Narrativas digitais na escola. Uma experiência que pode ser fantástica

30/05/2013

O que em inglês se denomina Digital Storytelling, no Brasil estamos chamando de narrativa digital. Em sua essência trata-se de fazer uso de tecnologias digitais para contar estórias ou histórias.

Contar e ouvir histórias sempre fez parte da história da humanidade. Provavelmente aquele que chamamos de homem “pré-histórico” assentava-se ao redor de fogueiras e contava histórias, narrava fatos do seu cotidiano, relatava suas aventuras. No linguajar bem mineiro, “contava causos”.

pintura rupestreAntes mesmo de escrever, o homem contou histórias usando figuras, as famosas pinturas rupestres que encontramos em cavernas em muitas partes do mundo. Deixou registrados fatos do seu dia-a-dia, como a caça, nos mostrou animais com os quais convivia. Desde então, mais de 20.000 anos atrás, contar histórias é uma das nossas formas mais fundamentais de comunicação.

Crescemos com nossos pais nos contando histórias. Depois, pais, contamos histórias para nossos filhos, embalando seu sono.

Contar histórias é uma característica universal de cada país e de cada cultura, como reconhecem os antropólogos, ainda que, ao longo de boa parte do século 20, a narração tenha perdido um pouco de sua importância, tenha merecido menor respeito, como afirma Steve Denning, em artigo sobre a ciência de contar histórias que foi publicado na revista Forbes.

Para Denning, o contar histórias teve uma espécie de eclipse no século passado, quando as narrativas eram vistas como sendo tanto infantis quanto triviais.

No seu artigo Denning faz referência ao livro “On the Origin of Stories: Evolution, Cognition, and Fiction” de Brian Boyd, que busca explicar a razão pela qual a aparentemente frívola atividade de contar histórias é tão poderosa. Boyd ajuda a entender o contar histórias como algo central na inovação, uma dimensão da performance crítica nas organizações no século XXI: histórias são uma espécie de jogo cognitivo, um estímulo e um treinamento para a mente viva.

Todos nós gostamos de ouvir uma boa história. Mas nosso cérebro reage de forma diferente às narrativas.

CerébroAs pesquisas em Neurobiologia revelam que, quando ouvimos alguém que usa uma apresentação gerada no PowerPoint, ativamos as áreas de Broca e de Wernicke do nosso cérebro.

Mas quando nos contam uma história, as coisas no nosso cérebro mudam drasticamente. Como revelam as pesquisas, não são apenas as áreas de processamento da linguagem em nosso cérebro que são ativadas quando ouvimos histórias. Outras áreas em nosso cérebro serão ativadas enquanto lidamos com os eventos da história. Por exemplo, se o contador de historias fala de uma comida gostosa, nosso córtex sensitivo como que acende. Se o contador de histórias fala as palavras “lavanda” ou “sabão” nossa área do cérebro que lida com odores será ativada.

O cérebro, pelo que parece, não faz muita distinção entre ouvir o relato de uma experiência e encontra-la na vida real. Nesses casos, as mesmas regiões neurológicas são estimuladas. Mas o essencial é que somos afetados por ambos.

Há muito tempo se reconhece que ler uma boa literatura nos faz melhores como seres humanos. A neurociência vem revelando que essa afirmação é mais verdadeira do que poderíamos imaginar. Ouvir histórias também faz bem, como ler.

storytellerA proposta da narrativa digital é combinar a antiga arte de contar histórias com recursos das chamadas tecnologias digitais de informação e comunicação. As narrativas são elaboradas na perspectiva de linguagens múltiplas, lançado mão de recursos de multimídia [texto, fotografia, vídeo, áudio, gráfico]. É possível ainda a narração, que deve ser gravada pelo contador de estórias. Prontas, as narrativas são publicadas na internet e tornam-se acessíveis a muitos.

Se na narrativa tradicional a forma de comunicação é praticamente apenas a fala do contador de histórias, as histórias digitais são contadas com recursos das linguagens múltiplas, criadas em computador e colocadas na internet.

As histórias digitais podem variar em tamanho. Porém, na sua maioria, as histórias utilizadas na educação geralmente duram algo entre 2 e 10 minutos. Com esse tempo consideramos o chamado ciclo de atenção, que, segundo alguns pesquisadores, nos adultos é de 15 a 20 minutos e nas crianças atuais parece ser menor, particularmente quando se trata de aprendizagem visual ou oral. Há que afirme que o ciclo de atenção [em inglês, attention span] das crianças hoje em dia seria da ordem de apenas 8 minutos. Há quem responsabilize, ou culpe, a televisão e a internet por essa significativa redução.

Na narrativa digital aplicada à educação, temos relatos de eventos históricos, histórias de vida – pessoal, da comunidade escolar ou do entorno dela. O essencial é que seja sempre algo que tenha significado para o aluno.

