Archive for the ‘Aula expositiva’ Category

Academia Khan. É esse o bom ensino?

25/07/2012

Permaneço estupefato com o sucesso que o tal Salman Khan continua fazendo, a ponto do MEC planejar traduzir, legendar as suas aulas [vídeos] para uso em escolas públicas brasileiras, através principalmente de tablets, que o governo deve distribuir para milhares de professores de escolas públicas de Ensino Médio.

O que faz mesmo esse tal Khan? Ele grava aulas, expositivas, de vários assuntos – é o novo homem enciclopédico, um “papai sabe-tudo” – e as disponibiliza na internet. Nada cobra pelas aulas – e fico a me perguntar se alguém pagaria para assisti-las – porque é bancado por empresas e empresários. Bill Gates é um dos que apóiam financeiramente Kahn, que teria ajudado seus filhos a aprenderem coisas que a escola não dava conta de ensinar.

Claro que aquilo que a Khan Academy faz surpreende a todos quando olhado notadamente pelo lado quantitativo. São 3.300 vídeos, majoritariamente em assuntos da Matemática, que já foram vistos mais de 170 milhões de vezes – o que não signfica 170 milhões de alunos. Aliás, se fosse esse o número de alunos, seria de fazer inveja às grandes organizações que hoje comandam instituições de ensino no Brasil que oferecem educação a distância a muitos milhares de estudantes.

Há pouco tempo uma revista de grande circulação no Brasil anunciou, em sua capa, Sal Khan como o melhor professor do mundo. Isso não é pouco, convenhamos.

Eu sempre entendi – embora isso não seja consenso nacional, haja vista que aqui se improvisa professor – que ser professor demandava formação. Significa saber conteúdos – e não dá para dominar todos -, deter técnicas de ensino e aprendizagem, saber avaliar a aprendizagem dos alunos, resolver problemas, estimular a sociabilidade. Pensando bem, professor tem muito mais do que fazer do que simplesmente falar sobre um conteúdo, ainda que possa faze-lo de forma bem interessante, atrativa.

Khan fala para o mundo. Ele enche um “quadro negro digital” com imagens e palavras, enquanto fala.

A propósito, quando desenha no seu quadro-negro, usando o mouse, o resultado definitivamente não é dos melhores [clique na imagem ao lado, para ver o macaco que ele desenhou na tela da aula sobre evolução], Khan poderia usar imagens  prontas, como os nossos professores faziam com projetores de slides ou retroprojetores ou, hoje, fazem usando o Power Point; seria visualmente mais agradável.

Com sua monofonia, Khan repete a monotonia das velhas aulas.  Só não é monocrômico; usa mais de uma cor no seu quadro-negro.

Khan  coloca, no YouTube, o velho modelo de aula. A diferença é que, no caso dessa aula virtual, ele, o professor, não aparece. Aliás, seus – poucos – videos que vi me lembraram o locutor Lombardi do programa de TV do Sílvio Santos. Todo o Brasil , aos domingos, ouvia o Lombardi; mas ninguém o via.

No falar e no escrever no quadro negro  se resume o papel de professor adotado por Khan. Ele informa, não forma. E para muita gente ele revoluciona a educação, é o mais influente educador on-line de todo o mundo.

Por outro lado, temos hoje uma discussão ampla sobre a inadequação da aula que se baseia essencialmenta na fala do professor para alunos silentes e isolados, ainda que em um mesmo espaço físico. Para muitos a escola que se assenta exclusivamente nessa prática está com seus dias contados.

Temos crise na educação exatamente porque as aulas, verdadeiros monólogos docentes, são ruins. Os alunos se dispersam, não se concentram até porque os professores ainda não deram conta do ciclo de atenção dos alunos, dos diferentes estilos de aprendizagem que seus alunos têm.

Temos crise na educação porque os professores, no pular de escola em escola, em até três turnos de trabalho, na luta desesperada para garantir o mínimo para o sustento de si mesmo e da família, não têm tempo para planejar as atividades de ensino. Isso significa estabelecer objetivos para uma aula, buscar material de referência para ela, organizar formas de trabalho com os alunos. Pois é, para ser professor, a cada dia, é preciso planejamento, preparação, reflexão.

Em entrevista para a revista Time,  que o incluiu entre as 100 pessoas mais influentes do mundo, Sal Khan explicou como prepara cada uma das suas aulas em vídeo. Ele assume que não tem um script prévio, ou seja, falta o planejamento. Em suas próprias palavras, ele não sabe o que dirá metade do tempo. Khan afirma que sua rotina de preparo para as aulas se resume a buscas com o Google, o que lhe toma algo em torno de dois minutos de trabalho. Claro que nossos professores, em sua maioria, não têm sequer dois minutos para preparar cada uma de suas aulas. E talvez por isso elas sejam inadequadas, por isso vivemos crise na educação.

Achar que Khan é um grande professor é definitivamente um exagero. Ao contrário, eu diria. Khan na verdade perpetua, na internet, o professor que eu, ao menos, considero inadequado para o tempo em que vivemos. Colocar alunos em frente às telas de computadores ou tablets para ficar assistindo a velha aula expositiva a mim parece atraso. Se isso é a educação de qualidade, se isso é revolução no ensino, então definitivamente estamos voltando no tempo. É a tecnologia do futuro nos levando de volta para a sala de aula do começo do século passado. E, assim, fica a impressão de que definitivamente a educação não tem futuro, estaremos fadados a repetir sempre o passado, mesmo que incorporando uma tecnologia ou outra.

