Archive for the ‘bullying’ Category

O cyberbullying como tema de aula na pós-graduação

10/12/2010

Cyberbullying foi o tema na minha aula de ontem, última, na disciplina Educação, Sociedade e Tecnologia, para alunos do Mestrado em Educação da PUC Minas. A proposta foi discutir o papel que pode caber à escola e, em especial, aos professores nesse problema que aflige a muitos. Como dissemos, nos parece essencial uma “educação para a internet” que previna o cyberbullying. A prevenção pode evitar a repreensão. Quando eu era garoto, e o anglicismo ainda não dominava o Brasil, na escola havia a zoação. “Quatro ôio”, baleia, lombriga eram expressões usadas para designar alguns alunos nas escolas. A idéia era a da brincadeira e, a não ser que saísse uma briga por causa dos “títulos”, não havia muito problema. Ainda que alguns alunos tenham levado pela vida toda apelidos que ganharam, a zoação era uma questão restrita à escola, confinada em seus muros. Mais recentemente, por conta em especial da internet, a zoação, o bullying, foi para muito além dos muros da escola. As agressões verbais, os xingamentos se tornaram acessíveis a muitos. Nascia o cyberbullying. E ele se torna realidade também no Brasil, ainda que não na intensidade com que ocorre nos Estados Unidos, por exemplo. De repente, a escola, que na maioria das vezes tratava o bullying como uma brincadeira e só tomava atitudes quando ele provocava agressões físicas entre alunos, se vê com um novo problema, bem maior. Pelo fato do cyberbullying ser um problema que afeta a escola, que envolve tecnologias digitais e, em maior ou menor grau, se torna uma questão para a sociedade, decidi abordar esse tema, pela primeira vez, nessa minha disciplina.

Foi bastante interessante ouvir os relatos dos alunos e alunas sobre as experiências com bullying que, de alguma forma, vivenciaram, seja enquanto estudantes, quase todos, seja no exercício da função docente, todos. Meus alunos e alunas de maneira geral não foram vítimas de cyberbullying. Ainda que vez ou outra apareçam comunidades virtuais de alunos que odeiam o professor X ou a professora Y, nenhum deles se viu envolvido nisso. Mas, como educadores, têm responsabilidade junto a seus próprios alunos. Na aula adotei uma dinâmica que considerei interessante. Abri o tema, tomando algumas expressões que se usavam nas zoações. Em seguida, solicitei a eles que buscassem conceitos de bullying e cyberbullying da internet. Cada um, com seu notebook ou netbook, numa sala onde tenho acesso sem fio à internet, alguns alunos usando a cesso 3G, foi buscar os conceitos, usando search engines. A tarefa seguinte exigiu que cada uma postasse, no Twitter da disciplina [o acesso a esse Twitter é restrito ao pessoal da disciplina], seus próprios conceitos. A jogada era obrigá-los a serem concisos, já que havia a limitação dos 140 caracteres e avisei que o “internetês” não seria permitido. Afinal, seria uma “malandragem”. Depois recomendei que vissem alguns vídeos, disponíveis principalmente no YouTube, que havia selecionado. Cada aluno ou aluna, usando um fone de ouvido para não perturbar os demais, assistiu os vídeos. A eles foi solicitado que tirassem, de quase todos os vídeos, um destaque e “tuitassem” sobre ele. Também indiquei uma reportagem sobre cyberbullying e uma pesquisa sobre hábitos de jovens brasileiros na internet e ainda recomendei uma visita a um site que trata do tema. Para encerrar, uma tarefa. Cada aluno ou aluna deverá criar, no Animoto, um vídeo sobre cyberbullying. Na medida em que os vídeos estiverem prontos, seus links serão divulgados aqui no blog. Em síntese, foi uma aula com um tema contemporâneo, na qual search engines, como o Google, foram utilizadas, juntamente com vídeos on-line e o Twitter, culminando com a criação de um vídeo. Um tema provocador e a mobilização de vários recursos da tecnologia digital podem constituir em um bom ingrediente para uma aula. Pelo menos essa era a expectativa. Listo, a seguir, os vídeos que recomendei na tarefa. Eles podem ser úteis a um professor que queira trazer, para as salas de aula, para o debate com seus alunos, os temas do bullying e de sua “versão digital”, o cyberbullying. [1] Bullying [2] Not cool [3] Bullying. Por quê? [4] Reportagem sobre cyberbullying

Anúncios

Vergonha!

