Archive for the ‘Docência’ Category

Professores no Brasil – desafinos e desafios

04/08/2013

Em um encontro recente com aproximadamente mil secretários municipais de educação, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, arrancou aplausos ao afirmar que “Não dá para formar um professor só lendo Piaget.”

Formação de professores no Brasil é coisa séria, como qualquer questão relacionada à educação.

Formação de professores no Brasil é coisa preocupante, como qualquer questão relacionada à educação nacional.

O distanciamento entre a formação e a realidade da escola brasileira é gritante. Não porque não se requeiram estudos teóricos, incluindo as teorias de Jean Piaget. Mas em geral se esquece de ensinar como se leva alguém a aprender. Teorias são essenciais, mas jamais serão suficientes para preparar qualquer professor para qualquer realidade de escola, ainda mais as nossas públicas com suas carências cantadas e decantadas.

Hoje a Folha de São Paulo trouxe um caderno especial que merece ser visto por professores e por professores que formam professores. O título do caderno especial é “Quem educa os educadores?”.

O caderno é acompanhado de matérias que mostram a formação vem sendo feita com muita teoria e pouca prática. E, pior, a formação fica muito distante da realidade da escola. Depois, quando o novo professor chega a essa escola, o susto, o sentimento de despreparo e muitas vezes o abandono da função.

Essa constatação do distanciamento do que de ensina na formação inicial de professores e a realidade da escola me lembra duma pesquisa, que realizei com apoio do CNPq e concluída há quase 10 anos, sobre uso de tecnologias digitais na formação inicial de professores. Dos professores de licenciaturas que participaram dessa pesquisa, apenas 26,9% disseram que a maioria das licenciaturas conhece a realidade da escola da Educação Básica no Brasil. Para quase metade deles (42,9%) essa realidade é desconhecida nas licenciaturas. Ou seja, muitas licenciaturas formam para uma escola que não existe, que pode estar apenas no imaginário – ou no desejo – de seus docentes.

Os aspectos apontados nas matérias e no Caderno Especial do jornal Folha de São Paulo reforçam os achados de uma pesquisa conduzida pela professora Bernardette Gatti e publicados, em 2009, pela UNESCO, no documento “Professores do Brasil: impasses e desafios“.

O que se pode concluir é que pouca ou nada se alterou no quadro da formação (inicial) de professores. Possivelmente de novo apenas os dados que revelam a redução – que se acelera  – na relação candidato/vaga nos exames de ingresso para cursos que formam professores, seja em instituições públicas, seja em particulares e confessionais, o esvaziamento progressivo das salas de aulas das licenciaturas e o abandono da função docente a falta – que se acentua – de professores para nossas escolas da Educação Básica.

Piso salarial baixo, ainda que muitos governantes o achem elevado e busquem não o pagar, condições de trabalho muitas vezes degradadas, risco à integridade física são alguns elementos que tiram professores da escola e que fazem esvaziar a fila dos que querem ingressar em uma licenciatura. A continuar assim, o problema do Brasil não será como formar professores, mas a quem formar.

Formação (des)continuada

03/06/2012

Há poucos dias, acometido por dores muito fortes nas costas, tive que recorrer na urgência a um ortopedista. Era uma quarta-feira. Ele me encaixou entre outras consultas agendadas e me atendeu. Concluído os exames, me solicitou que fizesse uma ressonância magnética e voltasse com o resultado até na sexta-feira. Tanta urgência soava como um alerta de que o meu problema podia ser sério – como na verdade se confirmou. Mas a pressa do médico era maior porque no sábado viajaria para Berlim, onde aconpanharia – como faz com regularidade – o congresso europeu de ortopedia e queria me ver antes de viajar.

Conversamos um pouco sobre esse hábito de estar em congressos. Ele alegou que é o momento de atualizar-se no que diz respeito a diagnóstico e planos terapêuticos. É o momento em que tem a chance de colocar-se “up-to-date” na sua especialidade, ainda que em muitos casos um determinado equipamento ou um novo medicamento que serão exibidos em um evento levem algum tempo para estar disponíveis no Brasil.

