Archive for the ‘Internet e educação’ Category

Narrativas digitais na escola. Uma experiência que pode ser fantástica

30/05/2013

O que em inglês se denomina Digital Storytelling, no Brasil estamos chamando de narrativa digital. Em sua essência trata-se de fazer uso de tecnologias digitais para contar estórias ou histórias.

Contar e ouvir histórias sempre fez parte da história da humanidade. Provavelmente aquele que chamamos de homem “pré-histórico” assentava-se ao redor de fogueiras e contava histórias, narrava fatos do seu cotidiano, relatava suas aventuras. No linguajar bem mineiro, “contava causos”.

pintura rupestreAntes mesmo de escrever, o homem contou histórias usando figuras, as famosas pinturas rupestres que encontramos em cavernas em muitas partes do mundo. Deixou registrados fatos do seu dia-a-dia, como a caça, nos mostrou animais com os quais convivia. Desde então, mais de 20.000 anos atrás, contar histórias é uma das nossas formas mais fundamentais de comunicação.

Crescemos com nossos pais nos contando histórias. Depois, pais, contamos histórias para nossos filhos, embalando seu sono.

Contar histórias é uma característica universal de cada país e de cada cultura, como reconhecem os antropólogos, ainda que, ao longo de boa parte do século 20, a narração tenha perdido um pouco de sua importância, tenha merecido menor respeito, como afirma Steve Denning, em artigo sobre a ciência de contar histórias que foi publicado na revista Forbes.

Para Denning, o contar histórias teve uma espécie de eclipse no século passado, quando as narrativas eram vistas como sendo tanto infantis quanto triviais.

No seu artigo Denning faz referência ao livro “On the Origin of Stories: Evolution, Cognition, and Fiction” de Brian Boyd, que busca explicar a razão pela qual a aparentemente frívola atividade de contar histórias é tão poderosa. Boyd ajuda a entender o contar histórias como algo central na inovação, uma dimensão da performance crítica nas organizações no século XXI: histórias são uma espécie de jogo cognitivo, um estímulo e um treinamento para a mente viva.

Todos nós gostamos de ouvir uma boa história. Mas nosso cérebro reage de forma diferente às narrativas.

CerébroAs pesquisas em Neurobiologia revelam que, quando ouvimos alguém que usa uma apresentação gerada no PowerPoint, ativamos as áreas de Broca e de Wernicke do nosso cérebro.

Mas quando nos contam uma história, as coisas no nosso cérebro mudam drasticamente. Como revelam as pesquisas, não são apenas as áreas de processamento da linguagem em nosso cérebro que são ativadas quando ouvimos histórias. Outras áreas em nosso cérebro serão ativadas enquanto lidamos com os eventos da história. Por exemplo, se o contador de historias fala de uma comida gostosa, nosso córtex sensitivo como que acende. Se o contador de histórias fala as palavras “lavanda” ou “sabão” nossa área do cérebro que lida com odores será ativada.

O cérebro, pelo que parece, não faz muita distinção entre ouvir o relato de uma experiência e encontra-la na vida real. Nesses casos, as mesmas regiões neurológicas são estimuladas. Mas o essencial é que somos afetados por ambos.

Há muito tempo se reconhece que ler uma boa literatura nos faz melhores como seres humanos. A neurociência vem revelando que essa afirmação é mais verdadeira do que poderíamos imaginar. Ouvir histórias também faz bem, como ler.

storytellerA proposta da narrativa digital é combinar a antiga arte de contar histórias com recursos das chamadas tecnologias digitais de informação e comunicação. As narrativas são elaboradas na perspectiva de linguagens múltiplas, lançado mão de recursos de multimídia [texto, fotografia, vídeo, áudio, gráfico]. É possível ainda a narração, que deve ser gravada pelo contador de estórias. Prontas, as narrativas são publicadas na internet e tornam-se acessíveis a muitos.

Se na narrativa tradicional a forma de comunicação é praticamente apenas a fala do contador de histórias, as histórias digitais são contadas com recursos das linguagens múltiplas, criadas em computador e colocadas na internet.

