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Homeschooling

13/03/2010

Esta semana começou com uma comparação infeliz. E se encerra com outra.

Primeiro, a comparação despropositada que ainda dará muito que falar, inclusive – ou principalmente – na campanha eleitoral, sobre prisioneiros políticos em Cuba e bandidos comuns do Brasil.

Agora me deparo com outra comparação que julgo infeliz, ainda que feita por alguém com fortes vinculações com instituições que representam professores, categoria à qual orgulhosamente pertenço.

Respondendo à Folha de S. Paulo, na pergunta “Acerta a Justiça de Timóteo ao condenar o casal que tirou filhos da escola para educá-los em casa?” Rudá Ricci, doutor em Sociologia, na defesa do SIM que dá como resposta, sugere uma comparação entre a situação de pais que buscam ensinar os seus filhos em casa, convencidos da impossibilidade da escola, como aí está, de lhes dar a formação adequada, com um cidadão que se atreveria a ser cirurgião, em sua própria residência, submetendo seu filho a uma operação ou que, com arma privada, perseguiria bandidos já que saúde e segurança pública não vão bem na Terra Brasilis.

Claro que os professores devem ser preparados para o exercício profissional. A licenciatura é o caminho para isso. Da mesma forma, médicos e policiais precisam de formação específica para ao exercício profissional.

Contudo o que difere pai e mãe que dominam determinados conteúdos ensinados na escola de muitos dos professores das nossas escolas? Nada, rigorosamente nada.

Por quê? Porque muitos dos professores que estão aí em nossas escolas não sabem ensinar, são incapazes de construir estratégias que possa levar seus alunos a aprender o que supostamente ensinam.

Pesquisas e mais pesquisas revelam essa incapacidade de egressos de cursos de Pedagogia e de licenciaturas, um problema criado pelos próprios cursos que se perdem em outras “ensinagens” e não permitem aos futuros professores a aprendizagem de como ensinar.

Esses pais que residem em  Timóteo , Minas Gerais,  parecem ainda ter uma vantagem sobre muitos professores: eles sabem os conteúdos que ensinaram aos filhos. Tanto é que os jovens foram aprovados em exame aplicado pela Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais. Enquanto isso a grande massa de nossos estudantes fracassa em exames como SAEB, ENEM, Prova Brasil.

Recentemente os jornais, incluindo a Folha de S. Paulo, não cansaram de noticiar que, em um estado da Federação, quase metade dos professores contratados como temporários não conseguiu aprovação em exame que se baseou apenas no conteúdo que devem ensinar. Em síntese, estão nas escolas ensinando o que não dão prova de ter aprendido.

A Justiça de Timóteo condenou, em primeira instância, o casal Cleber e Bernadeth Nunes por “abandono intelectual” dos dois filhos. Entregar o filho para ser educado em uma escola que se revela, cada vez mais, menos competente não seria também uma forma de “abandono intelectual”? Mas esse “abandono” no espaço da escola não é colocado sub judice.

Entre o abandono no olhar da justiça e abandonar filhos na escola, esses pais escolheram o caminho que garantiu aprendizagem aos filhos.

Conseguiram o que muita escola não consegue fazer com a maioria dos seus alunos.

Não faço apologia do “homeschooling” na Terra Brasilis, inclusive – ou principalmente – porque vem como sintoma de uma “doença” que debilita a nossa educação escolar, notadamente a pública.

Mas não posso entender como pais que não deixam filhos irem à escola porque, pelos próprios índices oficiais, a sabem ruim, podem ser culpados e condenados.

O que precisamos não é a condenação de pais por “homeschooling”.

Precisamos que o MP e a Justiça achem um jeito de levar ao banco dos réus uma educação pública que não cumpre sua função social. Precisamos é que a Justiça puna governantes que não asseguram à escola as condições para que eduque bem. Porque são políticas públicas para a educação que se revelam insuficientes, quando existem, que levam ao “abandono intelectual” de gerações, ainda que elas estejam nas salas de aula.

Inclusive porque quando nossas escolas da Educação Básica tiverem a qualidade necessária, possivelmente não teremos pais querendo escolarizar os filhos em casa. Então estarão convencidos de que a escola será o melhor lugar para seus filhos estarem em um período do dia.

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