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Educação. Royalties são solução?

24/01/2014

Certamente escandalizarei algumas pessoas com este post. Mas esse é o risco inevitável de dizer, de forma bem franca, o que penso sobre uma questão que toca de forma profunda o Brasil.

Os novos ventos que sopraram das ruas,  especialmente em junho do ano passado, provocados por multidões em protesto, em um fenômeno que não víamos aqui na Terra Brasilis desde os caras-pintadas, são com certeza muito bem-vindos. Ainda que depois esmorecidos, esses novos ventos de alguma forma sopram as velas da caravela chamada país, movendo-o em direção a um futuro que, esperamos, poderá ser melhor.

Claro que nem sempre as coisas tomam o rumo desejado. Os recentes episódios de presidentes das casas do Congresso e ministro de estado usando aviões da FAB para vôos de interesse particular demonstram que os ventos que pediam o fim da corrupção sopraram, mas pouco ou nada mudaram. Sopraram em vão. Muitos de nossos políticos, a maioria talvez, ainda se comportam acima de tudo e de todos, Parece que não há vento que os traga de para baixo, para a realidade. Parece, ainda, que não aprenderam com a professora Janaína Conceição Pascoal, da USP, que o poderoso não pode mais, deve mais satisfação …

Pressionados pelos ventos vindos da rua, nossos deputados federais e senadores saíram da quase catatonia com a qual levavam a sua vida, de terça a quinta, no Congresso, Por conta dos “furiosos” nas ruas, esses homens públicos tornaram-se “velozes”. Parecia que o CIne Brasil via uma nova edição de uma série famosa.

Apressados, porque pressionados, deputados e senadores deram algumas (poucas) respostas rápidas aos anseios populares. Projetos de lei foram aprovados quase que a toque de caixa. Dentre eles, o que destina 75% dos royalties do petróleo (do pré-sal) para a educação. Certamente sem o brado retumbante vindo das ruas, os royalties do petróleo para a educação nào seriam aprovados, Afinal, político não gosta de verba carimbada.

Para os políticos a aprovação da destinação de parte dos royalties para a educação quase certamente será entendida como dever cumprido. O  povo pediu, nós, legisladores, concedemos ao estabelecer a lei, assim devem pensar. E, conscientes de que deram a sua contribuição final para a melhoria da educação pública, irão cuidar de outros assuntos, alguns que até chegam a tirar-lhes o sono, como a reforma política, que pode lhes complicar suas carreiras, suas vidas.

Muitos do povo, estavam ou não nas ruas, parecem compartilhar com a ideia de que a qualidade da educação brasileira estará garantida, ainda que seja para a próxima geração, com os royalties do petróleo para a educação. Parece-me que na euforia da conquista se escondem várias armadilhas.

 O que garantiram para a educação foi 75% de um dinheiro que ainda não existe. O petróleo que gerará a riqueza cantada e decantada por um ex-presidente jaz, inerte, em camadas muito profundas do leito do oceano. As empresas de um bilionário brasileiro indo à bancarrota deveriam ter acendidos a famosa luz amarela do alerta. Uma das razões das ações do conglomerado terem praticamente virado pó na Bolsa de Valores se deve aos problemas com a empresa que explora(ria) petróleo, Seus técnicos e executivos desistiram da empreitada. Alegaram que ainda não existe a tecnologia adequada para tirar o ouro negros dos poços que ganharam em licitação, que a extração não é financeiramente (ou seria economicamente?) interessante. Se esse petróleo estava na conta daquele projeto de lei aprovado pelo Congresso, a educação acaba de ficar com 75% de nada, ao menos de uma parte.

Quando haverá a tecnologia necessária para extrair, de forma financeiramente viável, esse ouro negro que nos tornará país rico? Não sei! Alguém sabe? Talvez o pessoal da Petrobrás saiba. Mas aí a questão pode passar a ser “quando˜, pois reiteradamente a mídia aponta um possível encolhimento da capacidade de investimento da empresa que ainda (até quando) é orgulho do povo brasileiro.

Quando esse ouro negro jorrará, finalmente, gerando a riqueza que jogará a nossa educação lá para o alto, para o mesmo nível dos países do chamado Primeiro Mundo?  Não sei! Alguém sabe?

Será a próxima geração de brasileiros beneficiada com a educação de qualidade forjada a partir do ouro negro do pré-sal? Ou será a seguinte? Não sei! Alguém sabe?

Pois é, o que me preocupa é que até agora ficamos com promessas. E promessas não mudam a escola, não asseguram a melhoria da qualidade da educação. Promessas já tivemos muitas mas o que muda a escola, para melhor ou para pios, são atos concretos.

Mas sejamos otimistas; afinal sonhar nada custa. Vamos supor que o dinheiro que irrigará a escola brasileira jorrará, para valer, no tempo da próxima geração. Essa montanha de dinheiro resolverá os problemas da educação brasileira? Não estou convencido,.