As histórias digitais podem variar em tamanho. Porém, na sua maioria, as histórias utilizadas na educação geralmente duram algo entre 2 e 10 minutos. Com esse tempo consideramos o chamado ciclo de atenção, que, segundo alguns pesquisadores, nos adultos é de 15 a 20 minutos e nas crianças atuais parece ser menor, particularmente quando se trata de aprendizagem visual ou oral. Há que afirme que o ciclo de atenção [em inglês, attention span] das crianças hoje em dia seria da ordem de apenas 8 minutos. Há quem responsabilize, ou culpe, a televisão e a internet por essa significativa redução.

Na narrativa digital aplicada à educação, temos relatos de eventos históricos, histórias de vida – pessoal, da comunidade escolar ou do entorno dela. O essencial é que seja sempre algo que tenha significado para o aluno.

Apesar de seu atual destaque, a narração digital não é uma prática nova. Um dos pioneiros nessa, podemos dizer, arte é Joe Lambert, cofundador do Center for Digital Storytelling (CDS), organização sem fins lucrativos, hoje localizada em Berkeley, Califórnia, nos Estados Unidos.

A proposta do CDS, desde a sua criação – como San Francisco Digital Media Center – em 1994, foi de apoio a jovens e adultos na criação e no compartilhamento de narrativas pessoais, lançando mão da combinação de escrita reflexiva com mídias digitais.

Capa de Digital Storytelling: Capturing Lives, Creating Community, de Joe LambertNo início de seu livro “Digital Storytelling: capturing lives, creating commitment”, Joe Lambert coloca uma questão básica: “Por que contar histórias?”. E assim ele mesmo responde à questão que formula: Histórias são o que o homem faz para dar sentido ao mundo.

Um detalhe: Jose Lambert usa o termo stories. Na língua inglesa a distinção entre estória e história ainda parece persistir. A história é entendida como uma descrição narrativa objetiva de eventos passados​​, enquanto que a estória é uma descrição narrativa subjetiva, tanto de acontecimentos reais passados, quanto de pessoas imaginárias ou eventos.

Na língua portuguesa a palavra “estória” se referia aos contos, às fábulas, enfim, à ficção. Já a palavra “história” era utilizada para se fazer referência a fatos e atos da/sobre a humanidade, relativos à vida de uma pessoa. Atualmente, o termo “estória” parece cair em desuso; o termo “história” passa a ser utilizado em todos os sentidos. Nesse post usarei apenas a palavra história, a não ser quando a palavra “estória” for absolutamente necessária para algum esclarecimento.

E, continua Lambert, somos perpétuos contadores de histórias, revendo eventos na forma de cenas revividas, pepitas de contexto e caráter, ações que levam a realizações.

Outro pioneiro no campo das narrativas digitais foi Daniel Meadows, fotógrafo, autor e educador britânico. Ele definiu histórias digitais como sendo “contos multimídia, pessoais, breves, contados com o coração”. Também disse que as histórias digitais são “sonetos multimídia do povo”.

É interessante quando Joe Lambert, em seu livro “Digital Storytelling”, afirma que o cérebro que o leitor está usando para lê-lo, quando descreve sobre histórias (mantenho aqui a palavra que ele usa originalmente) e o contar de histórias, é muito diferente daquele cérebro usado se o leitor o ouvisse contar uma história.

Storytelling in the classroom

Há muito tempo o contar histórias faz parte do ambiente escolar, notadamente no ensino infantil e nas séries iniciais. Hoje em dia, no campo da educação, professores e alunos, nas salas de aula dos anos iniciais até o ensino superior, incluindo a pós-graduação, estão usando narrativas digitais com diferentes propósitos, em diferentes áreas de conteúdo e através de uma grande variedade de níveis de escolaridade.

Não se trata apenas de professores contando histórias, como vem sendo o usual, lançando mão de recursos multimídia. Precisamos pensar na situação dos próprios alunos se tornarem contadores de histórias digitais, é isso o que devemos buscar.