Apesar de seu atual destaque, a narração digital não é uma prática nova. Um dos pioneiros nessa, podemos dizer, arte é Joe Lambert, cofundador do Center for Digital Storytelling (CDS), organização sem fins lucrativos, hoje localizada em Berkeley, Califórnia, nos Estados Unidos.

A proposta do CDS, desde a sua criação – como San Francisco Digital Media Center – em 1994, foi de apoio a jovens e adultos na criação e no compartilhamento de narrativas pessoais, lançando mão da combinação de escrita reflexiva com mídias digitais.

Capa de Digital Storytelling: Capturing Lives, Creating Community, de Joe LambertNo início de seu livro “Digital Storytelling: capturing lives, creating commitment”, Joe Lambert coloca uma questão básica: “Por que contar histórias?”. E assim ele mesmo responde à questão que formula: Histórias são o que o homem faz para dar sentido ao mundo.

Um detalhe: Jose Lambert usa o termo stories. Na língua inglesa a distinção entre estória e história ainda parece persistir. A história é entendida como uma descrição narrativa objetiva de eventos passados​​, enquanto que a estória é uma descrição narrativa subjetiva, tanto de acontecimentos reais passados, quanto de pessoas imaginárias ou eventos.

Na língua portuguesa a palavra “estória” se referia aos contos, às fábulas, enfim, à ficção. Já a palavra “história” era utilizada para se fazer referência a fatos e atos da/sobre a humanidade, relativos à vida de uma pessoa. Atualmente, o termo “estória” parece cair em desuso; o termo “história” passa a ser utilizado em todos os sentidos. Nesse post usarei apenas a palavra história, a não ser quando a palavra “estória” for absolutamente necessária para algum esclarecimento.

E, continua Lambert, somos perpétuos contadores de histórias, revendo eventos na forma de cenas revividas, pepitas de contexto e caráter, ações que levam a realizações.

Outro pioneiro no campo das narrativas digitais foi Daniel Meadows, fotógrafo, autor e educador britânico. Ele definiu histórias digitais como sendo “contos multimídia, pessoais, breves, contados com o coração”. Também disse que as histórias digitais são “sonetos multimídia do povo”.

É interessante quando Joe Lambert, em seu livro “Digital Storytelling”, afirma que o cérebro que o leitor está usando para lê-lo, quando descreve sobre histórias (mantenho aqui a palavra que ele usa originalmente) e o contar de histórias, é muito diferente daquele cérebro usado se o leitor o ouvisse contar uma história.

Storytelling in the classroom

Há muito tempo o contar histórias faz parte do ambiente escolar, notadamente no ensino infantil e nas séries iniciais. Hoje em dia, no campo da educação, professores e alunos, nas salas de aula dos anos iniciais até o ensino superior, incluindo a pós-graduação, estão usando narrativas digitais com diferentes propósitos, em diferentes áreas de conteúdo e através de uma grande variedade de níveis de escolaridade.

Não se trata apenas de professores contando histórias, como vem sendo o usual, lançando mão de recursos multimídia. Precisamos pensar na situação dos próprios alunos se tornarem contadores de histórias digitais, é isso o que devemos buscar.

Será, com certeza, uma experiência fantástica para os alunos. Autores, combinarão uma tradição da própria espécie humana, o contar histórias/estórias, com as tecnologias digitais, que tanto lhes atrai. Usando imagens que eles mesmo produzirem, é o ideal, ou buscadas na internet [o que exigirá a habilidade da busca e a competência para a escolha, bons exercícios], combinando as imagens em apresentações que podem ser transformadas em vídeos], associando o áudio, como narrativa oral ou uma agradável trilha musical [são muitos os sites onde encontrar, gratuitamente, músicas e efeitos sonoros], ou produzindo vídeos, os alunos poderão, com as narrativas digitais, contar histórias/estórias, mostrando  o que aprenderam, experiências que viveram. E, se carregarem as suas narrativas em sites como SlideShare, YouTube ou Vimeo, mostrarão tudo isso para o mundo.

NarrativasParece-me uma experiência saborosa. Será um tempo para o exercício da criatividade, um momento para a expressão da estética, deixando a imaginação dos alunos correr solta. Projetos de narrativas digitais estimularão os alunos a expressar-se visualmente, o que é uma habilidade diferente de escrever.

Talvez trazer as narrativas digitais para a sala de aula seja tarefa para um professor ousado; talvez basta querer ser um professor diferente.

Por que não começar a fazer isso logo?

Meus alunos de graduação (licenciatura) em Ciências Biológicas na PUC Minas estão fazendo suas narrativas digitais criando  apresentações no PowerPoint, que depois transformam em vídeo, utilizando o  Windows Movie Maker. Os vídeos são carregados no YouTube. Para facilitar o trabalho deles, um pequeno manual foi organizado.

Wordle do post. Clique na imagem ara vê-la ampliada.

wordle_post-narrativasdigitais

Anúncios

Falando sobre tecnologias e resistências

18/05/2013

Quando discuto, especialmente, mas não exclusivamente, com alunos de licenciaturas sobre as dificuldades para a incorporação dos computadores e de tecnologias associadas na formação inicial de professores, na mudança do quadro que chamei há alguns anos de “tecno-ausência” , é recorrente o argumento da resistência dos professores às tecnologias.

