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ENEM. Prá que tanto desespero?

21/09/2011

Na quarta-feira da semana passada, ainda bem cedo, o telefone tocou.

Para quem tem uma mãe com 87 anos de idade e com saúde um tanto debilitada, um toque no telefone bem cedo assusta. Por mais otimista que queiramos ser, um telefone que soa fora do horário “comercial” traz apreensões.

Felizmente, não era sobre minha mãe, nada que me provocasse  preocupação.

Mas era uma mãe preocupada; desperada, eu diria.

Qual a razão do desespero? O resultado do ENEM.

Essa dona de casa desesperada, professora e minha ex-aluna na graduação,  queria ouvir-me sobre o resultado do ENEM.

O resultado saíra na segunda anterior e fora divulgado, pela grande mídia, na terça-feira.

Sua preocupação, a razão do seu desespero? A posição da escola dos filhos, em relação a uma outra da mesma rede e, principalmente, suponho, em relação às “campeãs”.

O que é esse ENEM, afinal de contas, que tanto assombra estudantes e pais?

É um exame que tem o objetivo de avaliar o desempenho do estudante ao fim da escolaridade básica.

Vejamos bem, ele avalia o desempenho em redação e em provas objetivas de quatro áreas do conhecimento: (1) linguagens, códigos e suas tecnologias; (2) ciências humanas e suas tecnologias; (3) ciências da natureza e suas tecnologias e (4) matemáticas e suas tecnologias.

Avalia a educação básica de cada aluno?  Diria, convencidamente, que não. Educação é muito mais do que desempenho em duas provas. Educação diz respeito a todo um trajeto, a uma vida quando se considera o tempo da educação básica, 12 anos no mínimo.

Avalia a qualidade da escola como fazem supor as publicidades e propagandas das escolas bem colocadas em um ranking que foi criado pela imprensa, jamais pelo MEC? De novo, decididamente, eu diria que não. Exatamente porque não são todos os seus concluintes que prestam o exame, que é voluntário.

Sabemos que algumas  escolas, da rede privada de ensino,  que escolhem os melhores alunos para fazerem o ENEM. Usando-os, buscam posições superiores no ranking, estratégia para ganhar novos alunos no ano seguinte, ou ao menos para não perder alunos para escolas melhor ranqueadas.

Me lembro agora da história contada por um aluno na graduação. Quando concluinte do Ensino Médio, ele foi um dos “convidados” pela sua escola para não fazer o ENEM. Ele não estava na lista daqueles com os quais a escola contava para “sair bem na foto”. Disse a todos, durante uma das minha aulas, que a escola convocou alguns alunos para fazer o ENEM, pediu a outros que não o fizesse e prometeu um churrasco para todos se sua nota final fosse boa. Evidentemente que omito o nome da escola. Mas é um colégio sempre bem posicionado no ranking das escolas privadas de Belo Horizonte e que faz bonito mesmo no cenário nacional.

O ENEM 2010 traz o índice de participação. Algumas escolas alcançaram 100%. Isso quer dizer que todos os seus alunos concluintes do Ensino Médio prestaram o exame, pensarão os tolos ou crédulos? Mas não é isso. Esses 100%, ou 75% ou o número que seja indicam quantos dos alunos inscritos no exame compareceram em seus dois dias e fizeram as provas.  Como a inscrição no exame não é obrigatória, podem estar ali, “representando” as escolas aqueles por elas considerados os melhores.

 O INEP destaca na nota técnica do ENEM 2010  que ” mesmo para as escolas com alta Taxa de Participação no ENEM, os alunos participantes podem não representar o desempenho médio que a escola obteria caso todos os alunos participassem, considerando o caráter voluntário do Exame”. Pimba! Portanto, nunca saberemos, até que o ENEM seja obrigatório para todos os concluintes, como é o caso do ENADE, que o retrato fornecido pelas notas reflete o que de fato acontece na escola com todos.

