Archive for the ‘Professores’ Category

Aluno virtual

11/06/2014

Essa é a mais nova versão do vídeo que organizei para os alunos na disciplina Tecnologia e Práticas Educativas, sob a minha responsabilidade na PUC Minas Virtual.

A disciplina é oferecida  para alunos de licenciaturas do Instituto de Ciências Humanas da PUC Minas. Para a maioria deles, a disciplina é a  primeira experiência em EaD.

E fica possível imaginar os problemas com os quais me defronto na condução da disciplina, quando nela estão envolvidos estudantes “cultivados” na sala de aula de tijolos.

Essa é a terceira versão do vídeo. A cada semestre de experiência concreta na disciplina, vou encontrando pontos a serem acrescentados na versão anterior.  Então existe a possibilidade de ter que produzir um vídeo a cada semestre? Tendo a crer que sim.

Professores no Brasil – desafinos e desafios

04/08/2013

Em um encontro recente com aproximadamente mil secretários municipais de educação, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, arrancou aplausos ao afirmar que “Não dá para formar um professor só lendo Piaget.”

Formação de professores no Brasil é coisa séria, como qualquer questão relacionada à educação.

Formação de professores no Brasil é coisa preocupante, como qualquer questão relacionada à educação nacional.

O distanciamento entre a formação e a realidade da escola brasileira é gritante. Não porque não se requeiram estudos teóricos, incluindo as teorias de Jean Piaget. Mas em geral se esquece de ensinar como se leva alguém a aprender. Teorias são essenciais, mas jamais serão suficientes para preparar qualquer professor para qualquer realidade de escola, ainda mais as nossas públicas com suas carências cantadas e decantadas.

Hoje a Folha de São Paulo trouxe um caderno especial que merece ser visto por professores e por professores que formam professores. O título do caderno especial é “Quem educa os educadores?”.

O caderno é acompanhado de matérias que mostram a formação vem sendo feita com muita teoria e pouca prática. E, pior, a formação fica muito distante da realidade da escola. Depois, quando o novo professor chega a essa escola, o susto, o sentimento de despreparo e muitas vezes o abandono da função.

Essa constatação do distanciamento do que de ensina na formação inicial de professores e a realidade da escola me lembra duma pesquisa, que realizei com apoio do CNPq e concluída há quase 10 anos, sobre uso de tecnologias digitais na formação inicial de professores. Dos professores de licenciaturas que participaram dessa pesquisa, apenas 26,9% disseram que a maioria das licenciaturas conhece a realidade da escola da Educação Básica no Brasil. Para quase metade deles (42,9%) essa realidade é desconhecida nas licenciaturas. Ou seja, muitas licenciaturas formam para uma escola que não existe, que pode estar apenas no imaginário – ou no desejo – de seus docentes.

Os aspectos apontados nas matérias e no Caderno Especial do jornal Folha de São Paulo reforçam os achados de uma pesquisa conduzida pela professora Bernardette Gatti e publicados, em 2009, pela UNESCO, no documento “Professores do Brasil: impasses e desafios“.

O que se pode concluir é que pouca ou nada se alterou no quadro da formação (inicial) de professores. Possivelmente de novo apenas os dados que revelam a redução – que se acelera  – na relação candidato/vaga nos exames de ingresso para cursos que formam professores, seja em instituições públicas, seja em particulares e confessionais, o esvaziamento progressivo das salas de aulas das licenciaturas e o abandono da função docente a falta – que se acentua – de professores para nossas escolas da Educação Básica.

Piso salarial baixo, ainda que muitos governantes o achem elevado e busquem não o pagar, condições de trabalho muitas vezes degradadas, risco à integridade física são alguns elementos que tiram professores da escola e que fazem esvaziar a fila dos que querem ingressar em uma licenciatura. A continuar assim, o problema do Brasil não será como formar professores, mas a quem formar.

Formação (des)continuada

03/06/2012

Há poucos dias, acometido por dores muito fortes nas costas, tive que recorrer na urgência a um ortopedista. Era uma quarta-feira. Ele me encaixou entre outras consultas agendadas e me atendeu. Concluído os exames, me solicitou que fizesse uma ressonância magnética e voltasse com o resultado até na sexta-feira. Tanta urgência soava como um alerta de que o meu problema podia ser sério – como na verdade se confirmou. Mas a pressa do médico era maior porque no sábado viajaria para Berlim, onde aconpanharia – como faz com regularidade – o congresso europeu de ortopedia e queria me ver antes de viajar.

Conversamos um pouco sobre esse hábito de estar em congressos. Ele alegou que é o momento de atualizar-se no que diz respeito a diagnóstico e planos terapêuticos. É o momento em que tem a chance de colocar-se “up-to-date” na sua especialidade, ainda que em muitos casos um determinado equipamento ou um novo medicamento que serão exibidos em um evento levem algum tempo para estar disponíveis no Brasil.