Não me alinho com aqueles – notadamente economistas – que “ensinam” sobre a educação em páginas de jornais e revistas de ampla circulação, para os quais o problema da educação brasileira não é falta de dinheiro; seria apenas falta de gestão. Penso que temos, na verdade, os dois problemas: faltam recursos e o que está disponível é mal administrado. Por isso o meu convencimento de que ter mais recursos, muito mais aliás, necessariamente não tirará a nossa educação do fosso onde está, não fará jorrar a qualidade. Não haverá postos de sucesso, por mais dinheiro que houver, se a sua administração não for adequada e se muita coisa não mudar. Resta saber se haverá vontade e, em alguns casos, coragem para mudar as coisas que não podem permanecer como estão.

A educação é uma questão sistêmica, não pontual, que exige tempo para a solução dos problemas. Esse tempo vai muito além dos 4 anos de um mandato de prefeito, governador ou presidente da República. A  Educação precisa ser vista como questão de Estado, não de governo. Mas caberá a cada um destes, no seu tempo, de 4 ou 8 anos, dar conta de uma parcela das ações concretas que assegurarão a qualidade necessária na escola.  Até que isso seja fato, as promessas de melhoria da educação serão apenas isso, promessas, ainda que irrigadas com o ouro negro. Eis aí uma questão para ser pensada neste ano de eleições.

WebQuest: um uso inteligente da Internet na escola

19/01/2010

Continuo resgatando alguns textos publicados no meu extinto site Educ@re [algumas web pages do velho site estão armazenadas no Internet Atchive Wayback Machine], nos quais tratava de questões relacionadas às tecnologias digitais na escola. Abaixo está o editorial que ali publiquei em outubro de 1999.


Em 1995, Bernie Dodge, professor de tecnologia educacional da San Diego State University (SDSU), nos Estados Unidos, desenvolveu um formato de lições baseadas na WWW (World Wide Web). Suas idéias iniciais estão disponíveis no artigo Some Thoughts About WebQuests, que posteriormente foi publicado em The Distance Educator.

Naquele artigo, Dodge definia um WebQuest (que em português pode ser entendido como Busca ou Aventura na Web) como sendo:

.. uma atividade orientada para a pesquisa na qual algumas ou todas as informações com as quais os estudantes interagem vêm de fontes na Internet.

Desde então, a noção de WebQuest foi adotada e adaptada por professores dos mais diversos lugares, especialmente nos Estados Unidos. 

O WebQuest vem sendo reconhecido como uma opção valiosa quando se pretende integrar a Internet de forma produtiva na escola, como apontado no artigo Integrating the Internet into the Curriculum: Using WebQuests in Your Classroom, e para promover a chamada alfabetização tecnológica na sala de aula, com destaca Kenneth Lee Watson no artigo WebQuests in the Middle School Curriculum: Promoting Technological Literacy in the Classroom, publicado em Meridian, um periódico on-line.

É ainda reconhecido como uma ferramenta construtivista, como aponta o WebQuest desenvolvido por Jim Andris, da  Southern Illinois University, que tem o título de “WebQuest as a Constructivist Tool“.

Um artigo recente de Maureen Brown Yoder, The student WebQuest, publicado no volume 26/número 7 da revista Learning and Leading with Technology, da   ISTE – International Socitety for Technology in Education, além de trazer alguns exemplos interessantes de WebQuests , mostra a utilidade desse recurso pedagógico, um uso da Internet produtivo e provocativo da reflexão.

Kathy Schrock, de Massachusetts (USA), ensina seus alunos de Pós-graduação a organizar um WebQuest e desenvolveu um excelente slide show para explicar o conceito e as principais características.

Aulas e seminários sobre WebQuest estão se espalhando para todos os lados.

O site The WebQuest Page [A página do WebQuest], organizado por Bernie Dodge, traz várias informações úteis para quem quer entender mais sobre essa forma de utilização da Internet na escola.

Quando planejava um curso que estarei ministrando em breve, utilizei os sites de busca da Internet para encontrar WebQuests em língua portuguesa. Lamentavelmente não encontrei registros de uso dessa estratégia no Brasil. É uma estratégia que, assim penso, deveria estar merecendo atenção dos educadores no momento em que tende a se ampliar o uso do computador e da própria Internet na escola.

Por isso mesmo, decidi abrir uma seção no Educ@re para a publicação de WebQuests em língua portuguesa.

A  coleção está disponível em: http://www.gcsnet.com.br/educare/ed380000.html [hoje, em 2010, esse link não está mais funcionando]

Já estou disponibilizando um primeiro WebQuest na nova seção do Educ@re. Trata-se de “Um WebQuest sobre WebQuests“. Eu estarei utilizando esse WebQuest num curso sobre o uso educacional das novas tecnologias da informação que estarei ministrando no dia 20 de novembro próximo para professores, no Colégio Nossa Senhora das Dores, em Belo Horizonte.

Todos aqueles professores que quiserem publicar seus WebQuests poderão nos contactar. Estarei esperando pelas críticas ao meu WebQuest e por novos WebQuests que possam ser úteis a outros professores.

Investimentos em educação. Não dá para comparar o Brasil com o Primeiro Mundo

09/09/2009

A OECD tornou publico hoje o relatório “Education at a Glance 2009“, contendo indicadores da educação de vários países, além dos seus próprios membros. O Brasil foi incluído na coleta de dados, realizada em 2007.

