Archive for the ‘Aprendizagem’ Category

Formação (des)continuada

03/06/2012

Há poucos dias, acometido por dores muito fortes nas costas, tive que recorrer na urgência a um ortopedista. Era uma quarta-feira. Ele me encaixou entre outras consultas agendadas e me atendeu. Concluído os exames, me solicitou que fizesse uma ressonância magnética e voltasse com o resultado até na sexta-feira. Tanta urgência soava como um alerta de que o meu problema podia ser sério – como na verdade se confirmou. Mas a pressa do médico era maior porque no sábado viajaria para Berlim, onde aconpanharia – como faz com regularidade – o congresso europeu de ortopedia e queria me ver antes de viajar.

Conversamos um pouco sobre esse hábito de estar em congressos. Ele alegou que é o momento de atualizar-se no que diz respeito a diagnóstico e planos terapêuticos. É o momento em que tem a chance de colocar-se “up-to-date” na sua especialidade, ainda que em muitos casos um determinado equipamento ou um novo medicamento que serão exibidos em um evento levem algum tempo para estar disponíveis no Brasil.

Ali estava um ortopedista com experiência, uma clientela consolidada – tente agendar uma primeira consulta com ele e terá que esperar uns noventa  dias – que conscientemente busca com regularidade atualizar seu saber. Ele fez a fama, mas não deitou na cama.

A, digamos, cultura da formação continuada, não apenas restrita a cursos com certificação, é forte nos profissionais de saúde. Ainda bem, para nós, seus  pacientes. Afinal, nenhum de nós ficaria satisfeito com um médico fazendo diagnóstico e propondo plano terapêutico que aprendeu na escola de medicina há 30 anos e que vem repetindo por décadas. Certamente lidaríamos, enquanto pacientes, com receio com um médico que ainda não tivesse incorporado em suas práticas os diagnósticos com base em novas tecnologias, como a ressonância magnética ou a tomografia computadorizada. Em síntese, seguramente nos sentiríamos inseguros se estivéssemos, no século XXI, sendo atendidos por médicos com práticas do século XIX ou do início do século XX. Nada mais tranquilizador para cada um de nós que saber que os profissionais de saúde que nos atendem, em especial os médicos a quem confiamos de alguma forma nossa vida, se atualizam, buscam praticar o saber mais contemporâneo na sua profissão.

Imediatamente pensei na formação continuada de professores. Já observaram como de maneira geral os professores evitam-na? A menos que seja uma formação certificada que representará alguma vantagem na sua remuneração, um adicional por um titulo ou certificado, na sua expressiva maioria os professores não querem saber de estudar para se tornarem “up-to-date”. E, na segunda década do século XXI, continuam em salas de aulas com práticas do final do século XIX, início do século XX.

Nos congressos na área de educação, para a minha tristeza, praticamente não vemos professores da Educação Básica, a não ser que sejam alunos de Mestrado ou Doutorado. Esses congressos parecem restritos a professores do ensino superior e pessoal da pós-graduação embora, de maneira geral,  estimulem, principalmente com uma taxa de inscrição menor, a presença dos professores da Educação Básica.

É verdade que nesses congressos muitas vezes os assuntos tratados se perdem na discussão teórica e pouco ou nada trazem do que possa transformar a sala de aula, contribuir para a mudança nas práticas pedagógicas. Mas, ainda assim, valeria a pena que os professores da Educação Básica ali estivessem. De alguma forma teriam a possibilidade de atualizar saberes.

Se os professores não entendem os congressos ou eventos semelhantes como mais um espaço ou momento para a sua formação continuada, ainda lhes restariam os cursos, oferecidos principalmente nas redes públicas de educação. Mas a maioria dos professores não quer fazer tais cursos. Podemos pensar que são preguiçosos, ao menos para aprender, ou que estão convencidos de que já sabem tudo que precisam para fazer seu trabalho na escola, que nada de novo há por aí que possa ajudá-lo na desafiante tarefa de formar gente. Certamente nenhuma dessas hipóteses é confortante, qualquer uma compromete, pois seria ousadia pensar que todo profissional precisa atualizar conhecimentos, exceto os professores.

Por outro lado, quando olhamos catálogos de cursos na formação continuada de professores da Educação Básica, vemos que em parte expressiva eles cuidam dos conteúdos que os professores deveriam estar ensinando, não de formas alternativas, modernas de fazê-lo. Assim, por exemplo, pretende-se ocupar um tempo da semana do professor de Matemática ensinando-lhe Matemática. Ou seja, reprisam-se conteúdos que deveriam estar “dominados” pelos professores. Ensina-se o que ele deveria ter aprendido na licenciatura, conteúdo que absolutamente em nada se alterou em séculos, milênios, para iniciar a carreira docente, para dar a sua primeira aula.

Volto agora ao meu ortopedista. Fico a imaginar se ele fosse para um congresso, na Europa, França e Bahia [era esse o título de uma coluna em um jornal da minha cidade] ou se dedicasse, nas sextas à noite e nos sábados, ainda que com todo o afinco, com a maior dedicação do mundo, a fazer cursos de formação continuada ou de atualização para estudar  – de novo – a Anatomia ou a Fisiologia que deveria ter aprendido nos primeiros anos do seu curso de Medicina. Se eu soubesse que ele anda fazendo isso, com certeza trataria de procurar imediatamente outro especialista. Seguro, morrerei de velho.