Ali estava um ortopedista com experiência, uma clientela consolidada – tente agendar uma primeira consulta com ele e terá que esperar uns noventa  dias – que conscientemente busca com regularidade atualizar seu saber. Ele fez a fama, mas não deitou na cama.

A, digamos, cultura da formação continuada, não apenas restrita a cursos com certificação, é forte nos profissionais de saúde. Ainda bem, para nós, seus  pacientes. Afinal, nenhum de nós ficaria satisfeito com um médico fazendo diagnóstico e propondo plano terapêutico que aprendeu na escola de medicina há 30 anos e que vem repetindo por décadas. Certamente lidaríamos, enquanto pacientes, com receio com um médico que ainda não tivesse incorporado em suas práticas os diagnósticos com base em novas tecnologias, como a ressonância magnética ou a tomografia computadorizada. Em síntese, seguramente nos sentiríamos inseguros se estivéssemos, no século XXI, sendo atendidos por médicos com práticas do século XIX ou do início do século XX. Nada mais tranquilizador para cada um de nós que saber que os profissionais de saúde que nos atendem, em especial os médicos a quem confiamos de alguma forma nossa vida, se atualizam, buscam praticar o saber mais contemporâneo na sua profissão.

Imediatamente pensei na formação continuada de professores. Já observaram como de maneira geral os professores evitam-na? A menos que seja uma formação certificada que representará alguma vantagem na sua remuneração, um adicional por um titulo ou certificado, na sua expressiva maioria os professores não querem saber de estudar para se tornarem “up-to-date”. E, na segunda década do século XXI, continuam em salas de aulas com práticas do final do século XIX, início do século XX.

Nos congressos na área de educação, para a minha tristeza, praticamente não vemos professores da Educação Básica, a não ser que sejam alunos de Mestrado ou Doutorado. Esses congressos parecem restritos a professores do ensino superior e pessoal da pós-graduação embora, de maneira geral,  estimulem, principalmente com uma taxa de inscrição menor, a presença dos professores da Educação Básica.

É verdade que nesses congressos muitas vezes os assuntos tratados se perdem na discussão teórica e pouco ou nada trazem do que possa transformar a sala de aula, contribuir para a mudança nas práticas pedagógicas. Mas, ainda assim, valeria a pena que os professores da Educação Básica ali estivessem. De alguma forma teriam a possibilidade de atualizar saberes.

Se os professores não entendem os congressos ou eventos semelhantes como mais um espaço ou momento para a sua formação continuada, ainda lhes restariam os cursos, oferecidos principalmente nas redes públicas de educação. Mas a maioria dos professores não quer fazer tais cursos. Podemos pensar que são preguiçosos, ao menos para aprender, ou que estão convencidos de que já sabem tudo que precisam para fazer seu trabalho na escola, que nada de novo há por aí que possa ajudá-lo na desafiante tarefa de formar gente. Certamente nenhuma dessas hipóteses é confortante, qualquer uma compromete, pois seria ousadia pensar que todo profissional precisa atualizar conhecimentos, exceto os professores.

Por outro lado, quando olhamos catálogos de cursos na formação continuada de professores da Educação Básica, vemos que em parte expressiva eles cuidam dos conteúdos que os professores deveriam estar ensinando, não de formas alternativas, modernas de fazê-lo. Assim, por exemplo, pretende-se ocupar um tempo da semana do professor de Matemática ensinando-lhe Matemática. Ou seja, reprisam-se conteúdos que deveriam estar “dominados” pelos professores. Ensina-se o que ele deveria ter aprendido na licenciatura, conteúdo que absolutamente em nada se alterou em séculos, milênios, para iniciar a carreira docente, para dar a sua primeira aula.