Segundo o relatório, enquanto o gasto médio entre os países-membros da OECD por estudante na educação básica é de US$ 6,4 mil, aqui no Brasil o investimento é apenas da ordem de US$ 1,5 mil. Portanto, quatro vezes menor. Na educação secundária, equivalente ao nosso Ensino Médio, o gasto médio por estudante nos países da OCDE é de US$ 8 mil, cinco vezes o valor aqui investido. Já no ensino superior, a nossa despesa por aluno está bem próxima à dos países-membros da organização: US$ 10.067 contra US$ 12.226. Em resumo, gastamos pouco em educação básica quando em comparação com países desenvolvidos, enquanto o nosso dispêndio na educação superior está em padrão de primeiro mundo.

Mas quando se olha a qualidade de ambas as educações, estamos muito atrás da dos países mais desenvolvidos. Na educação básica colocamos pouco dinheiro, ainda que haja quem ache que é muito. E temos como resultado a qualidade correspondente a esse baixo dispêndio. Na educação superior, dispendemos muito para se obter pouca qualidade, como revelam os resultados do CPC e do ENADE recentemente divulgados.

O estudo revelou ainda que, nos países da OCDE, 6,1% do Produto Interno Bruto (PIB) é o percentual médio investido em educação. No Brasil, em 2006, o investimento foi da ordem de 4,9% do PIB.

Segundo a OECD, “os gastos nas instituições de ensino como percentual em relação ao PIB mostram como um país prioriza a educação“. De 2000 a 2006, o investimento em educação nos países-membros da OCDE, combinando todos os níveis de ensino, aumentou, em média, 23%. Nesse mesmo período, segundo o relatório, o Brasil elevou os gastos em 57%.

Portanto, se gasta cada vez mais aqui na Terra Brasilis, ainda que isso não venha implicando melhoria da qualidade da nossa educação. E essa constatação acaba provocando os “educonomistas”, como denomino aqueles economistas que só olham a educação pelos números do dinheiro, a proclamarem que não é preciso colocar mais dinheiro na educação brasileira. O que fazer então para sair do buraco?

Professor desvalorizado. E não só na Terra Brasilis

09/09/2009

Não valorizar os professores da educação básica não é privilégio de país atrasado, ainda que se queria avançado, como o nosso. Por exemplo, na Itália isso também acontece.
Segundo matéria do News Italia Press, o relatório “Education at a Glance 2009“, elaborado pela OECD com indicadores da educação de vários países – incluindo o Brasil – coletados em 2007, os professores italianos são deixados sozinhos. Mais da metade deles [55%] não recebe qualquer avaliação, positiva ou negativa, sobre o trabalho que desenvolvem. Não se valoriza a sua atividade. E, óbvio, essa desvalorização acaba se refletindo no salário dos professores.
A desvalorização do professor é notória no Brasil, ainda que encontremos aqueles que pensam de forma diferente. Há muito os professores, especialmente os da Educação Básica, deixaram de ser considerados e respeitados. Ao contrário, notadamente os de escolas públicas tornaram-se vítimas de constantes violências, da verbal à agressão física. Na semana passada mesma, um aluno colocou uma bomba caseira sob a mesa de uma professora de uma escola pública estadual aqui em Belo Horizonte. Segundo o diretor da escola, a professora estaria substituindo outra profissional e teria método de ensino severo.
Mas, convenhamos, se a função docente fosse socialmente reconhecida como se espera, se esse reconhecimento se traduzisse também em salário decente, nossas licenciaturas não estariam se esvaziando como estão. Ou será que nossos jovens seriam burros a ponto de fugirem de uma profissão valorizada?
Há poucos dias conversava como meu filho, que conclui o Ensino Médio em uma escola particular que atende classes econômicas mais privilegiadas [apesar de sermos um casal de professores, fazemos esse investimento no nosso filho, com tudo o que representa em dispêndio financeiro]. Nenhum aluno ou aluna do 3o ano do EM desta escola pretende cursar uma licenciatura ou um curso de Pedagogia. Suas opções são, essencialmente, pelas carreiras tidas aqui como “nobres”. Querem ser advogados, médicos, engenheiros e coisas assim. A propósito, meu filho é o único em algumas dezenas de estudantes que pretende fazer Relações Internacionais. Mas seu projeto futuro é o Instituto Rio Branco. Filho de professores, quer distância dessa carreira. Alega que trabalhamos muito e, ele mesmo reconhece, temos muita chateação por conta do trabalho. Mas ele se orgulha dos seus pais que escolheram educar jovens e adultos.

A propósito do relatório da OECD. Ele foi publicado hoje é possível obter cópia, gratuita, do texto em inglês, em arquivo com formato PDF [clique aqui].
É um volume grande, com mais de 400 páginas. Para quem tem pouco tempo para ler tanta coisa, uma dica é um resumo dos principais achados, em versão em português.
Há também uma versão em francês do relatório. “Regards sur l’éducation 2009: Les indicateurs de l’OCDE” está online. Clique aqui para obter a cópia.