Será, com certeza, uma experiência fantástica para os alunos. Autores, combinarão uma tradição da própria espécie humana, o contar histórias/estórias, com as tecnologias digitais, que tanto lhes atrai. Usando imagens que eles mesmo produzirem, é o ideal, ou buscadas na internet [o que exigirá a habilidade da busca e a competência para a escolha, bons exercícios], combinando as imagens em apresentações que podem ser transformadas em vídeos], associando o áudio, como narrativa oral ou uma agradável trilha musical [são muitos os sites onde encontrar, gratuitamente, músicas e efeitos sonoros], ou produzindo vídeos, os alunos poderão, com as narrativas digitais, contar histórias/estórias, mostrando  o que aprenderam, experiências que viveram. E, se carregarem as suas narrativas em sites como SlideShare, YouTube ou Vimeo, mostrarão tudo isso para o mundo.

NarrativasParece-me uma experiência saborosa. Será um tempo para o exercício da criatividade, um momento para a expressão da estética, deixando a imaginação dos alunos correr solta. Projetos de narrativas digitais estimularão os alunos a expressar-se visualmente, o que é uma habilidade diferente de escrever.

Talvez trazer as narrativas digitais para a sala de aula seja tarefa para um professor ousado; talvez basta querer ser um professor diferente.

Por que não começar a fazer isso logo?

Meus alunos de graduação (licenciatura) em Ciências Biológicas na PUC Minas estão fazendo suas narrativas digitais criando  apresentações no PowerPoint, que depois transformam em vídeo, utilizando o  Windows Movie Maker. Os vídeos são carregados no YouTube. Para facilitar o trabalho deles, um pequeno manual foi organizado.

Wordle do post. Clique na imagem ara vê-la ampliada.

wordle_post-narrativasdigitais

Academia Khan. É esse o bom ensino?

25/07/2012

Permaneço estupefato com o sucesso que o tal Salman Khan continua fazendo, a ponto do MEC planejar traduzir, legendar as suas aulas [vídeos] para uso em escolas públicas brasileiras, através principalmente de tablets, que o governo deve distribuir para milhares de professores de escolas públicas de Ensino Médio.

O que faz mesmo esse tal Khan? Ele grava aulas, expositivas, de vários assuntos – é o novo homem enciclopédico, um “papai sabe-tudo” – e as disponibiliza na internet. Nada cobra pelas aulas – e fico a me perguntar se alguém pagaria para assisti-las – porque é bancado por empresas e empresários. Bill Gates é um dos que apóiam financeiramente Kahn, que teria ajudado seus filhos a aprenderem coisas que a escola não dava conta de ensinar.

Claro que aquilo que a Khan Academy faz surpreende a todos quando olhado notadamente pelo lado quantitativo. São 3.300 vídeos, majoritariamente em assuntos da Matemática, que já foram vistos mais de 170 milhões de vezes – o que não signfica 170 milhões de alunos. Aliás, se fosse esse o número de alunos, seria de fazer inveja às grandes organizações que hoje comandam instituições de ensino no Brasil que oferecem educação a distância a muitos milhares de estudantes.

Há pouco tempo uma revista de grande circulação no Brasil anunciou, em sua capa, Sal Khan como o melhor professor do mundo. Isso não é pouco, convenhamos.

Eu sempre entendi – embora isso não seja consenso nacional, haja vista que aqui se improvisa professor – que ser professor demandava formação. Significa saber conteúdos – e não dá para dominar todos -, deter técnicas de ensino e aprendizagem, saber avaliar a aprendizagem dos alunos, resolver problemas, estimular a sociabilidade. Pensando bem, professor tem muito mais do que fazer do que simplesmente falar sobre um conteúdo, ainda que possa faze-lo de forma bem interessante, atrativa.

Khan fala para o mundo. Ele enche um “quadro negro digital” com imagens e palavras, enquanto fala.