Ali estava um ortopedista com experiência, uma clientela consolidada – tente agendar uma primeira consulta com ele e terá que esperar uns noventa  dias – que conscientemente busca com regularidade atualizar seu saber. Ele fez a fama, mas não deitou na cama.

A, digamos, cultura da formação continuada, não apenas restrita a cursos com certificação, é forte nos profissionais de saúde. Ainda bem, para nós, seus  pacientes. Afinal, nenhum de nós ficaria satisfeito com um médico fazendo diagnóstico e propondo plano terapêutico que aprendeu na escola de medicina há 30 anos e que vem repetindo por décadas. Certamente lidaríamos, enquanto pacientes, com receio com um médico que ainda não tivesse incorporado em suas práticas os diagnósticos com base em novas tecnologias, como a ressonância magnética ou a tomografia computadorizada. Em síntese, seguramente nos sentiríamos inseguros se estivéssemos, no século XXI, sendo atendidos por médicos com práticas do século XIX ou do início do século XX. Nada mais tranquilizador para cada um de nós que saber que os profissionais de saúde que nos atendem, em especial os médicos a quem confiamos de alguma forma nossa vida, se atualizam, buscam praticar o saber mais contemporâneo na sua profissão.

Imediatamente pensei na formação continuada de professores. Já observaram como de maneira geral os professores evitam-na? A menos que seja uma formação certificada que representará alguma vantagem na sua remuneração, um adicional por um titulo ou certificado, na sua expressiva maioria os professores não querem saber de estudar para se tornarem “up-to-date”. E, na segunda década do século XXI, continuam em salas de aulas com práticas do final do século XIX, início do século XX.

Nos congressos na área de educação, para a minha tristeza, praticamente não vemos professores da Educação Básica, a não ser que sejam alunos de Mestrado ou Doutorado. Esses congressos parecem restritos a professores do ensino superior e pessoal da pós-graduação embora, de maneira geral,  estimulem, principalmente com uma taxa de inscrição menor, a presença dos professores da Educação Básica.

É verdade que nesses congressos muitas vezes os assuntos tratados se perdem na discussão teórica e pouco ou nada trazem do que possa transformar a sala de aula, contribuir para a mudança nas práticas pedagógicas. Mas, ainda assim, valeria a pena que os professores da Educação Básica ali estivessem. De alguma forma teriam a possibilidade de atualizar saberes.

Se os professores não entendem os congressos ou eventos semelhantes como mais um espaço ou momento para a sua formação continuada, ainda lhes restariam os cursos, oferecidos principalmente nas redes públicas de educação. Mas a maioria dos professores não quer fazer tais cursos. Podemos pensar que são preguiçosos, ao menos para aprender, ou que estão convencidos de que já sabem tudo que precisam para fazer seu trabalho na escola, que nada de novo há por aí que possa ajudá-lo na desafiante tarefa de formar gente. Certamente nenhuma dessas hipóteses é confortante, qualquer uma compromete, pois seria ousadia pensar que todo profissional precisa atualizar conhecimentos, exceto os professores.

Por outro lado, quando olhamos catálogos de cursos na formação continuada de professores da Educação Básica, vemos que em parte expressiva eles cuidam dos conteúdos que os professores deveriam estar ensinando, não de formas alternativas, modernas de fazê-lo. Assim, por exemplo, pretende-se ocupar um tempo da semana do professor de Matemática ensinando-lhe Matemática. Ou seja, reprisam-se conteúdos que deveriam estar “dominados” pelos professores. Ensina-se o que ele deveria ter aprendido na licenciatura, conteúdo que absolutamente em nada se alterou em séculos, milênios, para iniciar a carreira docente, para dar a sua primeira aula.

Volto agora ao meu ortopedista. Fico a imaginar se ele fosse para um congresso, na Europa, França e Bahia [era esse o título de uma coluna em um jornal da minha cidade] ou se dedicasse, nas sextas à noite e nos sábados, ainda que com todo o afinco, com a maior dedicação do mundo, a fazer cursos de formação continuada ou de atualização para estudar  – de novo – a Anatomia ou a Fisiologia que deveria ter aprendido nos primeiros anos do seu curso de Medicina. Se eu soubesse que ele anda fazendo isso, com certeza trataria de procurar imediatamente outro especialista. Seguro, morrerei de velho.

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Viva o atraso.

