Academia Khan. É esse o bom ensino?

Permaneço estupefato com o sucesso que o tal Salman Khan continua fazendo, a ponto do MEC planejar traduzir, legendar as suas aulas [vídeos] para uso em escolas públicas brasileiras, através principalmente de tablets, que o governo deve distribuir para milhares de professores de escolas públicas de Ensino Médio.

O que faz mesmo esse tal Khan? Ele grava aulas, expositivas, de vários assuntos – é o novo homem enciclopédico, um “papai sabe-tudo” – e as disponibiliza na internet. Nada cobra pelas aulas – e fico a me perguntar se alguém pagaria para assisti-las – porque é bancado por empresas e empresários. Bill Gates é um dos que apóiam financeiramente Kahn, que teria ajudado seus filhos a aprenderem coisas que a escola não dava conta de ensinar.

Claro que aquilo que a Khan Academy faz surpreende a todos quando olhado notadamente pelo lado quantitativo. São 3.300 vídeos, majoritariamente em assuntos da Matemática, que já foram vistos mais de 170 milhões de vezes – o que não signfica 170 milhões de alunos. Aliás, se fosse esse o número de alunos, seria de fazer inveja às grandes organizações que hoje comandam instituições de ensino no Brasil que oferecem educação a distância a muitos milhares de estudantes.

Há pouco tempo uma revista de grande circulação no Brasil anunciou, em sua capa, Sal Khan como o melhor professor do mundo. Isso não é pouco, convenhamos.

Eu sempre entendi – embora isso não seja consenso nacional, haja vista que aqui se improvisa professor – que ser professor demandava formação. Significa saber conteúdos – e não dá para dominar todos -, deter técnicas de ensino e aprendizagem, saber avaliar a aprendizagem dos alunos, resolver problemas, estimular a sociabilidade. Pensando bem, professor tem muito mais do que fazer do que simplesmente falar sobre um conteúdo, ainda que possa faze-lo de forma bem interessante, atrativa.

Khan fala para o mundo. Ele enche um “quadro negro digital” com imagens e palavras, enquanto fala.

A propósito, quando desenha no seu quadro-negro, usando o mouse, o resultado definitivamente não é dos melhores [clique na imagem ao lado, para ver o macaco que ele desenhou na tela da aula sobre evolução], Khan poderia usar imagens  prontas, como os nossos professores faziam com projetores de slides ou retroprojetores ou, hoje, fazem usando o Power Point; seria visualmente mais agradável.

Com sua monofonia, Khan repete a monotonia das velhas aulas.  Só não é monocrômico; usa mais de uma cor no seu quadro-negro.

Khan  coloca, no YouTube, o velho modelo de aula. A diferença é que, no caso dessa aula virtual, ele, o professor, não aparece. Aliás, seus – poucos – videos que vi me lembraram o locutor Lombardi do programa de TV do Sílvio Santos. Todo o Brasil , aos domingos, ouvia o Lombardi; mas ninguém o via.

No falar e no escrever no quadro negro  se resume o papel de professor adotado por Khan. Ele informa, não forma. E para muita gente ele revoluciona a educação, é o mais influente educador on-line de todo o mundo.

Por outro lado, temos hoje uma discussão ampla sobre a inadequação da aula que se baseia essencialmenta na fala do professor para alunos silentes e isolados, ainda que em um mesmo espaço físico. Para muitos a escola que se assenta exclusivamente nessa prática está com seus dias contados.

Temos crise na educação exatamente porque as aulas, verdadeiros monólogos docentes, são ruins. Os alunos se dispersam, não se concentram até porque os professores ainda não deram conta do ciclo de atenção dos alunos, dos diferentes estilos de aprendizagem que seus alunos têm.

Temos crise na educação porque os professores, no pular de escola em escola, em até três turnos de trabalho, na luta desesperada para garantir o mínimo para o sustento de si mesmo e da família, não têm tempo para planejar as atividades de ensino. Isso significa estabelecer objetivos para uma aula, buscar material de referência para ela, organizar formas de trabalho com os alunos. Pois é, para ser professor, a cada dia, é preciso planejamento, preparação, reflexão.

Em entrevista para a revista Time,  que o incluiu entre as 100 pessoas mais influentes do mundo, Sal Khan explicou como prepara cada uma das suas aulas em vídeo. Ele assume que não tem um script prévio, ou seja, falta o planejamento. Em suas próprias palavras, ele não sabe o que dirá metade do tempo. Khan afirma que sua rotina de preparo para as aulas se resume a buscas com o Google, o que lhe toma algo em torno de dois minutos de trabalho. Claro que nossos professores, em sua maioria, não têm sequer dois minutos para preparar cada uma de suas aulas. E talvez por isso elas sejam inadequadas, por isso vivemos crise na educação.

Achar que Khan é um grande professor é definitivamente um exagero. Ao contrário, eu diria. Khan na verdade perpetua, na internet, o professor que eu, ao menos, considero inadequado para o tempo em que vivemos. Colocar alunos em frente às telas de computadores ou tablets para ficar assistindo a velha aula expositiva a mim parece atraso. Se isso é a educação de qualidade, se isso é revolução no ensino, então definitivamente estamos voltando no tempo. É a tecnologia do futuro nos levando de volta para a sala de aula do começo do século passado. E, assim, fica a impressão de que definitivamente a educação não tem futuro, estaremos fadados a repetir sempre o passado, mesmo que incorporando uma tecnologia ou outra.

Pois não é sem razão que Karim Kai Ani, uma ex-professora de Matemática no ensino médio, alerta para algo muito importante. A experiência da Khan Academy e toda a sua repercussão acabam revelando um fato preocupante: ensino ruim na sala de aula significa “crise”, enquanto ensino ruim no YouTube é “revolução”.

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