Archive for junho \26\UTC 2012

Novas tecnologias. Nova escola?

26/06/2012

Na medida em que as tecnologias digitais, sinais de um novo tempo, chegam à escola, apesar de ainda pobremente usadas, cenários e eventos se modificam, ainda que de alguma maneira as práticas pedagógicas permaneçam praticamente inalteradas.

Em um mundo nos quais as possibilidades de comunicação e informação se multiplicam a uma velocidade espantosa, em nossas escolas permanecem, de maneira geral, a aula que remete à Idade Média, quando se dependia da memória do professor e da sua oralidade para que os alunos pudessem estar sendo informados. E, claro, em algumas vezes usando-se o livro com uma fonte de informação. A fala [do professor] e o livro formam o binômio informacional de nossas escolas, na segunda década do século XXI.

Mas como a escola tem  a necessidade de se mostrar moderna, em um mundo no qual as novas tecnologias surgem a cada momento, oferecer iPad ou qualquer outro gadget que se proponha a ser leitor dos chamados e-books, é opção que não me surpreende.

Resta saber o que estará disponível nos tablets? Sem muita ousadia, eu diria que essencialmente as velhas apostilas, contendo matérias que os alunos estudarão depois das aulas expositivas, se preparando para as provas. São as velhas apostilas em novos “trajes”.

E assim, colocando roupas novas sobre velhos corpos a nossa escola busca se oferecer como uma instituição moderna. Engana a si mesma e engana os que a buscam. E o mais intrigante é que, ao final, enganadores e enganados saem todos satisfeitos.

Sobre febres e termômetros

07/06/2012

Participando da 42a. Reunião de Ministros da Educação do Mercosul, na Argentina, o ministro brasileiro, Aloizio Mercadante, propôs a criação de uma comissão de ministros do Mercosul para discutir o método utilizado no PISA, uma avaliação internacional de estudantes coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, OCDE.

Sabemos que os resultados de paises sulamericanos no PISA não são dos melhores, notadamente os nossos, brasileiros. Na última edição do PISA, em 2010, ainda que tenhamos avançado nos indicadores, ocupamos, respectivamente em Matemática, Ciências e Leitura, as posições de número 57, 53 e 53, em um elenco total de 60 países. Portanto, se acreditamos no PISA como indicador de qualidade de educação- claro que não somos obrigados a fazê-lo – devemos nos preocupar com os pífios números que nossos estudantes têm alcançado nas provas.

A notícia sobre a proposta, que li no UOL Educação, foi bem curta, mas suficiente para me deixar bastante encucado. Afinal, o que o nosso ministro quer dizer com “discutir o método”? Ele coloca em xeque o método do PISA? Sua vontade é que o PISA adote um novo método? A mudança seria geral ou apenas para nós e “los hermanos” ? Ou Mercadante deseja um “PISA sulamericano”, quem sabe “ajeitado” para fazer com que apareçam menores as nossas mazelas educacionais?

Até que eu veja essa questão melhor esclarecida, fico com a velha sensação de que tem gente querendo trocar o termômetro porque a febre insiste em não baixar.

Direitos autorais. Deve haver um limite.

07/06/2012

De cara, esclareço: não sou contra direitos intelectuais de propriedade. Afinal se um cara gastou tempo e “fosfato” para criar uma obra que seja – livro, artigo, escultura, pintura, filme – nada mais justo que ganhe dinheiro com isso. Afinal, isso representa trabalho e trabalho tem que se reumerado de alguma forma. E nada mais injusto que alguém ganhe dinheiro com a obra de terceiros sem a sua expressa autorização.

Às vezes vejo defensores “ardorosos” do copyleft – no Brasil são vários – que em tratam de assegurar os seus direitos autorais, p.e., sobre as suas músicas, enquanto, fazendo “blague”, defendem o “liberou geral” no que diz respeito à propriedade intelectual nas coisas dos outros. Copyright para eles, copyleft para as obras dos outros.  Toque, por exemplo, sua música e terá que pagar ao ECAD.

Mas não raro vejo os exageros.

Nesta semana postei aqui sobre um inusitado pedido de casamento feito por um jovem de nome Isaac. O pedido a Amy, a namorada, que eu usei como mote para falar de inovação foi registrado em um vídeo que estava – o verbo agora é passado – no YouTube.

O pedido de casamento foi feito “em cima” de uma música. Parentes e amigos de Isaac dublam a música, enquanto dançam ao som dela. A música era, por razões óbvias, a trilha do vídeo, seu background.

Vendo o vídeo do criativo Isaac, constatei que não conhecia a música. Usando os recursos de busca na Web, identifiquei a música e quem a gravou. Achei um vídeo – naqueles montados a partir de sequências de fotos do cantor – sobre a música.

O cantor era um desconhecido para mim. Tendo a supor que não seja “cantor de sucesso”, daqueles que “estouram a boca do balão”, alcançam os píncaros da glória no Billboard. Possivelmente se assim fosse eu teria ouvido falar dele antes, pelo menos é o que acho. Pelo que descubro, é cantor de um único álbum. Mas finalmente eu o conheci, ainda que isso vá fazer pouca diferença na minha vida, ou na dele.