Quando o ENEM for obrigatório para todos, com as escolas que não tiverem 100% dos concluintes inscritos e participando das provas não tendo suas notas finais divulgadas, aí teremos alguma chance para acreditar que as notas refletem o desempenho de seu processo formativo, ainda que duas provas não sejam suficientes para mostrar percursos.

Existem escolas que, por estarem ranqueadas no ENEM, atraem alunos em seus anos finais do Ensino Médio. Carreiam para si os melhores alunos de outras escolas; os ruins, os fracos elas não querem. Será que podemos em sã consciência dizer que um aluno que passou, digamos, 8, 10 anos em uma escola e que depois vai para uma “escola campeã do ENEM” é um “produto dela”, teve uma boa formação básica por causa dela? Certamente que não!

ENEM. Assunto para continuar em outro post.

Uma estorinha de “mudança”

11/09/2011

Um diretor de uma escola brasileira – só pode ser particular, já que na rede pública o professor é “imexível” – demitiu um professor extremamente tradicional, que ali lecionava há 30 anos. Não porque não gostasse dele. Era boa gente, atencioso, frequente, pontual. Até os meninos gostavam dele. É gente boa, diziam. Mas o diretor queria mudar o formato do ensino na escola e, por isso, contratou um recém-egresso da universidade. Era jovem, deveria ter uma formação mais moderna, mais de acordo com o que deve ser preciso em uma escola do Século XXI. Seguramente o novato aprendera coisas sobre didática, psicologia e tecnologia educacional que o antigo professor sequer ouvira quando estava na universidade. O desejo do diretor de oferecer um ensino inovador era mesmo enorme. E naquele professor recém-formado estava essa chance. O diretor, sedento por ver a rápida mudança acontecer, decidiu acompanhar o novo professor em seu trabalho. Ele seria o modelo para a mudança dos demais professores. Percebeu que a arrumação da sala se mantinha como antes. As carteiras continuavam enfileiradas, cada aluno assentado atrás de outro. Contudo, pensou, isso é o de menos. Mais importante que alterar o aspecto das salas, o essencial seria modificar as aulas. Uma nova didática, um novo ensino, uma educação moderna, ainda que as carteiras estivessem enfileiradas. Acompanhou então uma primeira aula do professor novato. Ele usava o computador e o projetor multimídia. Enquanto falava, mostrava aos alunos uma série quase infindável de slides. Eram tantos que as luzes da sala só se acenderam no final da aula, quando soava o sinal. O novo professor prometeu aos alunos, jovens que sem dúvida gostam de usar o computador, que enviaria a apresentação por e-mail. Isso é um traço da modernidade, pensou o diretor. Mas, depois de algumas aulas, viu que eram todas iguais. A dinâmica era sempre a mesma: aulas expositivas, alunos silentes, slides projetados em uma tela. O diretor constatou, com enorme tristeza, que a forma de ensinar do novo professor era a mesma adotada pelo professor que demitira. Não fosse pelo computador, seria a mesma aula. As provas, verificou depois, permaneciam do mesmo jeito, cobrando aos alunos a matéria que deviam decorar. O diretor, incomodado, resolveu abordar o professor recém-chegado. Questionou-o sobre as aulas, sobre o ensino. Afinal, tudo permanecia na mesma. O professor, recém-formado, repetia o que o demitido fizera por anos e anos na escola, três décadas para sermos exatos. “Por que nada mudou?”, perguntou então o diretor, em uma conversa reservada com o professor novato Do novato ouviu uma resposta: “Toda a minha educação básica foi feita assim, em todas as escolas que frequentei, ao longo de onze anos. Depois foram mais quatro anos na universidade e tudo era dessa mesma maneira.” E, encerrou o professor novato, desculpando-se: “Não sei como fazer isso diferente”. Foi demitido na hora, apesar de toda a honestidade imediatamente reconhecida pelo diretor. Logo depois o novo desempregado foi chamado para ser professor em uma instituição de ensino superior. Agora podia realizar aquele que era o seu grande sonho: formar novos professores. [Publicado iem 12/02/2009, no meu blog Tecnologias digitais e Educação].