O argumento, que já se usava nos anos 1980 para explicar como o computador não chegava de fato às escolas, permanece, intocável, inabalável, até por aqueles que há 30 anos sequer existiam.

Definitivamente estou convencido de que essa alegada resistência dos professores às tecnologias digitais de informação e comunicação é uma falácia, ainda que oportunamente – ou seria malandramente? – utilizada como justificativa para o atraso tecnológico do lugar da nossa formação inicial de professores, a sala de aula das licenciaturas.

A mim parece prova suficiente de que essa resistência de fato não existe a constatação, simples, de que os professores das licenciaturas, bem como de maneira geral qualquer professor, usam computador para digitar provas, registrar notas. Eles o utilizam, acoplado ao projetor multimídia, para exibir as apresentações que criam no PowerPoint, ainda que na maioria das vezes o façam mal,  parecendo como que ainda imersos/submersos na cultura do retroprojetor.  Ou seja, em resumo não há qualquer problema com o uso do computador no ensino, como suporte a ele, no cotidiano na sala de aula e mesmo fora dela, embora relacionado a ela. Nenhuma resistência, sem dúvida.

Com o mesmo desempenho. os professores utilizam computadores na sua vida, para se comunicar por mensagens eletrônicas, para fazer compras, programar viagens, ver vídeos no YouTube. Alguns participam de redes sociais. Os celulares, incluindo os smartphones, os tablets, as caixas eletrônicos nos bancos são tecnologias com as quais lidam sem problema. De novo, nenhuma resistência.

O problema é a resistência  ao uso das tecnologias digitais para a aprendizagem, na aprendizagem dos alunos. O temor é pelo que fazer quando se coloca a máquina, seja o laptop, seja o tablet, nas mãos dos alunos.

Colocar a máquina na mão de estudantes implica em mudanças, profundas, na prática pedagógica. São mudanças que exigem que o professor saia da zona de conforto na qual está instalado faz tempo.Às mudanças nas suas práticas arraigadas, muitos professores resistem, – possivelmente a maioria. Essa é a única resistência que vejo quando se fala em professores, escola e tecnologias digitais de informação e comunicação.

Por isso ouso afirmar que os professores não temem as tecnologias digitais; temem o desafio do novo fazer pedagógico, necessário para incorporar essas tecnologias no cotidiano da escola, na perspectiva da aprendizagem. Os professores não querem se afastar das velhas práticas que lhes dão a confiança, a segurança para atuar na sala de aula. E nada mais confortável do que a aula expositiva, onde o professor fala o que sabe e o aluno, convencido de que nada sabe, apenas ouve. Em síntese, é o medo do novo, da insegurança que ele provoca que cria resistências em professores quando se trata de incorporar tecnologias digitais de informação e comunicação para a aprendizagem. Parodiando Caetano Veloso, em sua música Sampa, eu diria que isso ocorre porque “à mente apavora o que não é o mesmo velho“.

La Educación Prohibida – A Educação Proibida

09/12/2012

Panóptico na escola

31/10/2012

Há algum tempo comentei – em outro dos meus blogs – sobre a notícia do uso de chips em uniformes escolares para registrar a presença de alunos.

Agora uma turma de uma escola pública do Distrito Federal participa de testes do controle eletrônico de frequência. Um chip “dedo-duro”, instalado no uniforme, avisará os professores, diretores e os pais se os alunos entrarem na escola a tempo da aula, se se atrasarem para estar ali, se saíram antes do que era previsto ou se cabularem [será que alguém, além de mim,  ainda usa esse verbo?] as aulas.

Assim, todos, no que seria a concretização no espaço educacional do panóptico imaginado por Jeremy Bentham e tratado por Foucault, saberão quem está na escola, ainda que dependam de outras tecnologias, como o telefone celular, para saber o que andam fazendo durante as aulas.

A escola que testa o chip “dedo-duro” ainda carece de uma quadra esportiva e seus alunos não têm aula de Sociologia por falta de professor. Mas o que parece preocupar mesmo agora a diretora é o custo que a implantação do sistema em toda a escola trará, caso aprovada a ideia. Serão cerca de R$ 28,8 mil, custo que a diretora cogita de transferir para os pais dos alunos. Ou seja, ainda que a escola seja pública, os pais é que podem acabar pagando pela “caderneta”, que no meu tempo era em papel e a mim entregue sem qualquer custo para o meu pai.

Pois é, a onda do controle eletrônico de presença dos alunos avança, ainda que lentamente. Não é ainda uma onda grande, avassaladora como as criadas pelo furacão Sandy, que andou fazendo estragos no Caribe e na costa leste dos Estados Unidos nesses últimos dias. Mas quem garante que a onda do controle eletrônico não será enorme em breve?