No meu post, falando da inovação a partir de um pedido de casamento, inseri o vídeo. E me surpreendi quando hoje não mais pude vê-lo. O vídeo foi “tirado do ar” por razões de copyright.

Bloqueio no YouTube

Então pensei no Isaac. Pelo menos para mim – e suponho que para muitos outros – ele foi o divulgador daquela música. Se li o nome do cantor [que pode ser o autor da musica] foi por conta exclusiva de Isaac; ele me mostrou que essa música existia.

Isaac não deve ter ganho um cent sequer com aquele vídeo, com aquela música. Ao contrário, usando a música, Isaac pediu a Amy que se casasse com ele; isso é despesa na certa, que aumentará possivelmente quando o casal for abençoado com descendente(s). Então, se Isaac não auferiu vantagem financeira alguma – e pode ser que, se o casamento zebrar um dia, ele até amaldiçoe a música –  qual a razão dos detentores de direito autoral terem impedido que o vídeo continuasse sendo exibido no YouTube? Acho que eles deveriam até prestar uma homenagem ao pobre e comprometido Issac, por ter divulgado sua música. Se não fosse o apaixonado rapaz, eu e quase certamente uma multidão de outras pessoas jamais saberíamos daquela música, daquele cantor.

Pois é, aquele cantor, que era para mim um desconhecido, agora é um esquecido. Mas continuarei me lembrando de Issac, um “Romeu” moderno que inovou no pedido de casamento e usando os recursos das tecnologias digitais de informação e comunicação mostrou ao mundo seu amor por Amy.

Alguém dirá que esse post nada tem a ver com escola. Mas tem si. O uso de recursos como imagens e sons disponíveis on-line pode estar ameaçado por conta de direitos autorais quando queremos estimular nos alunos o uso da Web 2.0, como espaço para, usando sua criatividade, mostrarem o que aprenderam, serem contadores de histórias e estórias, revelarem como vêem a vida, a escola, o mundo. O uso de recursos sem qualquer benefício pecuniário por parte daquele que dele lança mão não deveria ser impedido em nome de direitos de propriedade.

Nesse momento, no Brasil, uma comissão de juristas discute uma revisão do anteprojeto do Código Penal. Falam em aumentar as penas pela violação de direito autoral e pirataria. Mas é importante que vejam um outro lado da questão. Resta esperar que os juristas e, depois, os congressitas que aprovarão a lei tenham o bom senso necessário para lidar com a questão. Se houver sensatez, todos ganharão.

Formação (des)continuada

03/06/2012

Há poucos dias, acometido por dores muito fortes nas costas, tive que recorrer na urgência a um ortopedista. Era uma quarta-feira. Ele me encaixou entre outras consultas agendadas e me atendeu. Concluído os exames, me solicitou que fizesse uma ressonância magnética e voltasse com o resultado até na sexta-feira. Tanta urgência soava como um alerta de que o meu problema podia ser sério – como na verdade se confirmou. Mas a pressa do médico era maior porque no sábado viajaria para Berlim, onde aconpanharia – como faz com regularidade – o congresso europeu de ortopedia e queria me ver antes de viajar.

Conversamos um pouco sobre esse hábito de estar em congressos. Ele alegou que é o momento de atualizar-se no que diz respeito a diagnóstico e planos terapêuticos. É o momento em que tem a chance de colocar-se “up-to-date” na sua especialidade, ainda que em muitos casos um determinado equipamento ou um novo medicamento que serão exibidos em um evento levem algum tempo para estar disponíveis no Brasil.

Ali estava um ortopedista com experiência, uma clientela consolidada – tente agendar uma primeira consulta com ele e terá que esperar uns noventa  dias – que conscientemente busca com regularidade atualizar seu saber. Ele fez a fama, mas não deitou na cama.

A, digamos, cultura da formação continuada, não apenas restrita a cursos com certificação, é forte nos profissionais de saúde. Ainda bem, para nós, seus  pacientes. Afinal, nenhum de nós ficaria satisfeito com um médico fazendo diagnóstico e propondo plano terapêutico que aprendeu na escola de medicina há 30 anos e que vem repetindo por décadas. Certamente lidaríamos, enquanto pacientes, com receio com um médico que ainda não tivesse incorporado em suas práticas os diagnósticos com base em novas tecnologias, como a ressonância magnética ou a tomografia computadorizada. Em síntese, seguramente nos sentiríamos inseguros se estivéssemos, no século XXI, sendo atendidos por médicos com práticas do século XIX ou do início do século XX. Nada mais tranquilizador para cada um de nós que saber que os profissionais de saúde que nos atendem, em especial os médicos a quem confiamos de alguma forma nossa vida, se atualizam, buscam praticar o saber mais contemporâneo na sua profissão.

Imediatamente pensei na formação continuada de professores. Já observaram como de maneira geral os professores evitam-na? A menos que seja uma formação certificada que representará alguma vantagem na sua remuneração, um adicional por um titulo ou certificado, na sua expressiva maioria os professores não querem saber de estudar para se tornarem “up-to-date”. E, na segunda década do século XXI, continuam em salas de aulas com práticas do final do século XIX, início do século XX.