11/05/2012

Uma notícia do jornal El Periòdic d’Andorra dá conta de que a demissão de uma professora da escola Espanyola d’Escaldes-Engordany, no principado de Andorra, teria sido recomendada porque ele “ensina demais” aos seus alunos. Um inspetor escolar, vindo de Madrid, constatou que seus alunos, de 4 anos de idade, já sabiam ler, estavam começando a escrever e podiam fazer contas de somar e subtrair . O inspetor considerou, em seu relatório, que o ensino utilizado pela professora era muito desenvolvido e não correspondia ao currículo de uma escola pública do país. Isso foi motivo suficiente para que recomendasse a demissão da professora e seu regresso à Espanha. Suspeito que para o inspetor madrileño o mínimo a ser ensinado coincide exatamente com o máximo. Os pais se mobilizaram para assegurar a permanência da professora.Por enquanto conseguiram que ela fique na escola até o final do ano letivo, em setembro próximo. Mas insistirão para que continue depois disso. Evidentemente que ler uma história dessa, por mais que nos deixe pasmos, nos remete para a situação da educação brasileira. Aqui os professores de escolas públicas, passado o chamado período probatório – onde estariam sendo postos à prova, resta saber a quem e  como – têm a sua estabilidade garantida até a aposentadoria, a menos que se vejam envolvidos em crime ou algo sério que motive uma ação das corregedorias. Aqui professores que nada ensinam permanecem nas escolas por 25, 30 anos, sem que jamais sejam incomodados, punidos, muito menos demitidos. Por outro lado, imagino que aqui no Brasil dificilmente um inspetor ou uma inspetora estaria na escola comprovando que o ensino que ali se pratica é adequado ou não para a realidade da rede pública. E independente do que constatassem, possivelmente jamais poderiam “demitir” professores. São como “vacas sagradas”, ninguém os toca. Pois é, se a professora de Andorra atuasse em escola pública brasileira há mais de 3 anos estaria com seu emprego garantido. Mas, convenhamos, também estaria garantida se nada ensinasse, se seus alunos de 14, 15 anos ainda não soubessem ler, escrever, fazer as contas. Estaria garantida se fizesse de conta que ensina.

Em tempo, porque certamente serei “massacrado” por comentários com relação a esse post.  Fui professor de escola pública por alguns anos. Sou casado com professora de escola pública que também não entende uma estabilidade a troco de nada, estabilidade que só teria sentido se o professor mostrasse – em processos de avaliação permanente e séria – que faz um trabalho de qualidade.

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Profissão docente. Coisa prá poucos, muito poucos.

31/01/2010

Como diz Gilberto Dimenstein, em sua coluna hoje na Folha de São Paulo, não é de se admirar que muitas vagas nos cursos  de Pedagogia e das licenciaturas não sejam preenchidas. O cenário da educação brasileira, notadamente a pública, não anima jovens a seguirem a carreira de professor.  Ainda assim, o MEC insiste em licenciaturas a distância, oferecendo milhares de vagas – como se falta de vaga fosse a razão da falta de professores em salas de aula – ainda que especialistas reprovem essa formação. Com uma ou outra exceção – claro, sempre há exceções – a profissão docente acabará sendo o caminho quando nenhum outro mais restar. E daí vem novo problema, uma ameaça à qualidade educacional que se busca, ao menos no discurso: os futuros professores acabam sendo recrutados dentre alunos com piores notas na Educação Básica, em sua maioria absoluta egressos da escola pública, a da progressão/promoção automática. Portanto não cabe surpresa alguma quando quase metade dos professores é reprovada [por não alcançar apenas 50%, não os 60% de rendimento usualmente exigidos na maioria das escolas] em uma prova que versou sobre os conteúdos que deverão [sim, alguns estarão em salas de aula, ameaça a Secretaria de Educação de São Paulo] ensinar. Uma pesquisa idealizada pela Fundação Victor Civita e realizada pela Fundação Carlos Chagas junto a concluintes do Ensino Médio mostra como a carreira do magistério em nada atrai os futuros alunos do ensino superior; apenas 2% deles querem ser professores. Quando se oolha para os alunos das escolas particulares, a “nata”, esse índice chega a praticamente zero. É interessante ver, na pesquisa, que um terço dos alunos pensou em ser professor. Mas logo, logo desistiram, antes mesmo do vestibular. Os motivos? Falta da valorização profissional, salários baixos e rotina desgastante. Assim, decidem ser advogados, médicos e engenheiros. É o Brasil Colônia que se mantém. Distante do tempo em que seremos de fato uma nação para se orgulhar. Isso acontecerá no dia em que novamente perguntarem a  jovens o que querem ser quando crescerem e uma boa parte deles, quem sabe a maioria, disser orgulhosamente: Professor.

A versão preliminar da pesquisa “Atratividade da carreira docente no Brasil” está disponível on-line. Basta clicar aqui para ter o documento em arquivo PDF.

As  imagem são do blog”Crescer dá trabalho” e do UOl/História Viva