E quem garante que ela não “engolirá” também os professores? Podemos tranquilamente suspeitar que passará pela cabeça de algum diretor de escola, pública ou privada, ou de algum  burocrata de Secretaria de Educação a ideia de implantar um controle efetivo, por chip, da presença de professores, notadamente na rede pública, onde o absenteísmo docente é uma marca.

Ou, quem sabe, uma lista futura de material escolar não incluirá  um chip subcutâneo nos alunos. Quem viver, verá.

Wordle do post:

Educação e eleição

21/09/2012

A cada dois anos o povo brasileiro ouve, de novo. as “novas” promessas que farão do nosso país a Terra Prometida. Todos os nossos problemas serão resolvidos, sem exceção. Teremos saúde, segurança pública, aposentadoria digna, os salários mais justos da face da Terra. Alguns chegam a nos prometer que não mais teremos patrões. E, claro, teremos a melhor educação do mundo.

Ainda não encontrei um só candidato, a qualquer cargo eletivo que seja, que não trouxesse uma única promessa para a melhoria da nossa educação, para a redenção de nossas escolas públicas. Todos estão comprometidos com elas. Na verdade, todos estão comprometidos com todos.

De quatro em quatro anos a educação será redimida. E entre as promessas de hoje e as que nos serão feitas na próxima eleição,  a nossa educação pública claudicará.

Na última quarta-feira, barbeando-me, liguei o rádio que tenho no banheiro. Era a única coisa que, por não ser multitarefa, eu poderia fazer naquele momento, além do leve e calmo escanhoar.

Me deparei com o horário eleitoral, gratuito mas que tanto custa ao contribuinte brasileiro. Foi a primeira experiência de ouvi-lo nessa atual campanha eleitoral. Ando, propositadamente, desligado dela.

Na propaganda, o atual prefeito, candidato à reeleição, vangloriava-se de ter acabado com o projeto da escola pública que vigorava há alguns anos, implantado que fora por aquele que agora é seu [principal] concorrente na eleição. Muitos desses anos em que o modelo da educação do rival foi mantido são exatamente aqueles em que os correligionários do atual prefeito e os até ontem seus  coligados ocuparam a prefeitura.

E, claro, já que se trata de campanha eleitoral, o candidato à reeleição nos antecipava uma nova escola, muito melhor, para o tempo futuro.

Um pouco depois, veio a propaganda de um ex-prefeito, que legitimamente procura ocupar de novo esse cargo tão importante.

Coincidentemente o ex-prefeito falou de educação. Mais, destacou a baixa qualidade da atual educação pública municipal e da necessidade de mudanças. A educação pública, disse ele, é um dos grandes problemas da cidade.

Briga de palavras, de ideias, de referenciais com um só propósito: desqualificar o outro para angariar  a simpatias dos eleitores e seus votos. Entendo, ainda que lamente; é do jogo.

O mais interessante – e o que não entendo – é que nos últimos quatro anos, o partido desse ex-prefeito foi coligado com o daquele que busca a reeleição. Os companheiros de partido do ex-prefeito ocupavam até pouco tempo atrás os postos-chave da Secretaria Municipal de Educação, incluindo o importante cargo de secretário. Só se demitiram – mas pode ser que ainda reste algum lá – depois que o seu partido resolveu não manter a coligação e lançar um candidato próprio.

Se entendi bem, os companheiros de partido do ex-prefeito ajudaram o atual a acabar com o projeto da escola criado na sua gestão. E no seu lugar colocaram um novo que, nos assegura o ex-prefeito, não melhorou a educação.

Essa situação revelou uma das razões pelas quais não daremos conta de resolver os seríssimos problemas da educação pública no Brasil. A cada quatro anos, oito no máximo, um novo projeto, uma nova proposta é lançada.

E parece que é ponto de honra desconhecer tudo o que vinha sendo feito, até mesmo por correligionários ou aliados políticos.

Tudo é começado como se nada houvesse antes. É tudo como “nunca antes na história desse país”. Em síntese, a cada quatro anos, oito no máximo,  a educação tem que mudar, porque só o novo ocupante do cargo pode dar qualidade a ela. Tudo o que foi feito antes de nada valeu, nada sobrou a não ser os resultados pífios registrados nos exames nacionais.

Tratam a educação como se fosse uma cultura de hortaliças, coisa para o tempo curto, ao invés de um plantio de árvores que exigem tempo para fincarem fortemente suas raízes, se fazerem sólidas.

Pois esse é nosso problema. Nossa educação vive aos soluços. A cada quatro anos a nossa escola tem que (re)nascer de um novo tranco. Essa é uma fórmula imbatível para garantir a indigência de nossa educação pública.

Pobre Brasil, pobre brasileiro. Pobres de realizações, ainda que ricos de promessas.