Nos congressos na área de educação, para a minha tristeza, praticamente não vemos professores da Educação Básica, a não ser que sejam alunos de Mestrado ou Doutorado. Esses congressos parecem restritos a professores do ensino superior e pessoal da pós-graduação embora, de maneira geral,  estimulem, principalmente com uma taxa de inscrição menor, a presença dos professores da Educação Básica.

É verdade que nesses congressos muitas vezes os assuntos tratados se perdem na discussão teórica e pouco ou nada trazem do que possa transformar a sala de aula, contribuir para a mudança nas práticas pedagógicas. Mas, ainda assim, valeria a pena que os professores da Educação Básica ali estivessem. De alguma forma teriam a possibilidade de atualizar saberes.

Se os professores não entendem os congressos ou eventos semelhantes como mais um espaço ou momento para a sua formação continuada, ainda lhes restariam os cursos, oferecidos principalmente nas redes públicas de educação. Mas a maioria dos professores não quer fazer tais cursos. Podemos pensar que são preguiçosos, ao menos para aprender, ou que estão convencidos de que já sabem tudo que precisam para fazer seu trabalho na escola, que nada de novo há por aí que possa ajudá-lo na desafiante tarefa de formar gente. Certamente nenhuma dessas hipóteses é confortante, qualquer uma compromete, pois seria ousadia pensar que todo profissional precisa atualizar conhecimentos, exceto os professores.

Por outro lado, quando olhamos catálogos de cursos na formação continuada de professores da Educação Básica, vemos que em parte expressiva eles cuidam dos conteúdos que os professores deveriam estar ensinando, não de formas alternativas, modernas de fazê-lo. Assim, por exemplo, pretende-se ocupar um tempo da semana do professor de Matemática ensinando-lhe Matemática. Ou seja, reprisam-se conteúdos que deveriam estar “dominados” pelos professores. Ensina-se o que ele deveria ter aprendido na licenciatura, conteúdo que absolutamente em nada se alterou em séculos, milênios, para iniciar a carreira docente, para dar a sua primeira aula.

Volto agora ao meu ortopedista. Fico a imaginar se ele fosse para um congresso, na Europa, França e Bahia [era esse o título de uma coluna em um jornal da minha cidade] ou se dedicasse, nas sextas à noite e nos sábados, ainda que com todo o afinco, com a maior dedicação do mundo, a fazer cursos de formação continuada ou de atualização para estudar  – de novo – a Anatomia ou a Fisiologia que deveria ter aprendido nos primeiros anos do seu curso de Medicina. Se eu soubesse que ele anda fazendo isso, com certeza trataria de procurar imediatamente outro especialista. Seguro, morrerei de velho.

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Criatividade é tudo na vida

02/06/2012

Ontem, um vídeo sobre um pedido de casamento era assunto na conversa de um jornalista com a correspondente, em New York, da mesma emissora de televisão.

A correspondente comentou que postara o vídeo no seu Facebook e que, tocada por ele, passara a maior parte do dia cantarolando a música que ele traz como background

Chamei o Google para me ajudar a achar o Facebook daquela jornalista. Não foi difícil achar. E então fui conferir o vídeo.

O vídeo mostra uma forma criativa que um jovem, Isaac, arrumou para pedir a namorada em casamento.

Com a ajuda de amigos e parentes, Isaac acabou criando o mais inusitado pedido de casamento que eu já vi na vida.

Pedido de casamento não é novidade. Há séculos, quem sabe milênios, alguém pede para casar-se com outro alguém. Nas mais diferentes culturas, o pedido de casamento existe há muito tempo. Houve um tempo em que o pai do pretendente era quem fazia o pedido. E, sim, claro, houve – e sempre haverá – casamentos “arranjados” decididos por quem não está se casando em nome daqueles que passarão uma vida – não importa quanto ela dure – juntos, com todos os desafios que isso significa.

Apesar das diferenças de idioma, uma frase estará sempre presente nesse momento: Você quer casar comigo?

Pois Isaac conseguiu fazer desse momento simples e rotineiro um fato novo, ainda que usasse a “surrada” frase. Criatividade foi o elemento que fez a diferença.

Assim que vi o vídeo, me pus a pensar na escola. Mas não porque um dia fiz um pedido de casamento a alguém que fora minha aluna, com a qual convivi em uma escola e convivo há 26 anos, sendo 22 de casamento.

A questão era: se tivermos criatividade – e dermos asas a ela – poderemos fazer dos momentos mais simples, das coisas mais rotineiras da escola  eventos mais significativos, mais marcantes para aqueles que a frequentam. Com criatividade tocaremos as pessoas em sua sensibilidade e criaremos momentos mais gostosos, divertidos na vida cotidiana da escola.

Enquanto você pensa em como ser mais criativo na semana que vem, aproveite para dar uma olhada no vídeo do Isaac.

Eu, por meu lado, fico aqui no meu canto torcendo para que a vida de Isaac com Amy seja tão gostosa quanto foi o seu pedido de casamento.

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