A propósito, quando desenha no seu quadro-negro, usando o mouse, o resultado definitivamente não é dos melhores [clique na imagem ao lado, para ver o macaco que ele desenhou na tela da aula sobre evolução], Khan poderia usar imagens  prontas, como os nossos professores faziam com projetores de slides ou retroprojetores ou, hoje, fazem usando o Power Point; seria visualmente mais agradável.

Com sua monofonia, Khan repete a monotonia das velhas aulas.  Só não é monocrômico; usa mais de uma cor no seu quadro-negro.

Khan  coloca, no YouTube, o velho modelo de aula. A diferença é que, no caso dessa aula virtual, ele, o professor, não aparece. Aliás, seus – poucos – videos que vi me lembraram o locutor Lombardi do programa de TV do Sílvio Santos. Todo o Brasil , aos domingos, ouvia o Lombardi; mas ninguém o via.

No falar e no escrever no quadro negro  se resume o papel de professor adotado por Khan. Ele informa, não forma. E para muita gente ele revoluciona a educação, é o mais influente educador on-line de todo o mundo.

Por outro lado, temos hoje uma discussão ampla sobre a inadequação da aula que se baseia essencialmenta na fala do professor para alunos silentes e isolados, ainda que em um mesmo espaço físico. Para muitos a escola que se assenta exclusivamente nessa prática está com seus dias contados.

Temos crise na educação exatamente porque as aulas, verdadeiros monólogos docentes, são ruins. Os alunos se dispersam, não se concentram até porque os professores ainda não deram conta do ciclo de atenção dos alunos, dos diferentes estilos de aprendizagem que seus alunos têm.

Temos crise na educação porque os professores, no pular de escola em escola, em até três turnos de trabalho, na luta desesperada para garantir o mínimo para o sustento de si mesmo e da família, não têm tempo para planejar as atividades de ensino. Isso significa estabelecer objetivos para uma aula, buscar material de referência para ela, organizar formas de trabalho com os alunos. Pois é, para ser professor, a cada dia, é preciso planejamento, preparação, reflexão.

Em entrevista para a revista Time,  que o incluiu entre as 100 pessoas mais influentes do mundo, Sal Khan explicou como prepara cada uma das suas aulas em vídeo. Ele assume que não tem um script prévio, ou seja, falta o planejamento. Em suas próprias palavras, ele não sabe o que dirá metade do tempo. Khan afirma que sua rotina de preparo para as aulas se resume a buscas com o Google, o que lhe toma algo em torno de dois minutos de trabalho. Claro que nossos professores, em sua maioria, não têm sequer dois minutos para preparar cada uma de suas aulas. E talvez por isso elas sejam inadequadas, por isso vivemos crise na educação.

Achar que Khan é um grande professor é definitivamente um exagero. Ao contrário, eu diria. Khan na verdade perpetua, na internet, o professor que eu, ao menos, considero inadequado para o tempo em que vivemos. Colocar alunos em frente às telas de computadores ou tablets para ficar assistindo a velha aula expositiva a mim parece atraso. Se isso é a educação de qualidade, se isso é revolução no ensino, então definitivamente estamos voltando no tempo. É a tecnologia do futuro nos levando de volta para a sala de aula do começo do século passado. E, assim, fica a impressão de que definitivamente a educação não tem futuro, estaremos fadados a repetir sempre o passado, mesmo que incorporando uma tecnologia ou outra.

Pois não é sem razão que Karim Kai Ani, uma ex-professora de Matemática no ensino médio, alerta para algo muito importante. A experiência da Khan Academy e toda a sua repercussão acabam revelando um fato preocupante: ensino ruim na sala de aula significa “crise”, enquanto ensino ruim no YouTube é “revolução”.

Wordle do post:

Direitos autorais. Deve haver um limite.

07/06/2012

De cara, esclareço: não sou contra direitos intelectuais de propriedade. Afinal se um cara gastou tempo e “fosfato” para criar uma obra que seja – livro, artigo, escultura, pintura, filme – nada mais justo que ganhe dinheiro com isso. Afinal, isso representa trabalho e trabalho tem que se reumerado de alguma forma. E nada mais injusto que alguém ganhe dinheiro com a obra de terceiros sem a sua expressa autorização.

