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Nativos digitais. Verdade ou mito?

16/12/2011

Em 2001, em artigo publicado no periódico On The Horizon, sob o título “Digital Natives, Digital Immigrants”, Marc Prensky introduziu o conceito de nativos digitais, contrapondo-o ao de imigrante digital.

Pode-se dizer que esse nativo digital é, basicamente, o indivíduo da net-generation, a geração net, caracterizada no livro “Growing up digital” de Dan Tapscott, publicado em 1997 e traduzido, no Brasil, sob o título de “Geração digital – a crescente e irreversível ascensão da Geração Net”. Os nativos seriam os chamados “millennials”.

Por outro lado, haveria os imigrantes digitais (non-millennials), indivíduos que, ainda que não sejam necessariamente luditas, que não saiam por aí quebrando computadores, seriam incapazes de aprender e ensinar como os nativos.

Em seu artigo, Prensky discutiu a necessidade dos professores, que seriam imigrantes digitais, reformularem suas metodologias, suas práticas em sala de aula. Sustenta essa posição sob a alegação de que os professores não teriam perícia suficiente para lidar com as tecnologias digitais.

Dan Pontefract, em post recente no seu blog Trainingwreck, considera que embora esses “nativos” possam ser mais espertos do que os indivíduos da geração que os antecedera, os filhos da geração Baby Boomer, necessariamente não preferem aprender de uma forma totalmente digital. No post, que tem o título The Fallacy of Digital Natives, Dan Pontefract considera que os indivíduos mais  velhos, aqueles que seriam pois imigrantes digitais, podem estar usando usando a tecnologia para alterar os  seus estilos de aprendizagem da mesma forma. Dan Pontefract é bastante enfático:  aprendizagem e tecnologia nada têm a ver com o fosso geracional.

De forma similar, Siva Vaidhyanathan, em um ensaio sobre  o mito das gerações [Generational Myth], destaca que nem todas as pessoas mais jovens são experts em tecnologia. E é enfático: não existe essa coisa de geração digital.

Em artigo publicado, em 2008, no British Journal of Educational Technology, Sue Bennett, Karl Maton and Lisa Kervin chamam a atenção para o fato de que, embora os chamados “Millennials” vivam cercados por tecnologia, como outras gerações, sua utilização para a aprendizagem não é uniforme. Segundo os autores, não haveria evidências de um estilo de aprendizagem muito diferente do que se viu antes.

Uma pesquisa recente, realizada na Open University, na Inglaterra, sobre o uso de tecnologias por estudantes mais velhos, na educação a distância, pode contribuir para derrubar as ideias de Prensky e Tapscott.

A pequisa revela que, ainda que existam diferenças marcantes entre as pessoas mais velhas e as mais jovens, não há qualquer evidência de uma clara ruptura entre essas duas “populações” separadas.

É importante chamar a atenção para o que eu consideraria um risco embutido nos conceitos propostos por Marc Prensky, ao delimitar nativos e imigrantes pela faixa etária. Notadamente no caso do Brasil, são muitos os jovens que não crescem como nativos digitais, embora o devessem ser pela idade.

Há claramente um fosso, por oportunidades econômicas e sociais, que separa indivíduos que estariam em uma mesma categoria, a dos nativos, aqueles que viveriam praticamente imersos em um  mundo digital, parecendo sempre conectados com seus iPhones, iPods, tablets, comunicando-se através do MSN, Facebook, e outros que estão distantes dessa realidade.

Se olharmos com cuidado, veremos que os nativos digitais constituem uma elite de jovens e crianças. E não só na sociedade brasileira.

Por outro lado, não será a idade que definirá de forma absoluta os tipos, nativos ou imigrantes. Existem pessoas que, pela idade, seriam imigrantes – dentre elas, eu – mas que dominam as tecnologias digitais não raro em um plano que podemos dizer superior ao de muitos que são considerados nativos.

Por isso, me seduz mais a proposta de John Palfrey e Urs Gasser, em seu livro “Born digital: understanding the first generation of  digital natives” [no Brasil, o livro foi publicado pela Artmed, com o título “Nascidos na Era Digital: entendendo a primeira geração de nativos digitais“. A tradução foi revista e comentada pelo meu particular amigo, Paulo Gileno Cysneiros] de ver os nativos como populações, ao invés de gerações.

O importante nesse caso é que, de forma diferente da proposta de Marc Prensky ou daquela de Dan Tapscott, não seria  a data do nascimento o determinante do que consideraremos nativos, e, por decorrência, imigrantes.

Como alguém que se considera um usuário ativo e com bom domínio das tecnologias digitais de informação e comunicação, me sinto mais à vontade em não ser tido como um “imigrante digital”, o sujeito que terá que aprender toda uma nova cultura, apenas porque nasci em 1949, logo depois da II Guerra Mundial, bem antes dos anos 1980.

Independente disso, entendo que existem algumas questões que precisam ser trazidas para o debate, em especial para os espaços onde se formam professores, seja na graduação, seja na pós-graduação, seja na educação continuada. Exatamente porque se proclama uma necessidade imperiosa de mudança radical [seria disruptiva?] da escola para atender os nativos digitais.

  • Há de fato esse fosso tão marcado entre nativos e imigrantes?
  • Poderia o reconhecimento dessa diferença servir como uma desculpa de professores para não integrarem as tecnologias digitais em suas práticas?
  • Mas, se de fato existe esse fosso, como fazer com que os professores “imigrantes digitais” possam incorporar as tecnologias em suas práticas cotidianas em sala de aula?
  • Os professores se escorarão nessa diferença, entre nativos e imigrantes, para permanecerem “Inativos digitais” em salas de aula?
  • Como, em suas salas de aulas, os professores, “imigrantes digitais” e que, portant0,  não seriam  muito afetos às tecnologias digitais, ensinarão seus alunos, os “nativos”?
  • Teremos que esperar que uma nova geração de “professores nativos” chegue à escola para dar conta do desafio da mudança? E até lá, como ficamos?
  • De que forma os cursos de formação inicial, cujos corpos docentes estão essencialmente formados por “imigrantes digitais”, prepararão as futuras gerações de professores?
  • Os “imigrantes digitais” farão acontecer a inovação pedagógica que se ampara também em tecnologias digitais de informação e comunicação?
  • Enquanto isso, como fica a escola? No passado, ainda que sempre na promessa do futuro?

Portanto, nos lancemos ao debate.

O debate é mais do que  necessário, aqui e agora, porque mais e mais ações de políticas públicas avançam na compra de laptops para estudantes de escolas públicas, enquanto se inicia um movimento de aquisição de tablets para usos por alunos.

O debate é mais do que necessário, até para que desktopslaptops e tablets não sejam apenas apelo de marketing ou venham a significar recursos públicos desperdiçados.

[Baseado em posts publicados no blog Educação & Tecnologias, da disciplina “Educação e tecnologias da Informação”, do Programa de Pós-graduação em Educação da PUC Minas].

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Wordle deste post.

Wordle: Nativos digitais. Verdade ou mito?

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