 

 

Wordle deste post:

Para lidar numa boa com as “Isadoras”

03/09/2012

Uma estudante de 13 anos, aluna da Escola Básica Municipal Maria Tomázia Coelho , em Florianópolis, está dando o que falar, nas mídias digitais e analógicas.  Isadora Faber usou o Facebook para mostrar, em textos e imagens, diversos problemas em sua escola.
Isadora teria como fonte de inspiração o blog “Never seconds”, criado por Martha Payne, uma estudante escocesa de 9 anos, para criticar a qualidade e a quantidade da comida oferecida aos alunos em sua escola. Um vídeo mostra uma conversa, à distância, entre Isadora e Martha.
A página “Diário de Classe” de Isadora atraiu mais de 200 mil seguidores, vem gerando reportagens na mídia e, no limite, provocou uma reunião emergencial da Secretaria de Educação de Florianópolis, depois do que foi prometida a reforma da escola.
A página-denúncia gerou reações das mais diversas ordens, na escola e fora dela; muitas pessoas não “curtiram” o Facebook de Isadora. Até surgiram acusações de que o blog teria finalidades eleitorais. Enquanto isso existe quem aponta 100 formas diferentes de usar o Facebook na sala de aula.

A mobilização social por intermédio de mídias digitais não é novidade alguma. A cidadania digital se amplia. Mas o caso da estudante de Florianópolis certamente despertou interesses e preocupações, aqui no Brasil. 
A diretora da escola, entrevistada pela revista Veja, quer que “o caso saia do Facebook e venha para dentro da escola para que os alunos sejam atuantes também” na escola. Restaria saber a razão pela qual, até agaora, essa atuação dos alunos não foi estimulada. Formação para a cidadania se faz com estímulos e iniciativas, não com entendiantes aulas expositivas.
O episódio revelou. ainda, uma outra questão que nada tem a ver com a tecnologia: o despreparo de professores e, principalmente, de gestores para a crítica. A escola gosta de avaliar, mas têm um sólido histórico de resistência à sua própria avaliação. De maneira geral, professores e gestores são refratários ao risco de avaliações, de que natureza forem, revelarem os problemas da escola, achando que correm o risco de serem responsabilizados por elas. Mas se não for a avaliação, mais ou menos sistematizada, os problemas não aflorarão e suas soluções não poderão ser pensadas. Professores e gestores devem entender que esconder pela “não-avaiação” os problemas de suas escolas faz deles também vítimas das mazelas. Se as coisas básicas denuncidas por Isadora forem melhoradas, todos na escola ganharão, alunos, professores, gestores e funcionários.
Mas deixemos de lado a avaliação institucional – um dia talvez eu trate desse tema aqui – e voltemos para o “lado tecnológico” do problema.
Como alerta matéria publicada na Veja/Educação, muito mais do que mostrar a força comunicacional de uma ferramenta como o Facebook, algumas reações do setor educacional revelam o quão despreparados estão os professores e gestores escolares para lidar com questões como essa. O episódio mistura mídia digital e cidadania digita que, segundo Gregg Witkin, são as principais arestas na mudança do paradigma educacional.  Witkin foi, recentemente, o primeiro colocado na categoria “Educator as Innovation and Change Agent” [Educador como Agente da Inovação e da Mudança} do prêmio que a Microsoft confere, nos Estados Unidos, a educadores que se destacam por trazer tecnologia e aprendizagem baseada em projetos para suas salas de aula de forma inovadora e interativa. Witkin foi premiado pelo projeto “Finding your voice” [Encontrando a sua voz], que desenvolve  com seus alunos na Boynton Continuation High School, em San Jose, na Califórnia.
Episódios como o de Isadora revelam a necessidade de que a formação continuada dos professores, além da inicial nas licenciaturas, dê mais atenção à questão das tecnologias digitais de informação e comunicação, avançando para o “letramento digital”, além da simples alfabetização digital. Os professores precisam entender como de fato tais tecnologias preenchem a vida dos jovens e crianças e como, daí, tendem a invadir a escola e ocupá-la cada vez mais. E dali as tecnologias mostrarão para o mundo a cara da escola.

Professores e gestores que fossem portadores de uma “cultura digital” certamente se veriam menos surpreendidos com o “Diário de Classe” de Isadora e encontrariam a melhor forma de lidar com a situação que ele gerou. E, mais, saberiam lidar com novas situações que possam ser provocadas em outras páginas do Facebook e blogs que já devem estar por aí ou chegando logo. Porque, queiram ou não, Isadora pode fazer escola no Brasil.

Wordle do post:

Depois do incêndio, a pirotecnia

30/08/2012

Em outro post, comentei sobre a pressa com a qual o Ministro da Educação, Aloizio Mercadante, veio a público dar explicações e apresentar soluções para o problema revelado pelo IDEB 2011: o Ensino Médio estancou e, em alguns estados, conseguiu a proeza de ser ainda pior do que era.

Uma das propostas do Ministro é a aglutinação dos conteúdos das disciplinas em “áreas do conhecimento”, similares – se não idênticas – às propostas nos PCN – Matemática e suas tecnologias; Linguagens, códigos e suas tecnologias; Ciências da Natureza e suas tecnologias; Ciências Humanas e suas tecnologias – e “balizadoras” do ENEM a partir de 20124. Como o Ministro pretende – ou ao menos pretendia – substituir a Prova Brasil pelo ENEM no cálculo do IDEB teria tudo a ver. De alguma forma as disciplinas se extinguem e seus conteúdos se aglutinam em novas disciplinas, não importa que nome venham a dar à “coisa”.

