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Deu febre? Troque o termômetro.

29/08/2012

Em março último, estive em Brasília,  convidado para participar de um evento organizado pelo MEC, cujo tema eram as tecnologias móveis na educação. Na programação do evento, constava uma reunião de trabalho com o Ministro da Educação, Aloisio Mercadante.

Caminhava no MEC um processo de compra de tablets para serem distribuídos em escolas públicas, projeto gestado sob a égide do ministro Fernando Haddad. Eu jamais soube o que de fato o MEC pretendia com os tablets, em número de 600 mil. Para quem seriam distribuídos, em quais escolas, com quais finalidades além da, digamos, levar as escolas a, digamos, mais recente novidade do mundo das tecnologias digitais,  objeto de desejo, sonho de consumo de jovens ou não tudo era uma espécie de mistério. Me permiti imaginar que a proposta dpoderia seguir o Projeto Um Computador por Aluno, UCA, com os tablets sendo entregues a professores e alunos de algumas escolas, previamente selecionadas, em experimentos-piloto.

Pelo que então ouvi, pessoalmente, do Ministro Mercadante, não pude concluir que o que se pensava no MEC, até 2011. O mistério continuava. Mas o ministro deixou claro o que pretendia: distribuir tablets para professores do Ensino Médio público.  Naquele momento, justificou esse caminho sob a alegação de que o Ensino Médio necessitava de uma atenção especial do MEC enquanto política pública. Concordei com a assertiva do ministro, embora ainda discorde da proposta de “rechear” com conteúdos os tablets e colocá-los nas mãos apenas de professores. Mesmo na mão dos alunos, ainda são escassos os resultados positivos que as tecnologias digitais trazem para a educação. Se essas tecnologias ficarem apenas nas mãos dos professores, os bons resultados certamente chegarão com mais dificuldade. Por uma razão que me parece simples: a tecnologia será apenas o mais moderno equipamento dando suporte às velhas práticas.

Mas voltemos à questão do Ensino Médio. De fato os problemas nesse segmento da Educação Básica vão se tornando evidentes, o que poderia justificar a ênfase que o ministro Mercadante pretende nas políticas e ações do MEC para ele.

Há poucos dias foi divulgado o IDEB 2011. O resultado do Ensino Médio abalou o Bloco L da Esplanada dos Ministérios, em Brasília. O ministro, se vendo  – porque razão seja – obrigado a dar uma pronta resposta, veio correndo a público oferecer alternativas para reverter o quadro de caos registrado.

O ministro Mercadante falou em duas medidas “imediatas”. Uma seria substituir a forma atual de cálculo do IDEB para o Ensino Médio. Sairia a Prova Brasil, feita por amostragem nesse segmento da Educação Básica, e no seu lugar entraria o ENEM, “quase” censitário. Pois é, quase.

Vários educadores e especialistas vieram a público denunciar a proposta do MEC. Com eles fiz coro. Afinal aquele “quase” faz toda a diferença.  O ENEM, exame para avaliar o aluno e não a escola, não é obrigatório. Estudantes com maior dificuldade ou aqueles que não têm a expectativa de chegar ao ensino superior nele não se inscrevem. Eu já ouvi relato que davam conta de escolas da rede privada que “convidavam” os alunos reconhecidamente fracos a não se inscreverem no ENEM. A estratégia era evitar que a média da escola no exame fosse puxada para baixo, o que definitivamente não interessa quando o ENEM é utilizado como elemento nas propagandas para atrair ou mesmo manter alunos.

A mudança da Prova Brasil pelo ENEM ainda traria um impacto negativo ao se perder a série histórica iniciada em 1995.

Lamentavelmente a impressão que o Ministro Mercadante deixou com sua proposta de mudar elementos no cálculo do IDEB de escolas do Ensino Médio permitiu as fortes suspeitas de que se pretendia “esconder” a verdade, mascarando dados.

Felizmente os sinais vindos do Bloco L da Esplanada dos Ministérios parecem revelar que a ideia de mexer nos indicadores vai sendo abandonada. Conviver com a febre, sem mexer no termômetro, enquanto se busca a cura pode ser mais saudável para o país, ainda que a reação do “paciente” venha a exigir algum tempo. Em educação, principalmente, os milagres são difíceis de encontrar, mas a cura dos males é possível e deve ser perseguida.

 

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