Volto agora ao meu ortopedista. Fico a imaginar se ele fosse para um congresso, na Europa, França e Bahia [era esse o título de uma coluna em um jornal da minha cidade] ou se dedicasse, nas sextas à noite e nos sábados, ainda que com todo o afinco, com a maior dedicação do mundo, a fazer cursos de formação continuada ou de atualização para estudar  – de novo – a Anatomia ou a Fisiologia que deveria ter aprendido nos primeiros anos do seu curso de Medicina. Se eu soubesse que ele anda fazendo isso, com certeza trataria de procurar imediatamente outro especialista. Seguro, morrerei de velho.

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Formação de professores e Habilidades no Século XXI

07/03/2011

Sempre falamos dos novos desafios para que a escola da Educação Básica forme sujeitos capazes de se tornarem de fato cidadãos dos novos século e milênio. Desafios que professores e gestores da Educação Básica já precisam enfrentar para formar sujeitos capazes de se inserirem economicamente em uma nova sociedade, impregnada de tecnologias digitais, que demanda novas formas de aprender, de trabalhar, de se relacionar.

Mas nem sempre nos lembramos que tais desafios são também da escola que forma professores.

Nós, inseridos na escola que são as licenciaturas e a fazendo cotidianamente, proclamamos desafios para a escola  lá de fora enquanto esquecemos que eles são também nossos. Continuamos formando do mesmo jeito de sempre professores para uma escola cujo fim preconizamos, uma escola cuja obsolescência permanentemente denunciamos em nossas falas e nossos escritos.

Como querer que a escola lá de fora mude, se não formamos sujeitos, professores, capazes de serem agentes de mudança na educação?

Criticamos a mesmice das outras escola e, afinal, fazemos tudo para perpetuá-la exatamente porque formamos professores na/para a escola de ontem.

Assim, incapazes da crítica ao nosso próprio mal fazer ou não fazer, ao mesmo tempo que críticos do mal fazer ou do não fazer das outras escolas, acabamos fazendo na escola que é a licenciatura tudo para que aquelas escolas continuem a ser como são, inclusive alvos de nossa crítica permanente.

Quem sabe um dia eu arrumo tempo e legendo este vídeo e, assim, poderemos levar sua mensagem a mais gente?

Ociosidade nas vagas em licenciaturas e Pedagogia. Nada para surpreender.