Sou daqueles que detestam as soluções fáceis. Não porque prefira as difíceis. A questão é: “Se a solução é fácil, por que não foi pensada antes?”.  O jornalista e crítico social estadunidense Henry Louis Mencken, conhecido simplesmente como H. L. Mencken deixou-nos um alerta: “Para todo problema complexo, existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada“.

Como imagino que o Ministro não deve querer que especialmente as redes públicas estaduais, as maiores responsáveis pela oferta do Ensino Médio, afastem seus atuais professores das salas de aula, bem como as escolas da rede particular,  uma dúvida se oferece: Quem assumirá as aulas de, digamos, Ciências da Natureza e suas tecnologias? Será o professor de Biologia? O de Física ou o de Química? Sim, porque cada uma tem sua formação específica, não só nos conteúdos, mas nas práticas de ensino desse conteúdo, formação forjada ao longo de quatro anos de estudos em uma licenciatura. Ou todos assumirão tudo, mesclando conteúdos que não sabem de forma suficiente como aquele que, ao menos em tese, domina, verdadeiros professores polivalentes? Se, como dizem, o especialista é aquele que sabe cada vez mais de cada vez menos, até que um dia saberá tudo de nada, o professor generalista pode ser aquele que sabe nada de tudo.

No seu afã de dar respostas imediatas, Mercadante se esqueceu desse pequeno detalhe. Professor de Biologia não foi preparado para dar aula de Física, nem os licenciados nessa ciência devem saber o suficiente para ensinar Citologia, Histologia, Genética, Botânica, Zoologia e os demais conteúdos que formam o corpo da disciplina Biologia. Até porque a formação do profissional de ensino exige a construção de saberes sobre o que eu chamaria de “pedagogia dos conteúdos”.

O professor necessário nessa proposta do “fim das disciplinas” não existe e possivelmente nem será formado. Ou o Ministro teria que combinar com as universidades as novas licenciaturas, por áreas de saberes conforme os PCN. Só que com um problema a mais: as salas de aulas das licenciaturas, conforme hoje desenhadas, estão cada vez mais esvaziadas, correndo o risco de em breve estarem às moscas.

E não me venham com a saída da formação continuada. Os professores hoje fogem delas e não será com poucas horas que professores especialistas, das universidades, formarão os professores polivalentes para o novo Ensino Médio.

Que o Ensino Médio precisa , urgentemente, de uma reforma não haverá quem negue. Mas temos que tomar cuidado para que as reformas não venham no açodamento, aumentando os problemas desse segmento da educação ao invés de minorá-los. Alguns começam a chiar contra essa reforma a toque de passos. Que o MEC dê ouvidos a eles também, porque, afinal, o que todo o país quer é educação de qualidade, sabendo que muitos esforços devem ser mobilizados para isso e que o processo demandará um tempo, certamente maior do que o mandato de um ministrou ou um secretário. Façamos o que for necessário, mas não a pirotecnia, no rescaldo do incêndio.

 

Wordle do post:

Deu febre? Troque o termômetro.

29/08/2012

Em março último, estive em Brasília,  convidado para participar de um evento organizado pelo MEC, cujo tema eram as tecnologias móveis na educação. Na programação do evento, constava uma reunião de trabalho com o Ministro da Educação, Aloisio Mercadante.

Caminhava no MEC um processo de compra de tablets para serem distribuídos em escolas públicas, projeto gestado sob a égide do ministro Fernando Haddad. Eu jamais soube o que de fato o MEC pretendia com os tablets, em número de 600 mil. Para quem seriam distribuídos, em quais escolas, com quais finalidades além da, digamos, levar as escolas a, digamos, mais recente novidade do mundo das tecnologias digitais,  objeto de desejo, sonho de consumo de jovens ou não tudo era uma espécie de mistério. Me permiti imaginar que a proposta dpoderia seguir o Projeto Um Computador por Aluno, UCA, com os tablets sendo entregues a professores e alunos de algumas escolas, previamente selecionadas, em experimentos-piloto.

Pelo que então ouvi, pessoalmente, do Ministro Mercadante, não pude concluir que o que se pensava no MEC, até 2011. O mistério continuava. Mas o ministro deixou claro o que pretendia: distribuir tablets para professores do Ensino Médio público.  Naquele momento, justificou esse caminho sob a alegação de que o Ensino Médio necessitava de uma atenção especial do MEC enquanto política pública. Concordei com a assertiva do ministro, embora ainda discorde da proposta de “rechear” com conteúdos os tablets e colocá-los nas mãos apenas de professores. Mesmo na mão dos alunos, ainda são escassos os resultados positivos que as tecnologias digitais trazem para a educação. Se essas tecnologias ficarem apenas nas mãos dos professores, os bons resultados certamente chegarão com mais dificuldade. Por uma razão que me parece simples: a tecnologia será apenas o mais moderno equipamento dando suporte às velhas práticas.

