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Para lidar numa boa com as “Isadoras”

03/09/2012

Uma estudante de 13 anos, aluna da Escola Básica Municipal Maria Tomázia Coelho , em Florianópolis, está dando o que falar, nas mídias digitais e analógicas.  Isadora Faber usou o Facebook para mostrar, em textos e imagens, diversos problemas em sua escola.
Isadora teria como fonte de inspiração o blog “Never seconds”, criado por Martha Payne, uma estudante escocesa de 9 anos, para criticar a qualidade e a quantidade da comida oferecida aos alunos em sua escola. Um vídeo mostra uma conversa, à distância, entre Isadora e Martha.
A página “Diário de Classe” de Isadora atraiu mais de 200 mil seguidores, vem gerando reportagens na mídia e, no limite, provocou uma reunião emergencial da Secretaria de Educação de Florianópolis, depois do que foi prometida a reforma da escola.
A página-denúncia gerou reações das mais diversas ordens, na escola e fora dela; muitas pessoas não “curtiram” o Facebook de Isadora. Até surgiram acusações de que o blog teria finalidades eleitorais. Enquanto isso existe quem aponta 100 formas diferentes de usar o Facebook na sala de aula.

A mobilização social por intermédio de mídias digitais não é novidade alguma. A cidadania digital se amplia. Mas o caso da estudante de Florianópolis certamente despertou interesses e preocupações, aqui no Brasil. 
A diretora da escola, entrevistada pela revista Veja, quer que “o caso saia do Facebook e venha para dentro da escola para que os alunos sejam atuantes também” na escola. Restaria saber a razão pela qual, até agaora, essa atuação dos alunos não foi estimulada. Formação para a cidadania se faz com estímulos e iniciativas, não com entendiantes aulas expositivas.
O episódio revelou. ainda, uma outra questão que nada tem a ver com a tecnologia: o despreparo de professores e, principalmente, de gestores para a crítica. A escola gosta de avaliar, mas têm um sólido histórico de resistência à sua própria avaliação. De maneira geral, professores e gestores são refratários ao risco de avaliações, de que natureza forem, revelarem os problemas da escola, achando que correm o risco de serem responsabilizados por elas. Mas se não for a avaliação, mais ou menos sistematizada, os problemas não aflorarão e suas soluções não poderão ser pensadas. Professores e gestores devem entender que esconder pela “não-avaiação” os problemas de suas escolas faz deles também vítimas das mazelas. Se as coisas básicas denuncidas por Isadora forem melhoradas, todos na escola ganharão, alunos, professores, gestores e funcionários.
Mas deixemos de lado a avaliação institucional – um dia talvez eu trate desse tema aqui – e voltemos para o “lado tecnológico” do problema.
Como alerta matéria publicada na Veja/Educação, muito mais do que mostrar a força comunicacional de uma ferramenta como o Facebook, algumas reações do setor educacional revelam o quão despreparados estão os professores e gestores escolares para lidar com questões como essa. O episódio mistura mídia digital e cidadania digita que, segundo Gregg Witkin, são as principais arestas na mudança do paradigma educacional.  Witkin foi, recentemente, o primeiro colocado na categoria “Educator as Innovation and Change Agent” [Educador como Agente da Inovação e da Mudança} do prêmio que a Microsoft confere, nos Estados Unidos, a educadores que se destacam por trazer tecnologia e aprendizagem baseada em projetos para suas salas de aula de forma inovadora e interativa. Witkin foi premiado pelo projeto “Finding your voice” [Encontrando a sua voz], que desenvolve  com seus alunos na Boynton Continuation High School, em San Jose, na Califórnia.
Episódios como o de Isadora revelam a necessidade de que a formação continuada dos professores, além da inicial nas licenciaturas, dê mais atenção à questão das tecnologias digitais de informação e comunicação, avançando para o “letramento digital”, além da simples alfabetização digital. Os professores precisam entender como de fato tais tecnologias preenchem a vida dos jovens e crianças e como, daí, tendem a invadir a escola e ocupá-la cada vez mais. E dali as tecnologias mostrarão para o mundo a cara da escola.

Professores e gestores que fossem portadores de uma “cultura digital” certamente se veriam menos surpreendidos com o “Diário de Classe” de Isadora e encontrariam a melhor forma de lidar com a situação que ele gerou. E, mais, saberiam lidar com novas situações que possam ser provocadas em outras páginas do Facebook e blogs que já devem estar por aí ou chegando logo. Porque, queiram ou não, Isadora pode fazer escola no Brasil.

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