Archive for the ‘Exames oficiais’ Category

Depois do incêndio, a pirotecnia

30/08/2012

Em outro post, comentei sobre a pressa com a qual o Ministro da Educação, Aloizio Mercadante, veio a público dar explicações e apresentar soluções para o problema revelado pelo IDEB 2011: o Ensino Médio estancou e, em alguns estados, conseguiu a proeza de ser ainda pior do que era.

Uma das propostas do Ministro é a aglutinação dos conteúdos das disciplinas em “áreas do conhecimento”, similares – se não idênticas – às propostas nos PCN – Matemática e suas tecnologias; Linguagens, códigos e suas tecnologias; Ciências da Natureza e suas tecnologias; Ciências Humanas e suas tecnologias – e “balizadoras” do ENEM a partir de 20124. Como o Ministro pretende – ou ao menos pretendia – substituir a Prova Brasil pelo ENEM no cálculo do IDEB teria tudo a ver. De alguma forma as disciplinas se extinguem e seus conteúdos se aglutinam em novas disciplinas, não importa que nome venham a dar à “coisa”.

Sou daqueles que detestam as soluções fáceis. Não porque prefira as difíceis. A questão é: “Se a solução é fácil, por que não foi pensada antes?”.  O jornalista e crítico social estadunidense Henry Louis Mencken, conhecido simplesmente como H. L. Mencken deixou-nos um alerta: “Para todo problema complexo, existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada“.

Como imagino que o Ministro não deve querer que especialmente as redes públicas estaduais, as maiores responsáveis pela oferta do Ensino Médio, afastem seus atuais professores das salas de aula, bem como as escolas da rede particular,  uma dúvida se oferece: Quem assumirá as aulas de, digamos, Ciências da Natureza e suas tecnologias? Será o professor de Biologia? O de Física ou o de Química? Sim, porque cada uma tem sua formação específica, não só nos conteúdos, mas nas práticas de ensino desse conteúdo, formação forjada ao longo de quatro anos de estudos em uma licenciatura. Ou todos assumirão tudo, mesclando conteúdos que não sabem de forma suficiente como aquele que, ao menos em tese, domina, verdadeiros professores polivalentes? Se, como dizem, o especialista é aquele que sabe cada vez mais de cada vez menos, até que um dia saberá tudo de nada, o professor generalista pode ser aquele que sabe nada de tudo.

No seu afã de dar respostas imediatas, Mercadante se esqueceu desse pequeno detalhe. Professor de Biologia não foi preparado para dar aula de Física, nem os licenciados nessa ciência devem saber o suficiente para ensinar Citologia, Histologia, Genética, Botânica, Zoologia e os demais conteúdos que formam o corpo da disciplina Biologia. Até porque a formação do profissional de ensino exige a construção de saberes sobre o que eu chamaria de “pedagogia dos conteúdos”.

O professor necessário nessa proposta do “fim das disciplinas” não existe e possivelmente nem será formado. Ou o Ministro teria que combinar com as universidades as novas licenciaturas, por áreas de saberes conforme os PCN. Só que com um problema a mais: as salas de aulas das licenciaturas, conforme hoje desenhadas, estão cada vez mais esvaziadas, correndo o risco de em breve estarem às moscas.

E não me venham com a saída da formação continuada. Os professores hoje fogem delas e não será com poucas horas que professores especialistas, das universidades, formarão os professores polivalentes para o novo Ensino Médio.

Que o Ensino Médio precisa , urgentemente, de uma reforma não haverá quem negue. Mas temos que tomar cuidado para que as reformas não venham no açodamento, aumentando os problemas desse segmento da educação ao invés de minorá-los. Alguns começam a chiar contra essa reforma a toque de passos. Que o MEC dê ouvidos a eles também, porque, afinal, o que todo o país quer é educação de qualidade, sabendo que muitos esforços devem ser mobilizados para isso e que o processo demandará um tempo, certamente maior do que o mandato de um ministrou ou um secretário. Façamos o que for necessário, mas não a pirotecnia, no rescaldo do incêndio.

 

Wordle do post:

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ENEM. Prá que tanto desespero?

21/09/2011

Na quarta-feira da semana passada, ainda bem cedo, o telefone tocou.

Para quem tem uma mãe com 87 anos de idade e com saúde um tanto debilitada, um toque no telefone bem cedo assusta. Por mais otimista que queiramos ser, um telefone que soa fora do horário “comercial” traz apreensões.