Mas voltemos à questão do Ensino Médio. De fato os problemas nesse segmento da Educação Básica vão se tornando evidentes, o que poderia justificar a ênfase que o ministro Mercadante pretende nas políticas e ações do MEC para ele.

Há poucos dias foi divulgado o IDEB 2011. O resultado do Ensino Médio abalou o Bloco L da Esplanada dos Ministérios, em Brasília. O ministro, se vendo  – porque razão seja – obrigado a dar uma pronta resposta, veio correndo a público oferecer alternativas para reverter o quadro de caos registrado.

O ministro Mercadante falou em duas medidas “imediatas”. Uma seria substituir a forma atual de cálculo do IDEB para o Ensino Médio. Sairia a Prova Brasil, feita por amostragem nesse segmento da Educação Básica, e no seu lugar entraria o ENEM, “quase” censitário. Pois é, quase.

Vários educadores e especialistas vieram a público denunciar a proposta do MEC. Com eles fiz coro. Afinal aquele “quase” faz toda a diferença.  O ENEM, exame para avaliar o aluno e não a escola, não é obrigatório. Estudantes com maior dificuldade ou aqueles que não têm a expectativa de chegar ao ensino superior nele não se inscrevem. Eu já ouvi relato que davam conta de escolas da rede privada que “convidavam” os alunos reconhecidamente fracos a não se inscreverem no ENEM. A estratégia era evitar que a média da escola no exame fosse puxada para baixo, o que definitivamente não interessa quando o ENEM é utilizado como elemento nas propagandas para atrair ou mesmo manter alunos.

A mudança da Prova Brasil pelo ENEM ainda traria um impacto negativo ao se perder a série histórica iniciada em 1995.

Lamentavelmente a impressão que o Ministro Mercadante deixou com sua proposta de mudar elementos no cálculo do IDEB de escolas do Ensino Médio permitiu as fortes suspeitas de que se pretendia “esconder” a verdade, mascarando dados.

Felizmente os sinais vindos do Bloco L da Esplanada dos Ministérios parecem revelar que a ideia de mexer nos indicadores vai sendo abandonada. Conviver com a febre, sem mexer no termômetro, enquanto se busca a cura pode ser mais saudável para o país, ainda que a reação do “paciente” venha a exigir algum tempo. Em educação, principalmente, os milagres são difíceis de encontrar, mas a cura dos males é possível e deve ser perseguida.

 

Wordle do post:

Academia Khan. É esse o bom ensino?

25/07/2012

Permaneço estupefato com o sucesso que o tal Salman Khan continua fazendo, a ponto do MEC planejar traduzir, legendar as suas aulas [vídeos] para uso em escolas públicas brasileiras, através principalmente de tablets, que o governo deve distribuir para milhares de professores de escolas públicas de Ensino Médio.

O que faz mesmo esse tal Khan? Ele grava aulas, expositivas, de vários assuntos – é o novo homem enciclopédico, um “papai sabe-tudo” – e as disponibiliza na internet. Nada cobra pelas aulas – e fico a me perguntar se alguém pagaria para assisti-las – porque é bancado por empresas e empresários. Bill Gates é um dos que apóiam financeiramente Kahn, que teria ajudado seus filhos a aprenderem coisas que a escola não dava conta de ensinar.

Claro que aquilo que a Khan Academy faz surpreende a todos quando olhado notadamente pelo lado quantitativo. São 3.300 vídeos, majoritariamente em assuntos da Matemática, que já foram vistos mais de 170 milhões de vezes – o que não signfica 170 milhões de alunos. Aliás, se fosse esse o número de alunos, seria de fazer inveja às grandes organizações que hoje comandam instituições de ensino no Brasil que oferecem educação a distância a muitos milhares de estudantes.

Há pouco tempo uma revista de grande circulação no Brasil anunciou, em sua capa, Sal Khan como o melhor professor do mundo. Isso não é pouco, convenhamos.

Eu sempre entendi – embora isso não seja consenso nacional, haja vista que aqui se improvisa professor – que ser professor demandava formação. Significa saber conteúdos – e não dá para dominar todos -, deter técnicas de ensino e aprendizagem, saber avaliar a aprendizagem dos alunos, resolver problemas, estimular a sociabilidade. Pensando bem, professor tem muito mais do que fazer do que simplesmente falar sobre um conteúdo, ainda que possa faze-lo de forma bem interessante, atrativa.

Khan fala para o mundo. Ele enche um “quadro negro digital” com imagens e palavras, enquanto fala.

A propósito, quando desenha no seu quadro-negro, usando o mouse, o resultado definitivamente não é dos melhores [clique na imagem ao lado, para ver o macaco que ele desenhou na tela da aula sobre evolução], Khan poderia usar imagens  prontas, como os nossos professores faziam com projetores de slides ou retroprojetores ou, hoje, fazem usando o Power Point; seria visualmente mais agradável.

