Archive for the ‘Escola pública’ Category

Panóptico na escola

31/10/2012

Há algum tempo comentei – em outro dos meus blogs – sobre a notícia do uso de chips em uniformes escolares para registrar a presença de alunos.

Agora uma turma de uma escola pública do Distrito Federal participa de testes do controle eletrônico de frequência. Um chip “dedo-duro”, instalado no uniforme, avisará os professores, diretores e os pais se os alunos entrarem na escola a tempo da aula, se se atrasarem para estar ali, se saíram antes do que era previsto ou se cabularem [será que alguém, além de mim,  ainda usa esse verbo?] as aulas.

Assim, todos, no que seria a concretização no espaço educacional do panóptico imaginado por Jeremy Bentham e tratado por Foucault, saberão quem está na escola, ainda que dependam de outras tecnologias, como o telefone celular, para saber o que andam fazendo durante as aulas.

A escola que testa o chip “dedo-duro” ainda carece de uma quadra esportiva e seus alunos não têm aula de Sociologia por falta de professor. Mas o que parece preocupar mesmo agora a diretora é o custo que a implantação do sistema em toda a escola trará, caso aprovada a ideia. Serão cerca de R$ 28,8 mil, custo que a diretora cogita de transferir para os pais dos alunos. Ou seja, ainda que a escola seja pública, os pais é que podem acabar pagando pela “caderneta”, que no meu tempo era em papel e a mim entregue sem qualquer custo para o meu pai.

Pois é, a onda do controle eletrônico de presença dos alunos avança, ainda que lentamente. Não é ainda uma onda grande, avassaladora como as criadas pelo furacão Sandy, que andou fazendo estragos no Caribe e na costa leste dos Estados Unidos nesses últimos dias. Mas quem garante que a onda do controle eletrônico não será enorme em breve?

E quem garante que ela não “engolirá” também os professores? Podemos tranquilamente suspeitar que passará pela cabeça de algum diretor de escola, pública ou privada, ou de algum  burocrata de Secretaria de Educação a ideia de implantar um controle efetivo, por chip, da presença de professores, notadamente na rede pública, onde o absenteísmo docente é uma marca.

Ou, quem sabe, uma lista futura de material escolar não incluirá  um chip subcutâneo nos alunos. Quem viver, verá.

Wordle do post:

Educação e eleição

21/09/2012

A cada dois anos o povo brasileiro ouve, de novo. as “novas” promessas que farão do nosso país a Terra Prometida. Todos os nossos problemas serão resolvidos, sem exceção. Teremos saúde, segurança pública, aposentadoria digna, os salários mais justos da face da Terra. Alguns chegam a nos prometer que não mais teremos patrões. E, claro, teremos a melhor educação do mundo.

Ainda não encontrei um só candidato, a qualquer cargo eletivo que seja, que não trouxesse uma única promessa para a melhoria da nossa educação, para a redenção de nossas escolas públicas. Todos estão comprometidos com elas. Na verdade, todos estão comprometidos com todos.

De quatro em quatro anos a educação será redimida. E entre as promessas de hoje e as que nos serão feitas na próxima eleição,  a nossa educação pública claudicará.

Na última quarta-feira, barbeando-me, liguei o rádio que tenho no banheiro. Era a única coisa que, por não ser multitarefa, eu poderia fazer naquele momento, além do leve e calmo escanhoar.

Me deparei com o horário eleitoral, gratuito mas que tanto custa ao contribuinte brasileiro. Foi a primeira experiência de ouvi-lo nessa atual campanha eleitoral. Ando, propositadamente, desligado dela.

Na propaganda, o atual prefeito, candidato à reeleição, vangloriava-se de ter acabado com o projeto da escola pública que vigorava há alguns anos, implantado que fora por aquele que agora é seu [principal] concorrente na eleição. Muitos desses anos em que o modelo da educação do rival foi mantido são exatamente aqueles em que os correligionários do atual prefeito e os até ontem seus  coligados ocuparam a prefeitura.

E, claro, já que se trata de campanha eleitoral, o candidato à reeleição nos antecipava uma nova escola, muito melhor, para o tempo futuro.

Um pouco depois, veio a propaganda de um ex-prefeito, que legitimamente procura ocupar de novo esse cargo tão importante.

Coincidentemente o ex-prefeito falou de educação. Mais, destacou a baixa qualidade da atual educação pública municipal e da necessidade de mudanças. A educação pública, disse ele, é um dos grandes problemas da cidade.