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Eu falo e te ensino, você me ouve e aprende. Será que é isso mesmo?

09/05/2012

Nesta semana, ao passar por uma banca de revista, tive a atenção chamada para a capa de uma revista de grande circulação nacional.

Contra um fundo azul, sobre o desenho de uma lâmpada – com seu simbolismo de ideia – estava escrito “TED – O fast-food do saber. Aprenda qualquer assunto em 18 minutos com os maiores gênios do mundo – e de graça’.

De imediato me lembrei de outra revista, também de grande circulação, que na capa de uma de suas edições de 2012 declarava Salman Kahn o melhor professor do mundo.

Khan, considerado por alguns como um professor fantástico, ainda que jamais tenha sido professor, se propõe a reinventar a educação usando vídeos.

Para os menos avisados, Ted poderia ser o nome de um outro professor, que concorreria com o “reitor” da academia Khan pelo título de melhor do mundo. Mas não é. Trata-se de um acrônimo: T de technology, E de enterteinment e D de design.

TED é um seminário criado nos Estados Unidos, em 1984, que promove palestras de pessoas em geral bastante conhecidas e depois as torna disponíveis na internet. São, hoje, 1.202 palestras disponíveis no site do TED.

Nas palestras do seminário, que não ultrapassam 18 minutos de duração, temas dos mais diversos são abordados por especialistas de peso, o que dá ao seminário considerável credibilidade.

Acreditar que simplesmente ouvir alguém, por mais profundo conhecedor que seja de um assunto, por mais “didático” e brilhante que possa ser em sua exposição, definitivamente não significa que aprende-se o que é informado.

Mas a capa de revista não é o problema.

O problema  é que são muitos os professores absolutamente convencidos de que basta falar para que seus alunos aprendam. E falam por 50, 100 minutos, alguns vários vezes por semana, ao longo do ano letivo.

Falam, em geral, para uma plateia desinteressada, aborrecida. Afinal, por ter que ouvir, silente, o professor que quer lhe informar coisas e mais coisas que estão, não raro, no livro-texto? Bastaria que fossem lidas? Ou, ainda, coisas que não têm significado algum para o aluno.

O interessante é que o TED parece atentar para os ciclos de atenção que a neurobiologia demonstra como característica do nosso cérebro. São 20 minutos no ciclo, ainda que possa vir a ser de apenas 8 mintos quando se trata de professor chato ou disciplina chata. Depois, ou o cérebro é estimulado –  e aí se reiniciará novo ciclo – ou se “desligará”.

Os professores que querem falar ininterruptamente  por 50, 100 minutos e ter  a atenção dos alunos desconhecem esse ciclo ou não não devem acreditar que ele tem sentido.

Deixo claro um ponto de vista: as aulas expositivas não precisam ser abolidas da escola. O meu convencimento é de que elas ainda têm lugar alí. Mas não tem sentido que sejam o  procedimento pedagógico hegemônico ou, pior, o único adotado pelos professores.

Aulas expositivas para introduzir assuntos ae criar o interesse dos alunos por estudá-los, aulas expositiva como síntese de assunto que foi aprendido pelos alunos devem acontecer nas escolas.

Mas, definitivamente, não tem mais sentido que professores fiquem apenas falando – e muitas vezes a informação que está nos livros que estão sobre as carteiras dos alunos ou em suas mochilas – convencidos que os alunos estão aprendendo. A prova de que isso não acontece está aí, nos resultados dos exames oficiais. Eles registram o baixo rendimento dos alunos nas provas, ainda que sejam muitas as horas que passaram ouvindo seus professores, em salas de aulas.

Ainda que no caso do TEC o “aluno” possa repetir, quantas vezes quiser, a “aula” –  coisa que não acontece na sala comum das escolas – não me convenço de que aprenderá qualquer assunto em 18 minutos. Mas, também, não aprenderá se ficar ouvindo por 45, 50 minutos um professor. A questão não é de mais tempo de escuta.

Aprendizagem exige ação, movimento. Não se dará na paralisia dos corpos silentes. Para aprender algo, é preciso incorporar a informação, transformá-la e ancorá-la [teoria de Ausubel]. Isso leva tempo. Possivelmente mais do que 18 minutos, mais até do que 50 minutos.

Uma palavra final sobre Kahn.  Ele sugere que os estudantes vejam as “vídeo-aulas”em casa e  façam a “lição de casa” na sala de aula, com o professor pronto para ajudar.

Khan não quer substituir professores. E  acredita que eles podem, ou devem, inverter o modelo tradicional da sala de aula, quando os alunos os ouvem e, depois, em casa, fazem os exercícios que deverão asegurar a aprendizagem.

O que Kahn sugere fazer com vídeos, alguns [raríssimos, claro] professores já fazem com os livros-textos. Os livros são lidos em casa e os problemas são resolvidos na escola, com apoio do professor. Os temas são objeto de discussão na sala de aula, até para tirar as dúvidas que ficaram, ao invés de constituírem a informação “inédita”.

E não é muito difícil fazer isso. Ou talvez seja, porque significa tirar o professor de sua zona de conforto. Afinal, nada mais confortável do que repetir, em ambiente de silêncio tumular, a mesma aula, por anos e anos.

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