas de escola pretendiam ser professor. Ele buscou saber e me deu a resposta: nenhum. Querem ser alunos de cursos prestigiados, com certeza.
A titular da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação, Maria Paula Dallari Bucci, reconhece que a atual – mendigandoe eu diria aparentemente irreversível – desvalorização da carreira docente interfere na sobra de vagas. Mas, afirma, o quadro deverá melhorar com medidas como o piso salarial do professor – que em 2010 passa a ser pouco mais de R$ 1 mil – e a lei que permite ao aluno de universidade particular ter o curso pago pelo Estado em troca de trabalho em escolas públicas depois da formatura. Essa é uma questão que devo comentar em novo blog porque fico sem compreender como alocarão esses egressos nas escolas sem o concurso público. Correrão eles o risco de serem, até a aposentadoria, o que aqui em Minas Gerais é o professor designado, sujeito atarefado e de futuro incerto?
Para a Secretária de Educação Superior a ociosidade de vagas deverá reduzir-se com a unificação do vestibular de diversas federais, o que acontecerá a partir de fevereiro. Respeito a opinião da Secretária, mas não consigo enxergar essa pretensa relação de causalidade.
Mesmo quanto ao piso salarial, que desde sua implantação encontra resistência de muitos governantes, que talvez pudesse de fato tornar atrativa a carreira docente, tenho minhas dúvidas.
contrachequeVejo o piso salarial
nacional do magistério, criado pela Lei 11.738, como algo importante, mas não suficiente para mudar a realidade do interesse pela função docente. Não creio que apenas pagar mais aos professores garanta qualidade na educação. Pode até ser. Mas vejo a educação, e principalmente sua qualidade, dependendo de muito mais coisas. Por exemplo, o professor de repente não terá mais cultura apenas porque seu contracheque veio com valores maiores. E, no Brasil, o baixo índice cultura de professores é gritante. Vindos de famílias de classes econômicas mais baixas em sua maioria, trazem para as escolas pouca bagagem cultural; não vão a teatros, cinemas, lêem pouco.
O piso salarial do magistério passou, em janeiro de 2010, a ser de R$1.024,67, conforme interpretação da Advocacia-Geral da União (AGU) para uma jornada semanal de 40 horas.
Se olharmos bem, o atual piso tem, na verdade, um valor bem próximo ao que ganha uma empregada doméstica, muitas
vezes analfabeta, em casas de família de classe média, ao menos nas regiões Sul e Sudeste e no DF. São apenas R$4,37 a mais do que dois salários mínimos vigentes.
A violência contra professores em escolas, revelada em pesquisas como uma realizada pela UNESCO, torna-se motivo para não querer ser professor ou para o professor fugir da escola. Sim, hoje são os professores que fogem da escola, ameaçados em sua integridade física, geralmente vítimas constantes de agressões verbais.
Não só pelo por tudo isso não é de estranhar que hoje em dia busquem os bancos das salas de aulas das licenciaturas e dos cursos de Pedagogia aqueles que não conseguiram aprovação no vestibular de outros cursos.
O problema do Brasil, como se revela freqüentemente, não é falta de vagas nas licenciaturas.
É falta de vontade – justificada, eu ousaria dizer – de alguém se tornar professor.
Nossas autoridades parecem fechar os olhos para essa realidade. Talvez o façam por poderem estimar q
uanto custaria mudar esse estado de coisas. E saem oferecendo cada vez mais vagas para formar professores, agora através da EaD.
A única coisa que conseguiremos com essa política é aumentar a ociosidade das vagas. E, claro, como sempre só não vê isso
quem não quer.

As imagens, meramente ilustrativas, são dos blogs Na estradaA Alternativa
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