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Distante da solução

27/05/2017

A realidade da falta de professores no Brasil é inconteste. A necessidade de buscar uma solução é imperiosa, ainda que as perspectivas sejam nada animadoras. Afinal, a carreira é desvalorizada, social e salarialmente, as salas de licenciaturas tornam-se desertos e os poucos que se licenciam vão procurando (ou mantendo-se em) ocupações profissionais que passam longe da escola. Não raro fica a sensação de que o exercício do magistério ficará para aqueles que não conseguirem uma alternativa profissional. Em síntese, um problema complicado que exige quase que malabarismos para a sua solução.

hlmenckenPara todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada“, alertou o jornalista e crítico social estadunidense Henry Louis Mencken,

Uma solução simples e completamente errada vislumbro no Decreto 9057/2017, de 25 de maio de 2017, do Presidente da República,  no qual se ampliam as possibilidades de adoção da educação a distância no Brasil.

A LEi 9394/96, das Diretrizes e Bases das Educação Nacional, de 20 de dezembro de 1996, no  § 4º do Art. 32 da Lei
considerava a possibilidade de oferta de educação a distância no Ensino Fundamental em situações emergenciais. O Decreto 9057/2017, em seu Art. 9o. criou a possibilidade da educação a distância nas séries finais do Ensino Fundamental, do 6o. ao 9o. ano, em situação de falta de professores.  Patético, no mínimo! Até porque essa falta de professores será na escola pública, pois na particular, que cobra mensalidades dos alunos, não haverá carência de professor.

Se faltam professores, ora bolas, faltam educadores, falta educação. Ou o pessoal lá do Planalto e cercanias pensa em fazer EaD sem professor, só com máquinas, robôs, chatbots (que ainda é coisa típica do comércio eletrônico e de outras empresas no relacionamento com clientes) ?

Ou, quem sabe, o esquema é lascar videoaulas nos alunos? De onde os estudantes as assistirão, de casa? Mas será que todos têm acesso à internet?

Mas de casa, penso melhor, deve ser pouco provável. Afinal, pode ser que faltou o professor que dê a aula do segundo horário. Neste caso, como os estudantes deverão esperar o terceiro horário, para que tenham aula por EaD na falta de professor, é provável que a escola tenha que amontoá-los no laboratório de informática, se houver, ou em uma sala de aula com um projetor multimídia e acesso, à internet, se houver.

Tudo isto me preocupa. Mas o que me deixa mais encucado é qual é realmente a finalidade desta decisão. Melhorar a educação oferecida na escola pública? Não ´posso acreditar nisto! Por trás dessa malfadada decisão, podem estar interesses de grandes grupos educacionais, verdadeiros tubarões, prontos para vender soluções, pacotes de EaD, videoaulas. Se for isso mesmo, mais patético ainda será o Art. 9o. do Decreto 9057/2017.

O Decreto 9057 muda outras coisas na EaD, notadamente no Ensino Superior, que também me provocam preocupações. Oportunamente, em outro post, comentarei sobre isto.

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Observação. No dia 30 de maio, depois de todo um alvoroço provocado, frente à realidade de uma avalanche de críticas vindas daqueles que trabalham e pesquisam no campo da Educação, sob a alegação de “erro material” na redação do documento (acredite, se quiser!) o Governo Federal recuou e reeditou o Decreto 9057/2017. Da nova versão, foi retirada a alínea do Art. 9o, que permitia que o déficit de professores fosse resolvido (?) com aulas na modalidade a distância. Clique aqui para ver o Decreto 9057/2017 na integra.

 

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