Às vezes vejo defensores “ardorosos” do copyleft – no Brasil são vários – que em tratam de assegurar os seus direitos autorais, p.e., sobre as suas músicas, enquanto, fazendo “blague”, defendem o “liberou geral” no que diz respeito à propriedade intelectual nas coisas dos outros. Copyright para eles, copyleft para as obras dos outros.  Toque, por exemplo, sua música e terá que pagar ao ECAD.

Mas não raro vejo os exageros.

Nesta semana postei aqui sobre um inusitado pedido de casamento feito por um jovem de nome Isaac. O pedido a Amy, a namorada, que eu usei como mote para falar de inovação foi registrado em um vídeo que estava – o verbo agora é passado – no YouTube.

O pedido de casamento foi feito “em cima” de uma música. Parentes e amigos de Isaac dublam a música, enquanto dançam ao som dela. A música era, por razões óbvias, a trilha do vídeo, seu background.

Vendo o vídeo do criativo Isaac, constatei que não conhecia a música. Usando os recursos de busca na Web, identifiquei a música e quem a gravou. Achei um vídeo – naqueles montados a partir de sequências de fotos do cantor – sobre a música.

O cantor era um desconhecido para mim. Tendo a supor que não seja “cantor de sucesso”, daqueles que “estouram a boca do balão”, alcançam os píncaros da glória no Billboard. Possivelmente se assim fosse eu teria ouvido falar dele antes, pelo menos é o que acho. Pelo que descubro, é cantor de um único álbum. Mas finalmente eu o conheci, ainda que isso vá fazer pouca diferença na minha vida, ou na dele.

No meu post, falando da inovação a partir de um pedido de casamento, inseri o vídeo. E me surpreendi quando hoje não mais pude vê-lo. O vídeo foi “tirado do ar” por razões de copyright.

Bloqueio no YouTube

Então pensei no Isaac. Pelo menos para mim – e suponho que para muitos outros – ele foi o divulgador daquela música. Se li o nome do cantor [que pode ser o autor da musica] foi por conta exclusiva de Isaac; ele me mostrou que essa música existia.

Isaac não deve ter ganho um cent sequer com aquele vídeo, com aquela música. Ao contrário, usando a música, Isaac pediu a Amy que se casasse com ele; isso é despesa na certa, que aumentará possivelmente quando o casal for abençoado com descendente(s). Então, se Isaac não auferiu vantagem financeira alguma – e pode ser que, se o casamento zebrar um dia, ele até amaldiçoe a música –  qual a razão dos detentores de direito autoral terem impedido que o vídeo continuasse sendo exibido no YouTube? Acho que eles deveriam até prestar uma homenagem ao pobre e comprometido Issac, por ter divulgado sua música. Se não fosse o apaixonado rapaz, eu e quase certamente uma multidão de outras pessoas jamais saberíamos daquela música, daquele cantor.

Pois é, aquele cantor, que era para mim um desconhecido, agora é um esquecido. Mas continuarei me lembrando de Issac, um “Romeu” moderno que inovou no pedido de casamento e usando os recursos das tecnologias digitais de informação e comunicação mostrou ao mundo seu amor por Amy.

Alguém dirá que esse post nada tem a ver com escola. Mas tem si. O uso de recursos como imagens e sons disponíveis on-line pode estar ameaçado por conta de direitos autorais quando queremos estimular nos alunos o uso da Web 2.0, como espaço para, usando sua criatividade, mostrarem o que aprenderam, serem contadores de histórias e estórias, revelarem como vêem a vida, a escola, o mundo. O uso de recursos sem qualquer benefício pecuniário por parte daquele que dele lança mão não deveria ser impedido em nome de direitos de propriedade.

Nesse momento, no Brasil, uma comissão de juristas discute uma revisão do anteprojeto do Código Penal. Falam em aumentar as penas pela violação de direito autoral e pirataria. Mas é importante que vejam um outro lado da questão. Resta esperar que os juristas e, depois, os congressitas que aprovarão a lei tenham o bom senso necessário para lidar com a questão. Se houver sensatez, todos ganharão.

