Eu falo e te ensino, você me ouve e aprende. Será que é isso mesmo?

Nesta semana, ao passar por uma banca de revista, tive a atenção chamada para a capa de uma revista de grande circulação nacional.

Contra um fundo azul, sobre o desenho de uma lâmpada – com seu simbolismo de ideia – estava escrito “TED – O fast-food do saber. Aprenda qualquer assunto em 18 minutos com os maiores gênios do mundo – e de graça’.

De imediato me lembrei de outra revista, também de grande circulação, que na capa de uma de suas edições de 2012 declarava Salman Kahn o melhor professor do mundo.

Khan, considerado por alguns como um professor fantástico, ainda que jamais tenha sido professor, se propõe a reinventar a educação usando vídeos.

Para os menos avisados, Ted poderia ser o nome de um outro professor, que concorreria com o “reitor” da academia Khan pelo título de melhor do mundo. Mas não é. Trata-se de um acrônimo: T de technology, E de enterteinment e D de design.

TED é um seminário criado nos Estados Unidos, em 1984, que promove palestras de pessoas em geral bastante conhecidas e depois as torna disponíveis na internet. São, hoje, 1.202 palestras disponíveis no site do TED.

Nas palestras do seminário, que não ultrapassam 18 minutos de duração, temas dos mais diversos são abordados por especialistas de peso, o que dá ao seminário considerável credibilidade.

Acreditar que simplesmente ouvir alguém, por mais profundo conhecedor que seja de um assunto, por mais “didático” e brilhante que possa ser em sua exposição, definitivamente não significa que aprende-se o que é informado.

Mas a capa de revista não é o problema.

O problema  é que são muitos os professores absolutamente convencidos de que basta falar para que seus alunos aprendam. E falam por 50, 100 minutos, alguns vários vezes por semana, ao longo do ano letivo.

Falam, em geral, para uma plateia desinteressada, aborrecida. Afinal, por ter que ouvir, silente, o professor que quer lhe informar coisas e mais coisas que estão, não raro, no livro-texto? Bastaria que fossem lidas? Ou, ainda, coisas que não têm significado algum para o aluno.

O interessante é que o TED parece atentar para os ciclos de atenção que a neurobiologia demonstra como característica do nosso cérebro. São 20 minutos no ciclo, ainda que possa vir a ser de apenas 8 mintos quando se trata de professor chato ou disciplina chata. Depois, ou o cérebro é estimulado –  e aí se reiniciará novo ciclo – ou se “desligará”.

Os professores que querem falar ininterruptamente  por 50, 100 minutos e ter  a atenção dos alunos desconhecem esse ciclo ou não não devem acreditar que ele tem sentido.

Deixo claro um ponto de vista: as aulas expositivas não precisam ser abolidas da escola. O meu convencimento é de que elas ainda têm lugar alí. Mas não tem sentido que sejam o  procedimento pedagógico hegemônico ou, pior, o único adotado pelos professores.

Aulas expositivas para introduzir assuntos ae criar o interesse dos alunos por estudá-los, aulas expositiva como síntese de assunto que foi aprendido pelos alunos devem acontecer nas escolas.

Mas, definitivamente, não tem mais sentido que professores fiquem apenas falando – e muitas vezes a informação que está nos livros que estão sobre as carteiras dos alunos ou em suas mochilas – convencidos que os alunos estão aprendendo. A prova de que isso não acontece está aí, nos resultados dos exames oficiais. Eles registram o baixo rendimento dos alunos nas provas, ainda que sejam muitas as horas que passaram ouvindo seus professores, em salas de aulas.

Ainda que no caso do TEC o “aluno” possa repetir, quantas vezes quiser, a “aula” –  coisa que não acontece na sala comum das escolas – não me convenço de que aprenderá qualquer assunto em 18 minutos. Mas, também, não aprenderá se ficar ouvindo por 45, 50 minutos um professor. A questão não é de mais tempo de escuta.

Aprendizagem exige ação, movimento. Não se dará na paralisia dos corpos silentes. Para aprender algo, é preciso incorporar a informação, transformá-la e ancorá-la [teoria de Ausubel]. Isso leva tempo. Possivelmente mais do que 18 minutos, mais até do que 50 minutos.

Uma palavra final sobre Kahn.  Ele sugere que os estudantes vejam as “vídeo-aulas”em casa e  façam a “lição de casa” na sala de aula, com o professor pronto para ajudar.

Khan não quer substituir professores. E  acredita que eles podem, ou devem, inverter o modelo tradicional da sala de aula, quando os alunos os ouvem e, depois, em casa, fazem os exercícios que deverão asegurar a aprendizagem.

O que Kahn sugere fazer com vídeos, alguns [raríssimos, claro] professores já fazem com os livros-textos. Os livros são lidos em casa e os problemas são resolvidos na escola, com apoio do professor. Os temas são objeto de discussão na sala de aula, até para tirar as dúvidas que ficaram, ao invés de constituírem a informação “inédita”.

E não é muito difícil fazer isso. Ou talvez seja, porque significa tirar o professor de sua zona de conforto. Afinal, nada mais confortável do que repetir, em ambiente de silêncio tumular, a mesma aula, por anos e anos.

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