Felizmente, não era sobre minha mãe, nada que me provocasse  preocupação.

Mas era uma mãe preocupada; desperada, eu diria.

Qual a razão do desespero? O resultado do ENEM.

Essa dona de casa desesperada, professora e minha ex-aluna na graduação,  queria ouvir-me sobre o resultado do ENEM.

O resultado saíra na segunda anterior e fora divulgado, pela grande mídia, na terça-feira.

Sua preocupação, a razão do seu desespero? A posição da escola dos filhos, em relação a uma outra da mesma rede e, principalmente, suponho, em relação às “campeãs”.

O que é esse ENEM, afinal de contas, que tanto assombra estudantes e pais?

É um exame que tem o objetivo de avaliar o desempenho do estudante ao fim da escolaridade básica.

Vejamos bem, ele avalia o desempenho em redação e em provas objetivas de quatro áreas do conhecimento: (1) linguagens, códigos e suas tecnologias; (2) ciências humanas e suas tecnologias; (3) ciências da natureza e suas tecnologias e (4) matemáticas e suas tecnologias.

Avalia a educação básica de cada aluno?  Diria, convencidamente, que não. Educação é muito mais do que desempenho em duas provas. Educação diz respeito a todo um trajeto, a uma vida quando se considera o tempo da educação básica, 12 anos no mínimo.

Avalia a qualidade da escola como fazem supor as publicidades e propagandas das escolas bem colocadas em um ranking que foi criado pela imprensa, jamais pelo MEC? De novo, decididamente, eu diria que não. Exatamente porque não são todos os seus concluintes que prestam o exame, que é voluntário.

Sabemos que algumas  escolas, da rede privada de ensino,  que escolhem os melhores alunos para fazerem o ENEM. Usando-os, buscam posições superiores no ranking, estratégia para ganhar novos alunos no ano seguinte, ou ao menos para não perder alunos para escolas melhor ranqueadas.

Me lembro agora da história contada por um aluno na graduação. Quando concluinte do Ensino Médio, ele foi um dos “convidados” pela sua escola para não fazer o ENEM. Ele não estava na lista daqueles com os quais a escola contava para “sair bem na foto”. Disse a todos, durante uma das minha aulas, que a escola convocou alguns alunos para fazer o ENEM, pediu a outros que não o fizesse e prometeu um churrasco para todos se sua nota final fosse boa. Evidentemente que omito o nome da escola. Mas é um colégio sempre bem posicionado no ranking das escolas privadas de Belo Horizonte e que faz bonito mesmo no cenário nacional.

O ENEM 2010 traz o índice de participação. Algumas escolas alcançaram 100%. Isso quer dizer que todos os seus alunos concluintes do Ensino Médio prestaram o exame, pensarão os tolos ou crédulos? Mas não é isso. Esses 100%, ou 75% ou o número que seja indicam quantos dos alunos inscritos no exame compareceram em seus dois dias e fizeram as provas.  Como a inscrição no exame não é obrigatória, podem estar ali, “representando” as escolas aqueles por elas considerados os melhores.

 O INEP destaca na nota técnica do ENEM 2010  que ” mesmo para as escolas com alta Taxa de Participação no ENEM, os alunos participantes podem não representar o desempenho médio que a escola obteria caso todos os alunos participassem, considerando o caráter voluntário do Exame”. Pimba! Portanto, nunca saberemos, até que o ENEM seja obrigatório para todos os concluintes, como é o caso do ENADE, que o retrato fornecido pelas notas reflete o que de fato acontece na escola com todos.

Quando o ENEM for obrigatório para todos, com as escolas que não tiverem 100% dos concluintes inscritos e participando das provas não tendo suas notas finais divulgadas, aí teremos alguma chance para acreditar que as notas refletem o desempenho de seu processo formativo, ainda que duas provas não sejam suficientes para mostrar percursos.

Existem escolas que, por estarem ranqueadas no ENEM, atraem alunos em seus anos finais do Ensino Médio. Carreiam para si os melhores alunos de outras escolas; os ruins, os fracos elas não querem. Será que podemos em sã consciência dizer que um aluno que passou, digamos, 8, 10 anos em uma escola e que depois vai para uma “escola campeã do ENEM” é um “produto dela”, teve uma boa formação básica por causa dela? Certamente que não!

ENEM. Assunto para continuar em outro post.