Briga de palavras, de ideias, de referenciais com um só propósito: desqualificar o outro para angariar  a simpatias dos eleitores e seus votos. Entendo, ainda que lamente; é do jogo.

O mais interessante – e o que não entendo – é que nos últimos quatro anos, o partido desse ex-prefeito foi coligado com o daquele que busca a reeleição. Os companheiros de partido do ex-prefeito ocupavam até pouco tempo atrás os postos-chave da Secretaria Municipal de Educação, incluindo o importante cargo de secretário. Só se demitiram – mas pode ser que ainda reste algum lá – depois que o seu partido resolveu não manter a coligação e lançar um candidato próprio.

Se entendi bem, os companheiros de partido do ex-prefeito ajudaram o atual a acabar com o projeto da escola criado na sua gestão. E no seu lugar colocaram um novo que, nos assegura o ex-prefeito, não melhorou a educação.

Essa situação revelou uma das razões pelas quais não daremos conta de resolver os seríssimos problemas da educação pública no Brasil. A cada quatro anos, oito no máximo, um novo projeto, uma nova proposta é lançada.

E parece que é ponto de honra desconhecer tudo o que vinha sendo feito, até mesmo por correligionários ou aliados políticos.

Tudo é começado como se nada houvesse antes. É tudo como “nunca antes na história desse país”. Em síntese, a cada quatro anos, oito no máximo,  a educação tem que mudar, porque só o novo ocupante do cargo pode dar qualidade a ela. Tudo o que foi feito antes de nada valeu, nada sobrou a não ser os resultados pífios registrados nos exames nacionais.

Tratam a educação como se fosse uma cultura de hortaliças, coisa para o tempo curto, ao invés de um plantio de árvores que exigem tempo para fincarem fortemente suas raízes, se fazerem sólidas.

Pois esse é nosso problema. Nossa educação vive aos soluços. A cada quatro anos a nossa escola tem que (re)nascer de um novo tranco. Essa é uma fórmula imbatível para garantir a indigência de nossa educação pública.

Pobre Brasil, pobre brasileiro. Pobres de realizações, ainda que ricos de promessas.

 

 

Wordle deste post:

Viva o atraso.

11/05/2012

Uma notícia do jornal El Periòdic d’Andorra dá conta de que a demissão de uma professora da escola Espanyola d’Escaldes-Engordany, no principado de Andorra, teria sido recomendada porque ele “ensina demais” aos seus alunos. Um inspetor escolar, vindo de Madrid, constatou que seus alunos, de 4 anos de idade, já sabiam ler, estavam começando a escrever e podiam fazer contas de somar e subtrair . O inspetor considerou, em seu relatório, que o ensino utilizado pela professora era muito desenvolvido e não correspondia ao currículo de uma escola pública do país. Isso foi motivo suficiente para que recomendasse a demissão da professora e seu regresso à Espanha. Suspeito que para o inspetor madrileño o mínimo a ser ensinado coincide exatamente com o máximo. Os pais se mobilizaram para assegurar a permanência da professora.Por enquanto conseguiram que ela fique na escola até o final do ano letivo, em setembro próximo. Mas insistirão para que continue depois disso. Evidentemente que ler uma história dessa, por mais que nos deixe pasmos, nos remete para a situação da educação brasileira. Aqui os professores de escolas públicas, passado o chamado período probatório – onde estariam sendo postos à prova, resta saber a quem e  como – têm a sua estabilidade garantida até a aposentadoria, a menos que se vejam envolvidos em crime ou algo sério que motive uma ação das corregedorias. Aqui professores que nada ensinam permanecem nas escolas por 25, 30 anos, sem que jamais sejam incomodados, punidos, muito menos demitidos. Por outro lado, imagino que aqui no Brasil dificilmente um inspetor ou uma inspetora estaria na escola comprovando que o ensino que ali se pratica é adequado ou não para a realidade da rede pública. E independente do que constatassem, possivelmente jamais poderiam “demitir” professores. São como “vacas sagradas”, ninguém os toca. Pois é, se a professora de Andorra atuasse em escola pública brasileira há mais de 3 anos estaria com seu emprego garantido. Mas, convenhamos, também estaria garantida se nada ensinasse, se seus alunos de 14, 15 anos ainda não soubessem ler, escrever, fazer as contas. Estaria garantida se fizesse de conta que ensina.