Com sua monofonia, Khan repete a monotonia das velhas aulas.  Só não é monocrômico; usa mais de uma cor no seu quadro-negro.

Khan  coloca, no YouTube, o velho modelo de aula. A diferença é que, no caso dessa aula virtual, ele, o professor, não aparece. Aliás, seus – poucos – videos que vi me lembraram o locutor Lombardi do programa de TV do Sílvio Santos. Todo o Brasil , aos domingos, ouvia o Lombardi; mas ninguém o via.

No falar e no escrever no quadro negro  se resume o papel de professor adotado por Khan. Ele informa, não forma. E para muita gente ele revoluciona a educação, é o mais influente educador on-line de todo o mundo.

Por outro lado, temos hoje uma discussão ampla sobre a inadequação da aula que se baseia essencialmenta na fala do professor para alunos silentes e isolados, ainda que em um mesmo espaço físico. Para muitos a escola que se assenta exclusivamente nessa prática está com seus dias contados.

Temos crise na educação exatamente porque as aulas, verdadeiros monólogos docentes, são ruins. Os alunos se dispersam, não se concentram até porque os professores ainda não deram conta do ciclo de atenção dos alunos, dos diferentes estilos de aprendizagem que seus alunos têm.

Temos crise na educação porque os professores, no pular de escola em escola, em até três turnos de trabalho, na luta desesperada para garantir o mínimo para o sustento de si mesmo e da família, não têm tempo para planejar as atividades de ensino. Isso significa estabelecer objetivos para uma aula, buscar material de referência para ela, organizar formas de trabalho com os alunos. Pois é, para ser professor, a cada dia, é preciso planejamento, preparação, reflexão.

Em entrevista para a revista Time,  que o incluiu entre as 100 pessoas mais influentes do mundo, Sal Khan explicou como prepara cada uma das suas aulas em vídeo. Ele assume que não tem um script prévio, ou seja, falta o planejamento. Em suas próprias palavras, ele não sabe o que dirá metade do tempo. Khan afirma que sua rotina de preparo para as aulas se resume a buscas com o Google, o que lhe toma algo em torno de dois minutos de trabalho. Claro que nossos professores, em sua maioria, não têm sequer dois minutos para preparar cada uma de suas aulas. E talvez por isso elas sejam inadequadas, por isso vivemos crise na educação.

Achar que Khan é um grande professor é definitivamente um exagero. Ao contrário, eu diria. Khan na verdade perpetua, na internet, o professor que eu, ao menos, considero inadequado para o tempo em que vivemos. Colocar alunos em frente às telas de computadores ou tablets para ficar assistindo a velha aula expositiva a mim parece atraso. Se isso é a educação de qualidade, se isso é revolução no ensino, então definitivamente estamos voltando no tempo. É a tecnologia do futuro nos levando de volta para a sala de aula do começo do século passado. E, assim, fica a impressão de que definitivamente a educação não tem futuro, estaremos fadados a repetir sempre o passado, mesmo que incorporando uma tecnologia ou outra.

Pois não é sem razão que Karim Kai Ani, uma ex-professora de Matemática no ensino médio, alerta para algo muito importante. A experiência da Khan Academy e toda a sua repercussão acabam revelando um fato preocupante: ensino ruim na sala de aula significa “crise”, enquanto ensino ruim no YouTube é “revolução”.

Wordle do post:

Novas tecnologias. Nova escola?

26/06/2012

Na medida em que as tecnologias digitais, sinais de um novo tempo, chegam à escola, apesar de ainda pobremente usadas, cenários e eventos se modificam, ainda que de alguma maneira as práticas pedagógicas permaneçam praticamente inalteradas.

Em um mundo nos quais as possibilidades de comunicação e informação se multiplicam a uma velocidade espantosa, em nossas escolas permanecem, de maneira geral, a aula que remete à Idade Média, quando se dependia da memória do professor e da sua oralidade para que os alunos pudessem estar sendo informados. E, claro, em algumas vezes usando-se o livro com uma fonte de informação. A fala [do professor] e o livro formam o binômio informacional de nossas escolas, na segunda década do século XXI.

Mas como a escola tem  a necessidade de se mostrar moderna, em um mundo no qual as novas tecnologias surgem a cada momento, oferecer iPad ou qualquer outro gadget que se proponha a ser leitor dos chamados e-books, é opção que não me surpreende.

Resta saber o que estará disponível nos tablets? Sem muita ousadia, eu diria que essencialmente as velhas apostilas, contendo matérias que os alunos estudarão depois das aulas expositivas, se preparando para as provas. São as velhas apostilas em novos “trajes”.

E assim, colocando roupas novas sobre velhos corpos a nossa escola busca se oferecer como uma instituição moderna. Engana a si mesma e engana os que a buscam. E o mais intrigante é que, ao final, enganadores e enganados saem todos satisfeitos.