Archive for the ‘currículo’ Category

Novos tempos sempre exigirão revisões em práticas tradicionais da escola?

04/03/2017

showandtellShow and tell” (algo como mostre e fale) é uma prática tradicional na educação primária em escolas nos Estados Unidos e outros países de língua inglesa, sendo também utilizada em outros segmentos da educação.

A proposta pedagógica da atividade, elaborada na perspectiva de uma aprendizagem ativa, é a de permitir que os alunos  aprendam a falar em público.

Na atividade, o estudante traz de casa um objeto e diz para os colegas porque o escolheu particularmente, como o conseguiu e outras coisas interessantes sobre ele.

Para os que levam a sério o famoso dito “Diga-me e eu esqueço; mostre-me e eu me lembro; envolva-me e eu entendo”. a prática do “Show and Tell” deveria ser ampliada. Em um novo design ela passaria a ser “Show me, Tell me and Involve me“. Questões do tipo “O que você achou disto?” e “Como você usaria isto?” seriam dirigidas à platéia (outros alunos) de modo a envolvê-los mais diretamente.

Esse tipo de atividade ainda é utilizado em uma escola que se depara com a invasão dos dispositivos móveis, especialmente os smartphones.

Há quem considere que seria  o momento de pensar uma nova estratégia para o “Show and Tell”, adaptando-a para o contexto das mensagens de texto. Assim, passaríamos a ter nas salas de aula o “Show and Text”.

showtext

Deveremos sempre adaptar as práticas para este (novo) contexto de tecnologias digitais? Ou deveremos manter velhas práticas, analógicas, lado a lado com as práticas que incorporam as tecnologias digitais?

Você, o que acha?

Fontes das imagens:
static.wixstatic.com/media/6134b8_e62ef756f29c423e951dbf4d364800d5.jpg
http://www.facebook.com/bizarrocomics

 

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Professores no Brasil – desafinos e desafios

04/08/2013

Em um encontro recente com aproximadamente mil secretários municipais de educação, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, arrancou aplausos ao afirmar que “Não dá para formar um professor só lendo Piaget.”

Formação de professores no Brasil é coisa séria, como qualquer questão relacionada à educação.

Formação de professores no Brasil é coisa preocupante, como qualquer questão relacionada à educação nacional.

O distanciamento entre a formação e a realidade da escola brasileira é gritante. Não porque não se requeiram estudos teóricos, incluindo as teorias de Jean Piaget. Mas em geral se esquece de ensinar como se leva alguém a aprender. Teorias são essenciais, mas jamais serão suficientes para preparar qualquer professor para qualquer realidade de escola, ainda mais as nossas públicas com suas carências cantadas e decantadas.

Hoje a Folha de São Paulo trouxe um caderno especial que merece ser visto por professores e por professores que formam professores. O título do caderno especial é “Quem educa os educadores?”.

O caderno é acompanhado de matérias que mostram a formação vem sendo feita com muita teoria e pouca prática. E, pior, a formação fica muito distante da realidade da escola. Depois, quando o novo professor chega a essa escola, o susto, o sentimento de despreparo e muitas vezes o abandono da função.

Essa constatação do distanciamento do que de ensina na formação inicial de professores e a realidade da escola me lembra duma pesquisa, que realizei com apoio do CNPq e concluída há quase 10 anos, sobre uso de tecnologias digitais na formação inicial de professores. Dos professores de licenciaturas que participaram dessa pesquisa, apenas 26,9% disseram que a maioria das licenciaturas conhece a realidade da escola da Educação Básica no Brasil. Para quase metade deles (42,9%) essa realidade é desconhecida nas licenciaturas. Ou seja, muitas licenciaturas formam para uma escola que não existe, que pode estar apenas no imaginário – ou no desejo – de seus docentes.

Os aspectos apontados nas matérias e no Caderno Especial do jornal Folha de São Paulo reforçam os achados de uma pesquisa conduzida pela professora Bernardette Gatti e publicados, em 2009, pela UNESCO, no documento “Professores do Brasil: impasses e desafios“.

O que se pode concluir é que pouca ou nada se alterou no quadro da formação (inicial) de professores. Possivelmente de novo apenas os dados que revelam a redução – que se acelera  – na relação candidato/vaga nos exames de ingresso para cursos que formam professores, seja em instituições públicas, seja em particulares e confessionais, o esvaziamento progressivo das salas de aulas das licenciaturas e o abandono da função docente a falta – que se acentua – de professores para nossas escolas da Educação Básica.

Piso salarial baixo, ainda que muitos governantes o achem elevado e busquem não o pagar, condições de trabalho muitas vezes degradadas, risco à integridade física são alguns elementos que tiram professores da escola e que fazem esvaziar a fila dos que querem ingressar em uma licenciatura. A continuar assim, o problema do Brasil não será como formar professores, mas a quem formar.

Escola e inovações

22/07/2013

Enillton Ferreira Rocha, no grupo “EaD, além da pedagogia e da euforia”, no Facebook, instiga o pensar ao afirmar: “Incrível como a compreensão da inovação pedagógica, na maioria dos modelos que conheço, ainda não saiu do entorno das tecnologias educacionais… Estaríamos olhando a inovação pedagógica apenas como resultado do avanço tecnológico?“.

