Baixou o professor no propagandista

Baixou o professor no, imagino eu, propagandista de laboratório Francisco Stanguini, de São Caetano do Sul, em São Paulo.
Ele escreveu uma carta, para o Painel do Leitor, do jornal Folha de São Paulo, publicada hoje, na qual se refere a uma outra carta de leitor, um  médico.
Transcrevo uma parte da carta enviada pelo Stanguini.

“Foi com muita tristeza que li a carta do médico José Elias Aiex Neto sobre propagandistas de laboratório (“Painel do Leitor”, ontem). Ele afirma não receber propaganda médica há 12 anos e garante que não faz nenhuma falta. Certamente ele deve estar bem desatualizado com a prescrição de medicamentos. A função de um propagandista é levar informações técnicas e científicas atualizadas sobre produtos e trabalhos que não são publicados na internet.”

Quem lê essa carta criticamente – e ouso dizer que posso fazê-lo – vê aí a atitude que vem marcando muitos, quase todos os professores. Se eu não ensinar, eles não saberão, não terão como aprender. É exatamente isso o que parece pensar o leitor Stanguini.
Se o propagandista não “ensinar” aos médicos sobre os novos medicamentos e as formas de prescrevê-los, eles nada mais saberão, ficarão desatualizados e a saúde do povo estará em risco.
Pior ainda. O leitor – um propagandista como imagino – Stanguini sugere que, para além dele, o propagandista, e da internet, não haverá mais informação atualizada para os médicos. Ou seja, sem o “saber-delivery” do propagandista ou a moderna internet [ainda bem que já existe isso] o que restaria será o breu da ignorância.
Não ocorreu a Stanguini, como não ocorre a muitos professores, que existem outras estratégias e recursos para a aprendizagem. Ou ele pensa que o médico não poderá aprender na conversa com um colega, lendo a bula do remédio que não recebeu do propagandista –  mas que um colega recebeu-, frequentando congressos, lendo revistas especializadas?
Masé  interessante ver que Sanguini ainda reconhece a internet como algo que pode competir com seu saber ou até substituí-lo. Muitos professores sequer fazem isso, alguns até fingem que a internet existe.
Sanguini reflete, em seu protesto contra o médico, o pensamento de muitos professores: Sem eles, os professores – e quem sabe a internet – não haverá mais chances do aluno se informar e, a partir daí, de aprender algo.
O problema dos professores é que eles correm o risco de serem batidos pela internet. Não sei se esse é o caso do propagandista de laboratório farmacêutico. Resta viver para saber.

A imagem são do site TopTeam Online e do blog “Comida, diversão e arte“.

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3 Respostas to “Baixou o professor no propagandista”

  1. José Elias Aiex Neto Says:

    Como autor da carta que motivou a resposta do viajante de laboratório citado, gostaria de assinalar que o sentido maior para o assunto em tela é que o povo brasileiro paga, embutido no preço dos medicamentos que consome, os gastos que a indústria farmacêutica tem com seus propagandistas. Além disso, confesso, com tristeza, que a maioria dos médicos faz o jogo da indústria farmacêutica, receitando seus produtos e recebendo “brindes” pelo receituário. Quem promove tal negociação é o viajante de laboratório.
    É preciso que se entenda que, depois da Lei do Genéricos, o médico não deveria recitar medicamentos pelo nome comercial dos mesmos, mas sim pelo nome do(s) composto(s) deles. Assim, o paciente pooderia escolher o mais barato na farmácia. O viajante de laboratório trabalha contra a lei dos genéricos, que buscou diminuir o preço dos medicamentos. O jogo é pesado, porém tem que ser enfrentado.

  2. Ricardo De Souza Pereira Says:

    Sou professor de Farmacologia, Clínica & Terapêutica e Farmacodinâmica e nunca li tanta idiotice por parte de um propagandista. De acordo com o mesmo, então, não necessitamos ir à faculdade. Apenas formamos e devemos receber a visita de um propagandista para aprender farmacologia. O professor de farmacologia é o PROPAGANDISTA DE MEDICAMENTOS. Acho que este cara deveria se colocar no seu lugar.
    Tenho pós-doutorado, doutorado, mestrado e graduação. Sou o maior conhecedor de farmacologia do País e uma dia destes em uma farmácia de Belo Horizonte pedi TRIMEDAL TOSSE (com dextrometrofano). A balconista disse que não tinha. Daí, pedi um IMOSEC (loperamida). A balconista ficou surpresa e disse: “mas IMOSEC é para diarréia”. Eu dei risada e respondi: “Sim. Para diarreái, DOR e TOSSE, já que a LOPERAMIDA é um opióide assim como o DEXTROMETORFANO”. Gostaria de saber se existe algum PROPAGANDISTA/PROFESSOR que saiba disto. Aliás, eu duvido que algum médico, farmacêutico, enfermeiro, dentista ou médico veterinário sabe disto. NÃO SABEM !!! Eu aprendi isto (e muito mais) no meu pós-doutorado nos EUA. Na escola de medicina da YALE UNIVERSITY – 3a. melhor do mundo. E tais conhecimentos serão lançados em breve em um livro de minha autoria. O mais interessante é eu deveria pedir consultoria a um grande PROPAGANDISTA. É de morrer de rir.

  3. Ricardo De Souza Pereira Says:

    Parabenizo também o médico José Elias, pelo fato do mesmo não receber visitas de PROPAGANDISTAS de MEDICAMENTOS (que depois que li esta reportagem descobri que são professores também) . Infelizmente, numa pesquisa feita por um médico fazendo doutorado na UNESP DE BOTUCATU foi constatada que mais de 90% dos médicos receitam o que o REPRESENTANTE / PROPAGANDISTA da multinacional indica. Isto é de entristecer. Medicamento é coisa séria. Uma simples ASPIRINA pode desencadear síndrome de Stevens-Johnson. Isto eu ministrei em sala de aula e cobrei em provas nas faculdades de medicina e na de farmácia.
    Att.,
    Prof. Dr. Ricardo de Souza Pereira, Pharm.D., Ph.D.

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