Archive for the ‘violência na escola’ Category

Toda violência é gratuita. Ainda mais quando é por causa de nota na escola

10/12/2010

O foco do meu blog é educação, com destaque para a integração curricular das tecnologias digitais de informação e comunicação. Mas existem temas que me levam compulsivamente a escrever aqui. Nesta semana tive dois temas em destaque, para abordar no blog, ainda que não dizendo respeito diretamente às tecnologias. PISA e violência contra professor na escola. O PISA fica prá depois.  Na última terça-feira, em Belo Horizonte, um professor foi morto com uma facada no peito no corredor de faculdade onde lecionava. O assassino? Um dos seus alunos. O motivo? O descontentamento com uma avaliação.  Há poucos dias, no Rio Grande do Sul, um estudante, também insatisfeito com a avaliação, quebrou os braços de sua professora e arrancou-lhe seis dentes. E depois, cinicamente, disse que não queria machucá-la. Só posso imaginar que queria matá-la. E, felizmente, não conseguiu. Como coloquei no meu Twitter, assim que soube da morte desse professor de um curso superior de Educação Física e pai de duas crianças bem pequenas, se alunos insatisfeitos com suas notas continuarem agredindo e matando professores, dar boa nota a todos e qualquer um será ato de legítima defesa. Aprovar sempre, para sobreviver ileso, é o desafio que se coloca hoje aos professores, da educação básica ao ensino superior. Se as coisas continuam assim, em breve teremos que alterar as matrizes curriculares da formação inicial de professor. Teremos que incluir disciplinas como Técnicas de Sobrevivência, Primeiros Socorros e Defesa Pessoal no currículo das licenciaturas. Ou, se não, independente de qual perfume usarem, sentiremos exalando de muitos professores apenas o cheiro do medo.

Vergonha!

08/11/2009

Graças aos telefones celulares e o YouTube foi possível ficar sabendo de um lamentável episódio ocorrido, no último dia 22 de outubro, em uma unidade da UNIBAN em Santo André. Uma aluna do curso de Turismo teria “provocado” cenas de selvageria por estar usando “trajes inadequados”. Esse seria o entendimento ao final de uma sindicância levada a cabo na instituição. No vídeo não se vê esse traje que não deveria estar em um campus. O que se vê são cenas explícitas de selvageria. A cena que mais chama a atenção é a saída da aluna, escoltada pela polícia, aos gritos de puta. Quem grita? Seus colegas, universitários, alunos de curso superior, gente adulta. Em sua coluna no jornal Folha de São Paulo na última sexta-feira, Fernando Gabeira comentou a reação de um dos alunos dessa universidade. Em fúria, o aluno teria dito que não queria ter essa mancha em seu diploma. Mas não ficou claro o que seria a mancha em um diploma emitido pela UNIBAN. Seria a de ter aluna que vai às aulas usando um vestido que deixa à mostra uma parte generosa de suas pernas? Ou seria a selvageria de alunos, colegas da “loira de pernas de fora” e do aluno furioso? Não consegui saber, permaneço em dúvida. Hoje me surpreendo ao saber, por jornal e rádio, que a aluna, vítima de um episódio que será sempre lembrado e comentado, acabou sendo expulsa da UNIBAN. O motivo da expulsão? Ela teria faltado com respeito à dignidade acadêmica e à moralidade. Não teria sido ética. É para rir ou para chorar? E os alunos que abandonaram as salas de aula para gritar o coro que marcou o episódio? Permanecem alunos, claro. Porque, mais do que alunos, são pagadores. Pagam por aulas que abandonam para agredir colegas. Mas isso não é problema se pagam em dia. Depois, façam o que quiserem, inclusive atos condenáveis como violentar moralmente uma aluna da mesma instituição, uma colega. Oos alunos ainda mereceram o  reconhecimento da UNIBAN. Segundo a sindicância, aqueles atos – que aos olhos de qualquer pessoa decente não passam de exemplos da mais pura barbárie – nada mais foram do que uma “reação coletiva de defesa do ambiente escolar”.  Ou seja, adotaram o “estupro moral” para garantir a sua escola, a educação que ali recebem. Recomendo à UNIBAN  um  desconto nas próximas mensalidades dessa turba  – que, mais do que pelas pernas de fora, se excitou pela própria fúria – como prêmio por essa defesa intransigente de valores que, imagino,  devam ser os praticados naquela instituição. Premiem a intolerância, a selvageria, o bullying. E façam escola. O educandário – era assim que se falava há alguns tempos atrás de qualquer escola – escolheu expulsar a vítima, aquela que se viu reconhecida de repente, por suas própria palavras, como sendo  “a puta do YouTube”. O que me possível concluir é que, nessa instituição, agredir moralmente uma colega seria ato compatível com a dignidade da vida acadêmica. Violentar a moral de uma colega não fere o decoro universitário. Cometer uma violência emocional não constitui infração disciplinar. Ou se for, é coisa leve, que se paga com alguns poucos dias de suspensão. Não sei se o aluno furioso, do qual Fernando Gabeira fala, decidiu agora por se envergonhar do diploma que certamente obterá um dia. Mas o motivo para a vergonha não pode estar, certamente, em ser colega de Geisy Arruda, a vítima e culpada, segundo a UNIBAN, de um dos mais deprimentes episódios de selvageria que assisti, graças a celulares e o YouTube, nos últimos tempos. A única coisa que me alivia é que não corro risco algum de ter um filho matriculado nessa universidade, que protege arruaceiros e pune vítima. Para a UNIBAN, Geisy deve ser tão culpada quanto a vítima de estupro que teria provocado o agressor. É, tem gente que pensa assim: as mulheres são sempre culpadas pelos crimes que homens praticam contra elas. Para a UNIBAN os “estupradores emocionais”, os “violentadores da honra” podem continuar frequentando o campus. A novidade estaria apenas em uma frase para a nossa tradicional coleção: “Estupra, mas paga.” Mas não se trata de pagar pelo ato insano. O que importa é pagar mensalidade. Pois é com isso que essa universidade se importa.