Pois não é sem razão que Karim Kai Ani, uma ex-professora de Matemática no ensino médio, alerta para algo muito importante. A experiência da Khan Academy e toda a sua repercussão acabam revelando um fato preocupante: ensino ruim na sala de aula significa “crise”, enquanto ensino ruim no YouTube é “revolução”.

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Eu falo e te ensino, você me ouve e aprende. Será que é isso mesmo?

09/05/2012

Nesta semana, ao passar por uma banca de revista, tive a atenção chamada para a capa de uma revista de grande circulação nacional.

Contra um fundo azul, sobre o desenho de uma lâmpada – com seu simbolismo de ideia – estava escrito “TED – O fast-food do saber. Aprenda qualquer assunto em 18 minutos com os maiores gênios do mundo – e de graça’.

De imediato me lembrei de outra revista, também de grande circulação, que na capa de uma de suas edições de 2012 declarava Salman Kahn o melhor professor do mundo.

Khan, considerado por alguns como um professor fantástico, ainda que jamais tenha sido professor, se propõe a reinventar a educação usando vídeos.

Para os menos avisados, Ted poderia ser o nome de um outro professor, que concorreria com o “reitor” da academia Khan pelo título de melhor do mundo. Mas não é. Trata-se de um acrônimo: T de technology, E de enterteinment e D de design.

TED é um seminário criado nos Estados Unidos, em 1984, que promove palestras de pessoas em geral bastante conhecidas e depois as torna disponíveis na internet. São, hoje, 1.202 palestras disponíveis no site do TED.

Nas palestras do seminário, que não ultrapassam 18 minutos de duração, temas dos mais diversos são abordados por especialistas de peso, o que dá ao seminário considerável credibilidade.

Acreditar que simplesmente ouvir alguém, por mais profundo conhecedor que seja de um assunto, por mais “didático” e brilhante que possa ser em sua exposição, definitivamente não significa que aprende-se o que é informado.

Mas a capa de revista não é o problema.

O problema  é que são muitos os professores absolutamente convencidos de que basta falar para que seus alunos aprendam. E falam por 50, 100 minutos, alguns vários vezes por semana, ao longo do ano letivo.

Falam, em geral, para uma plateia desinteressada, aborrecida. Afinal, por ter que ouvir, silente, o professor que quer lhe informar coisas e mais coisas que estão, não raro, no livro-texto? Bastaria que fossem lidas? Ou, ainda, coisas que não têm significado algum para o aluno.

O interessante é que o TED parece atentar para os ciclos de atenção que a neurobiologia demonstra como característica do nosso cérebro. São 20 minutos no ciclo, ainda que possa vir a ser de apenas 8 mintos quando se trata de professor chato ou disciplina chata. Depois, ou o cérebro é estimulado –  e aí se reiniciará novo ciclo – ou se “desligará”.

Os professores que querem falar ininterruptamente  por 50, 100 minutos e ter  a atenção dos alunos desconhecem esse ciclo ou não não devem acreditar que ele tem sentido.

Deixo claro um ponto de vista: as aulas expositivas não precisam ser abolidas da escola. O meu convencimento é de que elas ainda têm lugar alí. Mas não tem sentido que sejam o  procedimento pedagógico hegemônico ou, pior, o único adotado pelos professores.

Aulas expositivas para introduzir assuntos ae criar o interesse dos alunos por estudá-los, aulas expositiva como síntese de assunto que foi aprendido pelos alunos devem acontecer nas escolas.

Mas, definitivamente, não tem mais sentido que professores fiquem apenas falando – e muitas vezes a informação que está nos livros que estão sobre as carteiras dos alunos ou em suas mochilas – convencidos que os alunos estão aprendendo. A prova de que isso não acontece está aí, nos resultados dos exames oficiais. Eles registram o baixo rendimento dos alunos nas provas, ainda que sejam muitas as horas que passaram ouvindo seus professores, em salas de aulas.

Ainda que no caso do TEC o “aluno” possa repetir, quantas vezes quiser, a “aula” –  coisa que não acontece na sala comum das escolas – não me convenço de que aprenderá qualquer assunto em 18 minutos. Mas, também, não aprenderá se ficar ouvindo por 45, 50 minutos um professor. A questão não é de mais tempo de escuta.

Aprendizagem exige ação, movimento. Não se dará na paralisia dos corpos silentes. Para aprender algo, é preciso incorporar a informação, transformá-la e ancorá-la [teoria de Ausubel]. Isso leva tempo. Possivelmente mais do que 18 minutos, mais até do que 50 minutos.

Uma palavra final sobre Kahn.  Ele sugere que os estudantes vejam as “vídeo-aulas”em casa e  façam a “lição de casa” na sala de aula, com o professor pronto para ajudar.

Khan não quer substituir professores. E  acredita que eles podem, ou devem, inverter o modelo tradicional da sala de aula, quando os alunos os ouvem e, depois, em casa, fazem os exercícios que deverão asegurar a aprendizagem.

O que Kahn sugere fazer com vídeos, alguns [raríssimos, claro] professores já fazem com os livros-textos. Os livros são lidos em casa e os problemas são resolvidos na escola, com apoio do professor. Os temas são objeto de discussão na sala de aula, até para tirar as dúvidas que ficaram, ao invés de constituírem a informação “inédita”.

E não é muito difícil fazer isso. Ou talvez seja, porque significa tirar o professor de sua zona de conforto. Afinal, nada mais confortável do que repetir, em ambiente de silêncio tumular, a mesma aula, por anos e anos.

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