08/11/2009

Graças aos telefones celulares e o YouTube foi possível ficar sabendo de um lamentável episódio ocorrido, no último dia 22 de outubro, em uma unidade da UNIBAN em Santo André. Uma aluna do curso de Turismo teria “provocado” cenas de selvageria por estar usando “trajes inadequados”. Esse seria o entendimento ao final de uma sindicância levada a cabo na instituição. No vídeo não se vê esse traje que não deveria estar em um campus. O que se vê são cenas explícitas de selvageria. A cena que mais chama a atenção é a saída da aluna, escoltada pela polícia, aos gritos de puta. Quem grita? Seus colegas, universitários, alunos de curso superior, gente adulta. Em sua coluna no jornal Folha de São Paulo na última sexta-feira, Fernando Gabeira comentou a reação de um dos alunos dessa universidade. Em fúria, o aluno teria dito que não queria ter essa mancha em seu diploma. Mas não ficou claro o que seria a mancha em um diploma emitido pela UNIBAN. Seria a de ter aluna que vai às aulas usando um vestido que deixa à mostra uma parte generosa de suas pernas? Ou seria a selvageria de alunos, colegas da “loira de pernas de fora” e do aluno furioso? Não consegui saber, permaneço em dúvida. Hoje me surpreendo ao saber, por jornal e rádio, que a aluna, vítima de um episódio que será sempre lembrado e comentado, acabou sendo expulsa da UNIBAN. O motivo da expulsão? Ela teria faltado com respeito à dignidade acadêmica e à moralidade. Não teria sido ética. É para rir ou para chorar? E os alunos que abandonaram as salas de aula para gritar o coro que marcou o episódio? Permanecem alunos, claro. Porque, mais do que alunos, são pagadores. Pagam por aulas que abandonam para agredir colegas. Mas isso não é problema se pagam em dia. Depois, façam o que quiserem, inclusive atos condenáveis como violentar moralmente uma aluna da mesma instituição, uma colega. Oos alunos ainda mereceram o  reconhecimento da UNIBAN. Segundo a sindicância, aqueles atos – que aos olhos de qualquer pessoa decente não passam de exemplos da mais pura barbárie – nada mais foram do que uma “reação coletiva de defesa do ambiente escolar”.  Ou seja, adotaram o “estupro moral” para garantir a sua escola, a educação que ali recebem. Recomendo à UNIBAN  um  desconto nas próximas mensalidades dessa turba  – que, mais do que pelas pernas de fora, se excitou pela própria fúria – como prêmio por essa defesa intransigente de valores que, imagino,  devam ser os praticados naquela instituição. Premiem a intolerância, a selvageria, o bullying. E façam escola. O educandário – era assim que se falava há alguns tempos atrás de qualquer escola – escolheu expulsar a vítima, aquela que se viu reconhecida de repente, por suas própria palavras, como sendo  “a puta do YouTube”. O que me possível concluir é que, nessa instituição, agredir moralmente uma colega seria ato compatível com a dignidade da vida acadêmica. Violentar a moral de uma colega não fere o decoro universitário. Cometer uma violência emocional não constitui infração disciplinar. Ou se for, é coisa leve, que se paga com alguns poucos dias de suspensão. Não sei se o aluno furioso, do qual Fernando Gabeira fala, decidiu agora por se envergonhar do diploma que certamente obterá um dia. Mas o motivo para a vergonha não pode estar, certamente, em ser colega de Geisy Arruda, a vítima e culpada, segundo a UNIBAN, de um dos mais deprimentes episódios de selvageria que assisti, graças a celulares e o YouTube, nos últimos tempos. A única coisa que me alivia é que não corro risco algum de ter um filho matriculado nessa universidade, que protege arruaceiros e pune vítima. Para a UNIBAN, Geisy deve ser tão culpada quanto a vítima de estupro que teria provocado o agressor. É, tem gente que pensa assim: as mulheres são sempre culpadas pelos crimes que homens praticam contra elas. Para a UNIBAN os “estupradores emocionais”, os “violentadores da honra” podem continuar frequentando o campus. A novidade estaria apenas em uma frase para a nossa tradicional coleção: “Estupra, mas paga.” Mas não se trata de pagar pelo ato insano. O que importa é pagar mensalidade. Pois é com isso que essa universidade se importa.