19/01/2010

sala de aulaEm matéria publicada hoje, a Folha de S. Paulo destaca o fato de que 6% das vagas oferecidas no 1o ano das licenciaturas e cursos de Pedagogia não são ocupadas aqui no Brasil. Para os demais cursos, esse percentual recua para 3,5%. Ao mesmo tempo, a realidade do país mostra a carência de professores adequados, efetivamente preparados para o exercício do magistério. 
Quem
freqüenta salas de aulas de algumas licenciatura ou de curso de Pedagogia, quase nunca cheias, sabe que muitos alunos ali estão apenas para obterem um diploma de curso superior e seguirem em uma atividade profissional que não seja o magistério. Baixa concorrência, quantitativa e qualitativa, nos vestibulares para esses cursos criam um atalho para aquele que quer apenas obter um diploma de ensino superior.
Por isso, oferecer bolsa de estudo para que alguém possa se preparar para ser professor, como sugere João Cardoso Palma Filho, pesquisador da Unesp e membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, em outra matéria da Folha, seria dispender ainda mais dinheiro sem resolver a crônica falta de professores, problema que – não é necessário ser futurólogo para antecipar – tende a se ampliar.
Convenhamos que não se pode culpar os jovens por não quererem ser professores aqui na Terra Brasilis. E não será uma bolsa que haverá de comprá-los na sua vontade de buscarem profissões que possam garantir rendimentos significativos e reconhecimento social. Ao contrário, corre-se o risco de pagar-se a bolsa por até 4 anos e, com o canudo debaixo do braço, o ex-licenciando evitar salas de aula e dedicar-se a outra profissão na qual poderá ter mais rendimentos com enorme probabilidade de não se submeter a mais riscos do que um cidadão comum.
A realidade da vida do professor da Educação Básica, notadamente em escolas públicas,
não exerce qualquer atrativo para os jovens que concluem o Ensino Médio. Quando meu filho concluia o Ensino Médio, agora em 2009, perguntei-lhe quantos dos pouco mais de 300 colegas de escola pretendiam ser professor. Ele buscou saber e me deu a resposta: nenhum. Querem ser alunos de cursos prestigiados, com certeza.
A titular da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação, Maria Paula Dallari Bucci, reconhece que a atual – mendigandoe eu diria aparentemente irreversível – desvalorização da carreira docente interfere na sobra de vagas. Mas, afirma, o quadro deverá melhorar com medidas como o piso salarial do professor – que em 2010 passa a ser pouco mais de R$ 1 mil – e a lei que permite ao aluno de universidade particular ter o curso pago pelo Estado em troca de trabalho em escolas públicas depois da formatura. Essa é uma questão que devo comentar em novo blog porque fico sem compreender como alocarão esses egressos nas escolas sem o concurso público. Correrão eles o risco de serem, até a aposentadoria, o que aqui em Minas Gerais é o professor designado, sujeito atarefado e de futuro incerto?
Para a Secretária de Educação Superior a ociosidade de vagas deverá reduzir-se com a unificação do vestibular de diversas federais, o que acontecerá a partir de fevereiro. Respeito a opinião da Secretária, mas não consigo enxergar essa pretensa relação de causalidade.
Mesmo quanto ao piso salarial, que desde sua implantação encontra resistência de muitos governantes, que talvez pudesse de fato tornar atrativa a carreira docente, tenho minhas dúvidas.
contrachequeVejo o piso salarial
nacional do magistério, criado pela Lei 11.738, como algo importante, mas não suficiente para mudar a realidade do interesse pela função docente. Não creio que apenas pagar mais aos professores garanta qualidade na educação. Pode até ser. Mas vejo a educação, e principalmente sua qualidade, dependendo de muito mais coisas. Por exemplo, o professor de repente não terá mais cultura apenas porque seu contracheque veio com valores maiores. E, no Brasil, o baixo índice cultura de professores é gritante. Vindos de famílias de classes econômicas mais baixas em sua maioria, trazem para as escolas pouca bagagem cultural; não vão a teatros, cinemas, lêem pouco.
O piso salarial do magistério passou, em janeiro de 2010, a ser de R$1.024,67, conforme interpretação da Advocacia-Geral da União (AGU) para uma jornada semanal de 40 horas.
Se olharmos bem, o atual piso tem, na verdade, um valor bem próximo ao que ganha uma empregada doméstica, muitas
vezes analfabeta, em casas de família de classe média, ao menos nas regiões Sul e Sudeste e no DF. São apenas R$4,37 a mais do que dois salários mínimos vigentes.
A violência contra professores em escolas, revelada em pesquisas como uma realizada pela UNESCO, torna-se motivo para não querer ser professor ou para o professor fugir da escola. Sim, hoje são os professores que fogem da escola, ameaçados em sua integridade física, geralmente vítimas constantes de agressões verbais.
Não só pelo por tudo isso não é de estranhar que hoje em dia busquem os bancos das salas de aulas das licenciaturas e dos cursos de Pedagogia aqueles que não conseguiram aprovação no vestibular de outros cursos.
O problema do Brasil, como se revela freqüentemente, não é falta de vagas nas licenciaturas.
É falta de vontade – justificada, eu ousaria dizer – de alguém se tornar professor.
Nossas autoridades parecem fechar os olhos para essa realidade. Talvez o façam por poderem estimar q
uanto custaria mudar esse estado de coisas. E saem oferecendo cada vez mais vagas para formar professores, agora através da EaD.
A única coisa que conseguiremos com essa política é aumentar a ociosidade das vagas. E, claro, como sempre só não vê isso
quem não quer.

As imagens, meramente ilustrativas, são dos blogs Na estradaA Alternativa