Em tempo, porque certamente serei “massacrado” por comentários com relação a esse post.  Fui professor de escola pública por alguns anos. Sou casado com professora de escola pública que também não entende uma estabilidade a troco de nada, estabilidade que só teria sentido se o professor mostrasse – em processos de avaliação permanente e séria – que faz um trabalho de qualidade.

____

Wordle deste post.

Chip, chip, meus gatinhos! Digo, meus e-Alunos !

26/03/2012

Houve um tempo no qual os pais, dentre eles os meus, controlavam ao menos parte da vida dos seus filhos na escolas pela caderneta.

Alí na caderneta estavam os carimbos que comprovavam a assiduidade [presente, ausente] e a pontualidade [atrasado]. Também ali estavam as notas que mostravam se a aprendizagem aconteceu ou não, ou, se ao menos, os esudantes conseguiram sair-se bem nas provas, mesmo que não tivessem aprendido.

Na caderneta Imagemeram ainda escritos os recados – que em geral só falavam de atos de indisciplina – que as as escolas emviavam aos pais dos alunos travessos, indisciplinados [Seriam eles os antecessores dos “hiperativos”de hoje ?]

Mas os tempos mudam e os controles podem se tornar, digamos, modernos, ainda que muitos possam achar inapropriados.

E é exatamente de um controle “moderno” de estudantes que trata uma notícia que circulou na semana passada.

A rede muncipal de ensino de Vitória da Conquista, no Estado de Bahia, monitorará, usando chips eletrônicos,a frequência e permanência de seus alunos. Dessa forma, poderá avisar pais e responsáveis sobre a presença dos estudantes na escolas.

Os chips estarão nos que foram chamados “uniformes escolares inteligentes”.

No escudo da escola na blusa do uniforme ou em sua manga, os chips, que  utilizam a tecnologia de Rádio-Frequência de Indentificação (RFID), serão identificados por sensores instalados na entrada das escolas.
Tão logo o estudante passe por alií, o sistema avisará, pelos celulares cadastrados, aos pais e responsáveis que os estudantes entraram ou saíram da escola.

O secretário de Educação de Vitória da Conquistachip declarou que além de promover o melhor controle da frequência escolar, este é um projeto que reaproxima os pais do ambiente escolar.

Segundo ele, ao longo dos anos foram constantado que muitos pais ficavam surpresos quando eram informados da baixa frequência dos filhos às aulas. Com o sistema, implantado a um custo inicial de R$ 1,2 milhão, as escolas pretendem “intensificar o controle sobre os estudantes, evitando que eles fiquem nas ruas“, afirma o secretário.

Haverá, certamente, quem se posicionará a favor da medida, convencido de que a escola deve mesmo controlar a frequência dos alunos e avisar os pais, usando os recursos que dispuser.

Por outro lado, não serão poucos os que condeanarão a medida, sob o argumento de que ele fere a liberdade do aluno, que seria até o caso de uma “invasão de privacidade”.

Não me surpreenderei se alguém disser que esse chip no uniforme é o equivalente a uma tornozeleira eletrônica usada por condenados pela Justiça.

O sistema, que devem conceber como inexpugnável e que já comeu uma boa quantia de dinheiro público, pode vir a servir apenas para detectar a presença de blusas de uniforme na escola. Bastará ao gazeteiro [ainda se usa essa palavra?} entregar sua blusa a um colega que vai para escola e, tão logo este passe pelo portão da escola, os pais do gazeteiro receberão a “reconfortante e tranquilizadora” notícia de que seu filho [ou filha] está em lugar “seguro” chamado escola.

Enquanto isso, buscar estratégias para que os estudantes sintam que vale a pena ir para escola e ali permanecer, nem pensar.

Mas sabemos que o bom uso de outro chip, o de computadores pessoais, leva alunos para a escola. Isso ficou evidente no Projeto UCA, que permitiu a cada aluno ter seu próprio laptop na escola.

Um indicador positivo do Projeto UCA é a diminuição significativa do índice de absenteísmo.

Por que não pensar em investir o dinheiro dos chips controladores em computadores, laptops edudacionais?  Quase certamente teríamos menores dispêndios e maiores resultados. E inteligente seria a escola, não os uniformes.

Não guardei o nome da escola na qual o chip estará em breve funcionando. Mas estou convencido de que não é Escola Municipal Michel Foucault.

____

Wordle deste post.

Wordle: Chip, chip, meus gatinhos. Digo, meus e-Alunos!