O plágio nos trabalhos acadêmicos

27/07/2010

O plágio, palavra que etimologicamente deriva do latim plagiu, é o ato de alguém apresentar com sendo de sua autoria uma obra de qualquer natureza que contenha partes de uma que pertença a outra pessoa sem fazer o dévido crédito do autor original. Portanto, “o plágio se caracteriza pela apropriação de idéias ou palavras de outrem sem o devido crédito” (JARDIM, 2009), mesmo que ainda sendo um uso acidental. Em resumo, o plagiador se apropria, de forma indevida, da intelectual de outra pessoa, fazendo-se passar por seu autor, toma prá si o que é de outro.
O plágio nos trabalhos escolares, da Educação Básica até mesmo à Pós-graduação stricto sensu, virou como que uma rotina. E não que os “copiautores” sejam novidade. Afinal, como brinco ainda que a questão seja séria, a Enciclopédia Barsa já foi uma espécie de “ghost- writer” de muito estudante.
Mas, evidentemente que com a internet, que ampliou exponencialmente as fontes de informação, e com o buffer do teclado dos computadores, que permite o CTRl+C e CTRL+V, essa prática tornou-se quase uma praga, um problema com o qual professores têm que lidar em sala de aula quase cotidianamente.
A questão do plágio na escola passa por vários aspectos. Desde um debate ampliado sobre aspectos éticos e direitos de propriedade intelectual até mesmo pelo fato de que muitos professores solicitam aos estudantes trabalhos que na verdade não lhes constituem desafios, ao abordarem questões que estão disseminadas e sobre as quais textos estão disponíveis.
Penso que uma forma de reduzir a possibilidade do plágio está em trazer o tema que será abordado no trabalho para o contexto da sala de aula, para questões que surgiram no contato cotidiano dos professores e alunos.
Outra estratégia, possível em um TCC, uma monografia, dissertação ou tese, está no acompanhamento periódico da produção do aluno pelo professor orientador. A chegada rápida de um texto completo, que não reflita os diálogos frequentes entre orientador e orientando, deveria colocar o primeiro com pulgas “atrás da orelha”.
Meu convencimento, é claro, é que nada impedirá o plágio, ainda que existam hoje vários software para sua detecção, nem sempre usados porque onerosos para os professores e muito raramente “bancados” pela escola, ao menos na realidade brasileira.
Por outro lado, para facilitar a disseminação do plágio existe hoje uma verdadeira “indústria da produção de trabalhos escolares” – com anúncios na internet vendendo a elaboração de textos para que não tem tempo ou mesmo competência para fazê-lo ou ainda oferecendo milhares de textos prontos. E, não raro, aquele que os encomenda nem sempre tem o cuidado – ou o tempo necessário – para verificar se o trabalho, produzido por outro como se fosse seu, não é na verdade o plágio da obra de um terceiro.
Plágio é questão séria, com a qual a maioria das escolas ainda lida mal.
Mas plágio, ainda que sério, é motivo para um divertido vídeo [Et Plagieringseventyr, original norueguês disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=Mwbw9K] que, com a valiossísima colaboração da professora Lorena Tárcia,  legendamos em  português.

WebQuest: um uso inteligente da Internet na escola

19/01/2010

Continuo resgatando alguns textos publicados no meu extinto site Educ@re [algumas web pages do velho site estão armazenadas no Internet Atchive Wayback Machine], nos quais tratava de questões relacionadas às tecnologias digitais na escola. Abaixo está o editorial que ali publiquei em outubro de 1999.


Em 1995, Bernie Dodge, professor de tecnologia educacional da San Diego State University (SDSU), nos Estados Unidos, desenvolveu um formato de lições baseadas na WWW (World Wide Web). Suas idéias iniciais estão disponíveis no artigo Some Thoughts About WebQuests, que posteriormente foi publicado em The Distance Educator.