Quando olhamos as formas de utilização das tecnologias digitais da informação e comunicação [TDIC] na educação dita presencial e mesmo na EaD, na modalidade on-line, a não ser que sejamos extremamente complacentes, não veremos sequer a inovação pedagógica.

O que vemos, ainda que vendidas na embalagem da (pós)modernidade, são as velhas práticas, agora assentadas em novas tecnologias. É a inovação conservadora da qual tratou muito bem o Paulo Gileno.

A inovação tecnológica é elemento a ser levado em conta na escola, mas não será o determinante da inovação pedagógica. A inovação pedagógica tem razão de ser na melhoria das propostas de formação, envolvam ou não inovações de base tecnológica.

Aquele que consegue vislumbrar inovações pedagógicas poderá entender como (bem) incorporar – curricularmente – as inovações tecnológicas. Aquele que vê as inovações tecnológicas necessariamente não vislumbrará, a partir delas, as inovações pedagógicas.

O pensamento que deve se modificar inicialmente é o que dá sentido à ação pedagógica. O que deve mobilizar inicialmente o educador é a convicção da necessidade da inovação pedagógica. A partir daí a inovação tecnológica se ajustará, naturalmente, naquilo que couber. Até porque haverá momento e circunstância nos quais ela não caberá.

Depois do incêndio, a pirotecnia

30/08/2012

Em outro post, comentei sobre a pressa com a qual o Ministro da Educação, Aloizio Mercadante, veio a público dar explicações e apresentar soluções para o problema revelado pelo IDEB 2011: o Ensino Médio estancou e, em alguns estados, conseguiu a proeza de ser ainda pior do que era.

Uma das propostas do Ministro é a aglutinação dos conteúdos das disciplinas em “áreas do conhecimento”, similares – se não idênticas – às propostas nos PCN – Matemática e suas tecnologias; Linguagens, códigos e suas tecnologias; Ciências da Natureza e suas tecnologias; Ciências Humanas e suas tecnologias – e “balizadoras” do ENEM a partir de 20124. Como o Ministro pretende – ou ao menos pretendia – substituir a Prova Brasil pelo ENEM no cálculo do IDEB teria tudo a ver. De alguma forma as disciplinas se extinguem e seus conteúdos se aglutinam em novas disciplinas, não importa que nome venham a dar à “coisa”.

Sou daqueles que detestam as soluções fáceis. Não porque prefira as difíceis. A questão é: “Se a solução é fácil, por que não foi pensada antes?”.  O jornalista e crítico social estadunidense Henry Louis Mencken, conhecido simplesmente como H. L. Mencken deixou-nos um alerta: “Para todo problema complexo, existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada“.

Como imagino que o Ministro não deve querer que especialmente as redes públicas estaduais, as maiores responsáveis pela oferta do Ensino Médio, afastem seus atuais professores das salas de aula, bem como as escolas da rede particular,  uma dúvida se oferece: Quem assumirá as aulas de, digamos, Ciências da Natureza e suas tecnologias? Será o professor de Biologia? O de Física ou o de Química? Sim, porque cada uma tem sua formação específica, não só nos conteúdos, mas nas práticas de ensino desse conteúdo, formação forjada ao longo de quatro anos de estudos em uma licenciatura. Ou todos assumirão tudo, mesclando conteúdos que não sabem de forma suficiente como aquele que, ao menos em tese, domina, verdadeiros professores polivalentes? Se, como dizem, o especialista é aquele que sabe cada vez mais de cada vez menos, até que um dia saberá tudo de nada, o professor generalista pode ser aquele que sabe nada de tudo.

No seu afã de dar respostas imediatas, Mercadante se esqueceu desse pequeno detalhe. Professor de Biologia não foi preparado para dar aula de Física, nem os licenciados nessa ciência devem saber o suficiente para ensinar Citologia, Histologia, Genética, Botânica, Zoologia e os demais conteúdos que formam o corpo da disciplina Biologia. Até porque a formação do profissional de ensino exige a construção de saberes sobre o que eu chamaria de “pedagogia dos conteúdos”.

O professor necessário nessa proposta do “fim das disciplinas” não existe e possivelmente nem será formado. Ou o Ministro teria que combinar com as universidades as novas licenciaturas, por áreas de saberes conforme os PCN. Só que com um problema a mais: as salas de aulas das licenciaturas, conforme hoje desenhadas, estão cada vez mais esvaziadas, correndo o risco de em breve estarem às moscas.

E não me venham com a saída da formação continuada. Os professores hoje fogem delas e não será com poucas horas que professores especialistas, das universidades, formarão os professores polivalentes para o novo Ensino Médio.

Que o Ensino Médio precisa , urgentemente, de uma reforma não haverá quem negue. Mas temos que tomar cuidado para que as reformas não venham no açodamento, aumentando os problemas desse segmento da educação ao invés de minorá-los. Alguns começam a chiar contra essa reforma a toque de passos. Que o MEC dê ouvidos a eles também, porque, afinal, o que todo o país quer é educação de qualidade, sabendo que muitos esforços devem ser mobilizados para isso e que o processo demandará um tempo, certamente maior do que o mandato de um ministrou ou um secretário. Façamos o que for necessário, mas não a pirotecnia, no rescaldo do incêndio.

 

Wordle do post: