Viva o atraso.

Uma notícia do jornal El Periòdic d’Andorra dá conta de que a demissão de uma professora da escola Espanyola d’Escaldes-Engordany, no principado de Andorra, teria sido recomendada porque ele “ensina demais” aos seus alunos. Um inspetor escolar, vindo de Madrid, constatou que seus alunos, de 4 anos de idade, já sabiam ler, estavam começando a escrever e podiam fazer contas de somar e subtrair . O inspetor considerou, em seu relatório, que o ensino utilizado pela professora era muito desenvolvido e não correspondia ao currículo de uma escola pública do país. Isso foi motivo suficiente para que recomendasse a demissão da professora e seu regresso à Espanha. Suspeito que para o inspetor madrileño o mínimo a ser ensinado coincide exatamente com o máximo. Os pais se mobilizaram para assegurar a permanência da professora.Por enquanto conseguiram que ela fique na escola até o final do ano letivo, em setembro próximo. Mas insistirão para que continue depois disso. Evidentemente que ler uma história dessa, por mais que nos deixe pasmos, nos remete para a situação da educação brasileira. Aqui os professores de escolas públicas, passado o chamado período probatório – onde estariam sendo postos à prova, resta saber a quem e  como – têm a sua estabilidade garantida até a aposentadoria, a menos que se vejam envolvidos em crime ou algo sério que motive uma ação das corregedorias. Aqui professores que nada ensinam permanecem nas escolas por 25, 30 anos, sem que jamais sejam incomodados, punidos, muito menos demitidos. Por outro lado, imagino que aqui no Brasil dificilmente um inspetor ou uma inspetora estaria na escola comprovando que o ensino que ali se pratica é adequado ou não para a realidade da rede pública. E independente do que constatassem, possivelmente jamais poderiam “demitir” professores. São como “vacas sagradas”, ninguém os toca. Pois é, se a professora de Andorra atuasse em escola pública brasileira há mais de 3 anos estaria com seu emprego garantido. Mas, convenhamos, também estaria garantida se nada ensinasse, se seus alunos de 14, 15 anos ainda não soubessem ler, escrever, fazer as contas. Estaria garantida se fizesse de conta que ensina.

Em tempo, porque certamente serei “massacrado” por comentários com relação a esse post.  Fui professor de escola pública por alguns anos. Sou casado com professora de escola pública que também não entende uma estabilidade a troco de nada, estabilidade que só teria sentido se o professor mostrasse – em processos de avaliação permanente e séria – que faz um trabalho de qualidade.

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