Naquele artigo, Dodge definia um WebQuest (que em português pode ser entendido como Busca ou Aventura na Web) como sendo:

.. uma atividade orientada para a pesquisa na qual algumas ou todas as informações com as quais os estudantes interagem vêm de fontes na Internet.

Desde então, a noção de WebQuest foi adotada e adaptada por professores dos mais diversos lugares, especialmente nos Estados Unidos. 

O WebQuest vem sendo reconhecido como uma opção valiosa quando se pretende integrar a Internet de forma produtiva na escola, como apontado no artigo Integrating the Internet into the Curriculum: Using WebQuests in Your Classroom, e para promover a chamada alfabetização tecnológica na sala de aula, com destaca Kenneth Lee Watson no artigo WebQuests in the Middle School Curriculum: Promoting Technological Literacy in the Classroom, publicado em Meridian, um periódico on-line.

É ainda reconhecido como uma ferramenta construtivista, como aponta o WebQuest desenvolvido por Jim Andris, da  Southern Illinois University, que tem o título de “WebQuest as a Constructivist Tool“.

Um artigo recente de Maureen Brown Yoder, The student WebQuest, publicado no volume 26/número 7 da revista Learning and Leading with Technology, da   ISTE – International Socitety for Technology in Education, além de trazer alguns exemplos interessantes de WebQuests , mostra a utilidade desse recurso pedagógico, um uso da Internet produtivo e provocativo da reflexão.

Kathy Schrock, de Massachusetts (USA), ensina seus alunos de Pós-graduação a organizar um WebQuest e desenvolveu um excelente slide show para explicar o conceito e as principais características.

Aulas e seminários sobre WebQuest estão se espalhando para todos os lados.

O site The WebQuest Page [A página do WebQuest], organizado por Bernie Dodge, traz várias informações úteis para quem quer entender mais sobre essa forma de utilização da Internet na escola.

Quando planejava um curso que estarei ministrando em breve, utilizei os sites de busca da Internet para encontrar WebQuests em língua portuguesa. Lamentavelmente não encontrei registros de uso dessa estratégia no Brasil. É uma estratégia que, assim penso, deveria estar merecendo atenção dos educadores no momento em que tende a se ampliar o uso do computador e da própria Internet na escola.

Por isso mesmo, decidi abrir uma seção no Educ@re para a publicação de WebQuests em língua portuguesa.

A  coleção está disponível em: http://www.gcsnet.com.br/educare/ed380000.html [hoje, em 2010, esse link não está mais funcionando]

Já estou disponibilizando um primeiro WebQuest na nova seção do Educ@re. Trata-se de “Um WebQuest sobre WebQuests“. Eu estarei utilizando esse WebQuest num curso sobre o uso educacional das novas tecnologias da informação que estarei ministrando no dia 20 de novembro próximo para professores, no Colégio Nossa Senhora das Dores, em Belo Horizonte.

Todos aqueles professores que quiserem publicar seus WebQuests poderão nos contactar. Estarei esperando pelas críticas ao meu WebQuest e por novos WebQuests que possam ser úteis a outros professores.

Internet na escola

18/09/2009

O excepcional avanço no uso Internet, notadamente nos últimos dois anos, vem demonstrando claramente os impactos que ela pode provocar – e de maneira geral vem provocando – em diversos setores de uma sociedade globalizada. No Brasil o número de usuários da Internet aumenta de maneira expressiva.

A “navegação” pela WWW (Wide World Web), seja para comprar, procurar emprego ou simplesmente se informar, e o correio eletrônico ocupam cada vez mais tempo no cotidiano de famílias das classes média e alta. Adultos, adolescentes e até mesmo crianças começam a usar a Internet de uma forma tão natural como ligar o rádio ou a televisão na busca de informação e entretenimento. Em tal cenário, é bastante razoável imaginar que essa tecnologia possa trazer impactos relevantes na educação.

oamis_computadorNesse mesmo tempo a escola ainda se vê desafiada para incorporar o computador nos processos de ensino-aprendizagem de uma forma que efetivamente agregue valor ao processo educacional. Pais e alunos, movidos principalmente pela lógica da empregabilidade, demandam da escola o uso do computador. A concorrência leva também à informatização das escolas: “Se a escola concorrente usa o computador, a minha escola tem que fazê-lo” pensam os diretores, muito embora não se ocupem em avaliar a qualidade e adequação desse uso. Enquanto isso a escola ainda permanece um pouco perdida no como usar essa tecnologia. São várias as razões, que vão desde o despreparo dos seus professores para um uso inteligente dessa tecnologia até a carência de bom software de uso educacional.

De repente, como se encontrasse uma solução mágica, a escola passou a ver na Internet uma possibilidade de uso mais imediato do computador nos processos de aprendizagem.

Mas o que é a Internet?

Sem considerarmos que talvez seja o “maior depósito de lixo” já criado pelo homem, a Internet deveria ser vista por dois prismas, se quisermos destacar bem suas funções. De um lado, ela funciona como uma grande biblioteca, oferecendo informação das mais diferentes formas e da mais variada qualidade. Por outro lado ela se torna um grande caminho de comunicação entre pessoas e, não seria exagero afirmar, uma estratégia que vem resgatando a comunicação escrita (embora o uso exagerado dessa forma de comunicação já comece a reduzir o contato entre pessoas)..

Olhemos para a biblioteca e a escola.

oamis_estudante_3Uma biblioteca tem seu valor, que é inegável, nos processos de aprendizagem. Mas não basta que ela esteja presente ou acessível; é preciso que o aluno saiba como usá-la. E isso significa não só saber como acessar o que ali está colecionado, mas principalmente selecionar o que ali está colecionado, sabendo de sua adequação à tarefa de escola e de aprendizagem. Portanto, o aluno precisa aprender a usar a biblioteca antes de o fazer. Esse ensinar a usar é uma tarefa da escola num processo de formação do aprendiz.

Da mesma forma, ao simplesmente determinar ao aluno que vá à Internet e busque ali um ou outro texto a título de elaborar uma “pesquisa”, os professores e a escola poderão estão incorrendo em um grande engodo: estarão, mesmo que sem querer, iludindo os alunos – e até mesmo seus pais – ao fazê-los acreditar que isso é um uso adequado do computador na escola. E sem nos esqueceremos de que se dará ao aluno uma grande chance de lograr seus próprios professores já que os recursos dos browsers lhe permitem, com operações de copiar e colar, fazer com que passem como seus os textos de outros. Estarão se produzindo textos que são meras colagens, onde o único exercício do aluno será o manuseio do mouse ou do teclado, ao invés do exercício da capacidade intelectual.

Um outro potencial do uso da Internet na escola está na comunicação através do correio eletrônico e de outras formas (teleconferência, chat e outras).

No caso do correio eletrônico tem-se uma forma de comunicação assíncrona (os interlocutores não precisam tratar as mensagens no mesmo momento) e imediata (a transferência das mensagens é instantânea). E a comunicação é principalmente barata, já que se fala com o mundo ao custo de ligações telefônicas locais. É portanto uma possibilidade valiosa.

Mas acreditar que é simples esse uso da Internet na educação é outro grande equívoco.

Primeiro o aluno deverá estar preparado para essa comunicação. O aluno tem que saber o que, quando, como e com quem se comunicar. Prepará-lo para isso é uma tarefa prévia da escola para que os alunos não corram de despender tempo e energia com comunicações que em nada contribuirão no seu processo de escolarização.

Com certeza a Internet pode ser uma valiosa ferramenta para a escola. Mas mesmo com ela (ou talvez até mesmo por causa dela) a escola ainda terá o desafio de contar com professores preparados para estimular uma utilização de forma adequada e capazes de planejar tarefas de aprendizagem que possam estar eficientemente ancoradas nesse recurso.

Acreditar que a Internet chegará para a escola como a solução pronta e acabada para resolver o problema do uso do computador é uma ingenuidade que professores, diretores e técnicos educacionais não podem se permitir.

Simão Pedro P. Marinho, em abril de 1999